CRÔNICA DA CIDADE

A frequência do coração

No auge do trânsito borbulhante, você pode afugentar os maus pensamentos com a frequência oitenta e nove megahertz e nove décimos

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postado em 16/12/2015 08:00 / atualizado em 16/12/2015 17:14

Wanderlei Pozzembom/CB

A Brasília Super Rádio FM tem esse dom. Em dias abafados, a estação preencherá o veículo com uma lufada de temas orquestrais, autoconfiantes e garbosos como Burt Bacharach. Melhor que ar-condicionado. (A programação noturna não decepciona, eu garanto, com os naipes de cordas licorosos e aveludados de Suave é a noite.)


Na verdade, quando o ouvinte sintoniza a 89,9, não está apenas “consumindo” música: é uma oportunidade de reviver a essência da grande personalidade que foi Mario Miguel Nicola Garofalo (1920-2004). Italiano nascido no Ceará, muito religioso, notório pé de valsa e apreciador de ópera, ele criou a rádio à sua imagem e semelhança. O entusiasmo do jornalista precisava ser comunicado, se possível, a uma multidão. E não poupou esforços, a começar pela transmissão de estreia, em 30 de junho de 1980, abençoada pelo papa João Paulo II.

“A rádio era puramente o gosto do Mario. Ele trazia um baú de casa e separava os discos. Dizia: 'Pega esse, põe aquele'. Todo mundo ficava zonzo. E, no fim, saia uma coisa harmoniosa, com sequência”, lembra Lúcia Garofalo, companheira de jornada. De algum modo, o caráter explosivo convivia com o cavalheirismo. “O Mário dizia que a gente nunca blefasse com o ouvinte. Durante a transmissão, ele avisava: 'Agora, vou pedir licença aos senhores para colocar um disco que tem um arranhado, mas é uma peça tão rara, tão bonita, que eu gostaria que os senhores ouvissem levando isso em consideração'.”

O homem era mesmo um vulcão. Aos sábados, depois das 22h, até hoje vai ao ar o Rádio Baile, reprisado no dia seguinte como Tarde Dançante Dominical. Quando o programa foi idealizado, Garofalo não se contentava em escolher o repertório — tinha que experimentá-lo. “Mário me fazia ficar aqui, na rádio. Eu não danço muito, mas ele conduzia muito bem. Então, com ele, eu ia pra qualquer lugar. Ele dizia: 'Lúcia, vamos ver se essa música dá para dançar. E ia até uma hora da manhã. Ele era tão empolgado e a gente tinha tanto companheirismo, sabe? Não tinha como deixá-lo na mão.”

Lucia não teria segurado o rojão se ela própria não fosse uma pessoa incrivelmente cheia de vida. Hoje, acumula os papéis de locutora, produtora, diretora e proprietária da Brasília Super Rádio. O incentivo vem dos ouvintes. Um dia desses, ligou uma moça e perguntou: “Lúcia, está tudo bem? É que achei sua voz tristinha...”. Tem médico que só opera se o som ambiente vier da 89,9. “Existe até um padre que faz orações pra gente, porque acha que a rádio joga uma energia muito boa. Eu adoro isso: se puder ajudar na saúde mental das pessoas, se servir como musicoterapia, então já valeu.”
Wanderlei Pozzembom/CB
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