Crônica da Revista

Quem ama liga

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postado em 04/01/2016 13:49 / atualizado em 04/01/2016 13:53

Fernando Lopes/CB
 
 
 
Minha mãe, que nunca enviou um e-mail na vida, não desgrudou do celular durante as festividades de fim de ano. Era um tal de receber e responder mensagens de felicitação pelo Natal e pelos votos positivos para o ano que chegava... E a cada apito eufórico de novo texto, ela fazia um comentário, lia os anseios das pessoas em voz alta, colocava a música do gif para tocar. Ela se divertia com a interação dos parentes e dos amigos, distantes ou que estivessem aqui ao lado. Até que escolheu uma das mensagens entre as recebidas para replicar. As felicitações padronizadas se encaixariam para qualquer amigo. “Pronto, assim resolvo tudo!”, exaltou.

Eu, que acompanhava aquela agitação, concluí que sou mesmo avessa a esse troca-troca de carinho virtual. Sou da geração que cresceu sem internet, WhatsApp ou Skype. Para falar com a família ou com os amigos que estivessem longe, só mesmo pelo telefone ou por carta. Esta última, tinha que ser escrita a mão. Só fui ter computador quando já estava na faculdade. Sorte de quem era dono de uma máquina de escrever e impressora era um luxo. Então, para dar notícias, era preciso parar tudo, escolher um canto da mesa e gastar tinta da caneta.

Ah, como sinto falta disso! Nasci e morei boa parte da minha vida em Brasília, mas meu sangue é mineiro e a família continua vivendo por lá. Também fiz amigos por aquelas bandas e era para essas pessoas que escrevia longos textos em folha A4. Tenho, até hoje, todas as respostas que recebi. Estão todas em uma caixa, separadas pelo nome do remetente. Lamento que a nova geração talvez nunca vá saber quão deliciosa é a sensação de esperar uma carta entregue pelos Correios.

A primeira coisa que eu fazia ao chegar da escola era conferir se tinha algum envelope endereçado a mim. A ansiedade aumentava quando uma resposta era esperada. E ela sempre vinha. Nenhuma amizade resistia a uma desfeita de não receber um retorno. Coisa que é tão simples de se fazer hoje: você olha a mensagem no celular, não lê, deleta e assunto encerrado. Na época em que se escrevia, era afronta e indelicadeza não retribuir o remetente.

Deliciosa mesmo era a carta volumosa: sinal de que as coisas estavam movimentadas na vida das amigas e as fofocas de família pipocando. Não só eu penso assim. Mês passado, estive em Belo Horizonte para participar do casamento de uma dessas correspondentes de infância/adolescência. Rimos juntas e, cúmplices, contamos uma à outra, que, quase 20 anos depois, guardamos as cartas trocadas. Eu aqui e ela lá. Se juntarmos os papéis, remontamos cada detalhe dos momentos que desfrutamos naquela idade. Combinamos de fazer isso em breve. Estou certa de que será uma delícia reler a história que eu mesma contei.

Esse é um privilégio que só tem quem escrevia em papel. A tecnologia dá pau. Ela nos faz perder e-mails, nos obriga a apagar as mensagens porque a máquina não comporta tanta conversa trivial. Assim, não sobra espaço para o que realmente é importante. Vai tudo para a lixeira, some na nuvem e se apaga da memória.

Quem tem cartas pode relê-las, relembrar episódios arquivados em algum cantinho esquecido do cérebro e do coração. As cartas têm cheiro. A letra tem personalidade. Emociona saber que alguém caprichou na caligrafia para impressionar ou, no mínimo, se fazer inteligível. Que fez um desenho junto com a assinatura só para demonstrar como estava feliz. Se a carta era de amor, a vontade era de abraçar a folha na tentativa de reconhecer nela o toque do outro. Por sorte, ela poderia, inclusive, vir com um respingado de comida ou com o aroma do perfume de quem a escreveu. A carta sempre estava cheia de digitais e isso fazia parte da emoção.

Quando faltava afinidade com as palavras ou tempo para a logística de enviá-las, os telefonemas resolviam. Eles eram tão acolhedores quando as letras. Ouvir a voz da pessoa do outro lado dava um frio na barriga. A risada do outro também te fazia rir. Pela voz, desenhavam-se na mente as feições de alguém que não se via há muito tempo, ou mesmo de quem você tinha visto há poucas horas, mas nunca tempo suficiente. Melhor ainda quando o “alô” era de quem se esperava. Nada disso você sente em um texto padrão, automático, ainda que seja para desejar felicidades. Uma pena!

A manifestação de carinho virtual roubou a sensação de sentir-se especial. Tudo passou a ser coletivo. Nada é personalizado. As mensagens nem chegam com seu nome. Afinal, você sabe, ela não foi enviada com exclusividade. Ninguém é único. Minha mãe, mesmo na euforia, retorceu a cara quando, em um dos recados que recebeu na noite de Natal, foi chamada de “querida”. Seria carinhoso não fosse o fato de que a amiga remetente nunca se referia a ela daquela forma. Inconscientemente, ela manifestou o desagrado por não se reconhecer como destinatária do texto e de fazer parte de uma grande lista.

Eu mesma passei por isso há uns anos. Um amigo querido, mas com o qual não falava há muito, muito tempo, me enviou uma mensagem pelo WhatsApp durante a ceia de Natal. O desejo de uma bela noite não vinha acompanhado de meu nome. O início era genérico e finalizado por um beijo. Pensei que ele tivesse mandado para a pessoa errada ou que estava em uma lista de contatos selecionada para receber a mensagem automática. Pela minha teoria, ao menos ele tinha me adicionado a ao grupo de amigas mulheres. Pensei que não mandaria “um beijo” para todos os amigos homens. Era um bom sinal, já que, pelo menos, tinha o mínimo critério de seleção.

A mensagem sem dono não me alegra. Pelo menos não toca meu coração. No afã de ser agradável com todos, não fazemos a diferença na vida de ninguém especificamente. Lemos e agradecemos por polidez. Mas, minutos depois, não nos lembramos mais do texto, muito menos de quem nos enviou. São todos iguais. Alguns são entediantes, aborrecidos e você logo apaga. Para evitar isso, não liguei nem mandei mensagem de fim de ano para ninguém. Preferi, ao longo do ano, encher a caixa do telefone dos meus amigos com discursos de agradecimentos e dizer o quanto eles são importantes para mim, pessoalmente, quando o coração pedia. Sem data especial.

Não desprezo aqui nenhuma manifestação de carinho, mas abraços comovem mais do que palavras digitadas. Uma voz emocionada ao telefone te arranca lágrimas, suspiros e sorrisos. Feliz da vida fiquei quando aquele mesmo amigo me ligou este ano para desejar Feliz Natal e um ano promissor. Agora sim, sabia que os votos eram dirigidos a mim. Isso é um grande presente. Afinal, discursos falados não são esquecidos. O coração não deleta emoção. Mas o celular, sim, pifa e apaga memória cheia.
 
 

Flávia Duarte (interina)
flaviaduarte.df@dabr.com.br
 
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