Ponto a ponto // José Marton

Cenografia made in Brasil

Para o designer José Marton, a criação de ambientes é uma forma estética e palpável de transmitir sensações. Esse amante da arte também empresta seu talento ao desenho de produtos, de lojas e de móveis

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postado em 06/12/2015 08:00 / atualizado em 04/12/2015 15:30

Juliana Contaifer


Zuleika de Souza/CB/D.A Press



O artista plástico José Marton, 49 anos, é um homem de conversa fácil. De toque, de olho no olho. É uma pessoa acessível. E quem o vê sossegado, conversando com a reportagem, enquanto toma um sorvete, não imagina os milhões de projetos que passam pela cabeça do artista, designer e colecionador de arte, entre outros muitos ofícios que acumula. Marton é conhecido principalmente por três linhas de trabalho: a cenografia, a arquitetura de varejo e o design de produto. Uma anda casada com a outra e interferem mutuamente entre si. Pela excelência do trabalho, ganhou um dos prêmios mais prestigiados do segmento, o iF Design Award (2006/2007), na Alemanha.

Mas talvez seja pela cenografia que o artista plástico se destaca. Responsável por criar a ambientação, transmitir o sentimento e a inspiração do estilista ou produto, Marton quer mesmo mudar o jeito pelo qual se interage com o ambiente e com a arte. E faz isso por meio da sua cenografia. Por ela, transmite sensações. Já fez muitos desfiles, é conhecido no São Paulo Fashion Week pelo seu trabalho; levou um cocar gigante para mostrar a brasilidade de uma coleção apresentada em Nova York; lançou novos produtos e já montou o cenário perfeito, milimetricamente pensado, para um casamento.

Ele esteve em Brasília para montar a árvore de Natal do shopping CasaPark. Marton conversou com a Revista sobre uma vida dedicada à arte. Falou sobre sua infância no interior, sobre seu trabalho, sobre seus planos e sobre o sonho de viver caçando arte Brasil afora.


A infância no interior
“Costumo dizer que minha infância foi inventiva. Nasci em uma cidade muito pequena, Cajobi, no interior de São Paulo. Se tivesse mil habitantes, era muito. No começo da década de 1970, você não tinha as possibilidades que se têm hoje em brinquedo. Nunca tive, mas adoraria ter ganho um Lego. Minha brincadeira era pegar toquinhos de madeira na marcenaria do meu pai e empilhar. Ia criando a minha cidade. Eu fazia uma construção de universo que, hoje, em uma autoanálise, percebo que era quase de uma criança autista. Passava meus dias debaixo de uma mesa criando um universo cenográfico, com frutos que caiam, com coroas de abacaxi. Em paralelo a isso, entrava em todas as casas em construção para entender como eram. Passava tardes olhando o pedreiro colocar tijolos na construção da loja do meu pai. A infância me proporcionou esse envolvimento com o trabalho manual.”

A escolha pelas artes plásticas
“Eu queria ser padre. Depois, resolvi ser médico. Na pré-adolescência, eu me deparava fazendo cirurgia em lagartixas, queria tirar o coração para ver como era. Depois, enterrava o bichinho. Logo que saí da escola, indeciso se faria arquitetura ou artes visuais, fiz um ano de contabilidade industrial. Não tem nada a ver, mas me deu uma base muito positiva para negócio. Decidi então fazer artes plásticas na Santa Marcelina e foram quatro anos muito intensos. Ficava das 7h às 23h na faculdade. Aprendi muito. Colaborei na organização do salão universitário e isso me deu uma visão muito grande do que é fazer um evento e receber 90 obras. Aprendi a correr atrás, a buscar patrocínio. Foi muito rico.


Fiquei um tempo pensando no porquê de não ter feito arquitetura, mas, depois de anos, percebo que as artes plásticas foram a melhor escolha que fiz na minha vida. Consigo permear todos os segmentos sem essa coisa muitas vezes rígida que a arquitetura tem. A escola brasileira é muito rígida, não dá muita liberdade de recriar a forma como o ser humano se desloca.”

A cenografia
“Para falar a verdade, entrei na cenografia em um empurrão. Sempre trabalhei com arte. Foi um susto esse mundo novo. Eu fazia expografias para museus até que o grupo LVMH me convidou para fazer um projeto com o Pedro Mendes da Rocha, que era o lançamento de um produto da Givenchy chamado Rouge Miroir. Tendo a indústria ao meu alcance, eu pintava e bordava. Podia testar tudo. Colocamos as quatro sensações que o produto passava em um espaço pequeno. Olho como artista, não como cenógrafo. E a coisa começou a se estender.


Alexandre Herchcovitch me convidou para fazer o lançamento das joias dele e a primeira frase foi: ‘não tenho verba, mas preciso que seja genial’. Eu estava começando. O lançamento seria em um restaurante e acabei percebendo que as joias são como os doces: um desejo. Tiramos todos os doces da vitrine e substituímos pelas joias. Em 1999 para 2000, cheguei de vez na moda. Comecei com um trabalho para a Fórum, fiz um desfile para o Alexandre e, depois disso, acho que trabalhei com quase todos os estilistas. O Paulo Borges, do SPFW, me chamou para criar cenografias. O Fasano queria que eu fosse cenógrafo oficial dos casamentos, mas aí achei que era demais.
A cenografia é efêmera, lhe dá a liberdade de acertar e de errar e de repensar em uma rapidez que a arquitetura não oferece. Aprendo mais com os erros do que com os acertos e acho maravilhoso. Não conseguiria passar minha vida inteira repetindo o mesmo efeito. Sou movido a desafios. Viro noites, é desgastante, mas aprendo muito. Atuando há quase 20 anos em cenografia, consigo enxergar meus erros, e acredito que essa autocrítica é importante. Sou muito aberto às críticas dos outros, desde que tenha discernimento do que está falando. Aprendo muito com meus clientes, é preciso estar aberto a essa conversa e não levar para o lado pessoal. Quem te chama para falar do que foi negativo quer continuar trabalhando com você, quer que você melhore. Caso contrário, passaria batido.”

Arquitetura de varejo
“Em paralelo à cenografia, passei a fazer arquitetura de varejo. Quatro anos depois de ter começado a fazer desfiles de moda, desafiei um empresário. Disse que eles não sabiam fazer loja, que era preciso criar uma experiência. Ele concordou. Foi uma grande descoberta, reformar uma loja é algo muito caro, uma obra que precisa ser feita no período noturno. Por isso, uma marca se reposiciona, faz reformas, a cada cinco ou seis anos. Aplico muito a cenografia, penso em um sistema de fazer que se torne mais ecológico no futuro, um tipo de iluminação que evite ter que quebrar paredes. É um trabalho difícil, de pesquisa, de matéria-prima. De educar a equipe, que quer fazer bonito, mas nem sempre o mais bonito é o mais prático. E esse trabalho se mostra necessário. O cliente se sente atraído por aquele local e as vendas costumam aumentar.”

A estampa
“O design de produto também aconteceu de um modo paralelo. Em 2000, entendi que podia transitar pelos universos. Artista é designer. Tinha um questionamento sobre superfície. No interior a gente tem o hábito de ter sempre toalha à mesa, uma renda para cobrir o liquidificador, um paninho no fogão. Mas gente, não precisa. Comecei a trabalhar com desfile e percebi que não tem móvel estampado, foi uma coisa muito marcante na década de 1970, mas não se tem mais hoje.
Eu me deparei com uma pilha de acrílico e decidi que ia fazer acrílico listrado. As empresas falavam ‘imagina, não existe a mínima possibilidade’. Resgatei aquele menino que ficava juntando coisas e fiquei dentro do ateliê fazendo testes durante dois anos para conseguir fazer uma placa de 30x30cm. Documentei tudo e fui direcionado a fazer uma patente. Hoje esse sistema está dentro de uma indústria no sul do país. Eles têm um contrato de execução e comercialização do produto. De lá para cá, a tecnologia foi muito aprimorada, e tenho mais liberdade para criar. O acrílico não é um material que te dá liberdade, não dá para querer 15 cores para criar uma estampa. São sete toneladas e meia de acrílico para criar um tampo de mesa. Temos que trabalhar com a estética, o design e a produção.”

O instituto de design
“Estamos planejando um instituto de arte, moda, arquitetura, design e gastronomia. A grande dificuldade que vejo no nosso país é a pesquisa. Não temos um centro de pesquisa onde eu possa saber tudo que há de informação sobre um grande artista. A Lygia Pape, por exemplo, se não fosse a filha dela catalogando, não existiria memória. Sem informação, acabamos fazendo algo que já foi feito. Começaremos com arte, em um espaço que seja pequeno e híbrido. A ideia é pesquisar quatro artistas da minha coleção e montar um banco de dados para as pessoas começarem a entender. Eu quero que você saiba tudo sobre Cildo Meireles. Existem cinco teses sobre ele, mas alguém precisa compilar tudo e disponibilizar a informação para que um curador saiba quem ele é e informe um museu do outro lado do mundo. Vai ser um banco de dados em nuvem. O objetivo é ser referência internacional de pesquisa nos segmentos em que o instituto atua.”

O sonho
“Se eu tivesse alcançado a minha tranquilidade financeira, talvez rodaria o Brasil comprando arte. Comprando, negociando, trabalhando intensamente com arte para realmente fazer o que eu mais gosto: colecionar arte. A arte me dá um motivo muito grande para tocar a vida, me reinventar, ver que há um sentido profundo e diferente.”

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