CRÔNICA DA CIDADE

Café do Fritz

Madrugada adentro, litros e litros de café acompanharam as conversas de pai e filho no ocaso de uma vida

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postado em 31/12/2015 09:32 / atualizado em 31/12/2015 09:40

Gustavo Falleiros

Ana Rayssa/CB/D.A Press

A civeta é um mamífero carnívoro de pequeno porte e hábitos noturnos, semelhante a um gato. Na Indonésia, é alimentado com o fruto do cafeeiro por interesses comerciais. Instintivamente, o bichano seleciona os exemplares mais doces e maduros. Apenas a polpa é processada pelo organismo do animal — os grãos saem intactos do outro lado. A partir das fezes, obtém-se o festejado kopi luwak. Custa cerca de US$ 1.000 o quilo.

 

Luis Henrique já provou e não se impressionou. Prefere a despretensão do espresso duplo servido no Ernesto, na 115 Sul. Valoriza não apenas a qualidade da bebida, mas a hospitalidade do ambiente. À nossa volta, a clientela conversa em voz alta e o sábado ensolarado parece eterno e dinâmico como uma lâmpada incandescente. "A vida tá aqui, regada a café. O espaço te energiza para conectar as ideias."

 

O aroma da moagem recente tem o condão de reconstruir a casa dos pais, em Curitiba, e parte do ritual familiar. O café proporcionava três pousos estratégicos. "De manhã, o primeiro que acordava esquentava a água. Os outros vinham para dar ignição ao dia." À tarde, dona Juvelina assava um bolo, fazia sonho ou cueca virada. "Mas os grandes pensamentos eram reservados ao café da noite." Era quando o carisma impressionante de seu Oswaldo vinha à mesa. Um carrocel que precisou de ajustes após a mudança de Luis para Brasília.

 

Há outras camadas de significado, mais recuadas no tempo. Uma foto em preto e branco traz notícias de Frederico, o Fritz, pai de Oswaldo, avô de Luis. Um homem negro, muito alto, gravata sob o avental branco, mão direita na cintura e olhar profundo. Provavelmente, anos 1940. É quase certo que seja um registro do Café Alvorada, uma verdadeira instituição paranaense. Ficava no centro e, como Fritz era o barista, via e era visto — todos o conheciam. Quando primos e irmãos se foram, Oswaldo passou a ser o último portador dessa lembrança.

 

Em 2012, Luis conseguiu trazer os pais para perto de si. Nas malas, pacotes de Café Damasco, que tem o cheiro exato do lar. E o ritual se reestabeleceu. "Acabou se tornando o nosso farol." Com a idade, Juvelina ficou mais diurna e Oswaldo, noctívago. Madrugada adentro, litros e litros de café acompanharam as conversas de pai e filho no ocaso de uma vida. Os derradeiros lampejos daquele senhor incrível ocorreram em junho.

 

Nenhum conforto é possível, mas o coração pede alegorias calorosas. "Você pode imaginar o que quiser sobre o outro lado." Luis imagina a filial premium do Café do Fritz. A família toda reunida. Barulho. Festa. "Ele está lá, recebendo as pessoas." As xícaras reluzem em nossas mãos.

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