CRÔNICA DA CIDADE

O fazedor de músicos

Conheci a lenda antes do homem. Sidney Barros, o Gamela, havia encaminhado na música uns caras fantásticos, como Genil Castro, Nelson Faria e Lula Galvão. Era o herói dos meus heróis.

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postado em 18/12/2015 15:01 / atualizado em 18/12/2015 18:46

Gustavo Falleiros

Ricardo Borboa/CB/D.A Press
Passaram por suas mãos Cássia Eller, Dado Villa-Lobos e Herbet Vianna, mas esses aí ele dava uma esnobada. Entrei na fila e xeroquei diligentemente aquela primeira versão do Método Gamela, o famoso “Picaretinha” (cortesia do Juliano Benvindo). Foram anos namorando aquele arranjo de Manhã de carnaval.

Quando, finalmente, houve um tête-à-tête, o mestre estava recém-fugido daquela temporada absurda no hospital. Ele, que havia sido desenganado tantas vezes, voltava a empunhar o glorioso combo copo-de-vinho-e-violão. Era novembro de 2009 e eu adentrei a casa 36, Bloco H, da 704 Sul com uma oferenda: o disco ao vivo do Baden Powell no Teatro Santa Rosa. Ele retribuiu com a versão chique do método e um “vai estudar, garoto”. Por que diabos eu não colhi uma dedicatória?

Nem tanto remorso, mas saudade. Gamela se foi em 16 de junho de 2013. A lembrança bate assim, em descompasso com as efemérides. Geralmente, é um recado do instrumento ao reconhecer o DNA sonoro. Gamela, quando você reencarna? Pergunto isso porque ele acreditava, porque foi um espírita dedicado e porque dizem que, nas noites de sessão, a energia emanada era tanta que perturbava a rede elétrica da vizinhança. Ademais, era evidente que a força que o animava não era puramente física. Ensinar era o seu carma.

É bem verdade que a “didática”, às vezes, assustava. O mais comum era chocar o discípulo com uma paulada inesperada, do tipo: “Se quer moleza, vai estudar engenharia!”. Daí amarrava a tromba e ficava esperando a reação. Se o neófito se recompusesse, ganhava uma gargalhada de recompensa. Muitos se magoavam. Hoje, penso que o velho Sidney estava na linhagem dos monges zen que tentam quebrar os condicionamentos limitantes do ego com um golpe de bambu ou uma parábola sem pé nem cabeça. O koan dele era uma variação do seguinte pensamento: “A música serve para fazer o bem, para encerrar uma mensagem positiva. No caso da música, o meio é a mensagem”.

Nem sei se tenho qualquer autoridade para falar essas coisas, mas é o que ficou da última visita. Ele comentou sobre o Victor Assis Brasil e espezinhou demoradamente o Guinga, que eu adoro. Advertiu para passar longe de “letrista tarja preta”, que nem o Aldir Blanc (pô, Gamela!), e que jamais soasse como um “mineiro cabisbaixo” (valha-me, Toninho Horta!). Botei a viola no saco e saí correndo. No carro, pude celebrar sem receio: o professor me admitia no seleto grupo dos que mereciam seus conselhos. Que bullying sensacional!

P.S.: Genil e André, por favor, entreguem ao mundo o documentário sobre o mestre. Leitores, vejam com os próprios olhos este fenômeno:
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JOSE
JOSE - 24 de Dezembro às 11:04
Gamela era realmente o "Mestre". Formou vários violonistas em Bsb. Só achei que poderia ser escolhido um vídeo que mostrasse mais um pouco da seu talento...