MEDICINA

Um remédio chamado trabalho

Na segunda reportagem sobre a vida após o câncer, contamos como foi a volta dos pacientes para a rotina e para o emprego. A mudança nos pensamentosdo corpo, os efeitos do tratamento e até o preconceito do outro interferem na retomada profissional, essencial para a cura da doença

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postado em 10/01/2016 08:00 / atualizado em 20/01/2016 10:47

Diz o ditado popular que o trabalho dignifica o homem. Mas será a labuta capaz de curá-lo? De acordo com uma pesquisa feita em setembro do ano passado pela organização sem fins lucrativos Cancer and Careers em parceria com a Pfizer, nos Estados Unidos, bater ponto pode ser de grande valia para pacientes oncológicos. Para os que não conseguiram continuar ativos, contudo, voltar ao batente depois do câncer é um desafio importante. Lidar com as novas limitações do corpo (causadas não só pelo desgaste do tratamento, mas por eventuais mutilações das cirurgias); com o medo de não conseguir retomar o ritmo; com a volta a um emprego que já não satisfaz mais, e outra infinidade de preocupações, são comuns.

 

Anderson Silvestrini, oncologista do Hospital Santa Luzia, explica que a primeira preocupação dos médicos é com relação à readaptação do paciente. Dependendo do tempo do afastamento — que pode variar de meses a anos — e da intensidade da doença, a forma como a rotina era levada antes, muitas vezes, muda drasticamente. “O paciente passou por uma situação complexa e as prioridades mudam”, completa. “Ainda tem o impacto de ter ficado muito tempo parado e ele pode encontrar uma certa dificuldade de voltar.”

 

A insegurança com relação à própria saúde também é um teste e tanto. O risco de uma recidiva (retorno do câncer após o tratamento) existe, mas não deve ser a tônica da “nova” vida. O paciente precisa fazer exames regulares, o que aumenta a angústia. “Existe um certo preconceito das empresas também. Conseguir um emprego dizendo que tem ou já teve câncer não é fácil.” As consequências do tratamento também são sentidas. Em certos casos, a pessoa já não pode mais fazer esforço com os membros ou precisará conviver com alguma incapacidade física, ainda que parcial, e não será mais o profissional mais indicado para certos cargos.

 

Trabalhar normalmente está incluído na lista de providências dessa retomada. “Se o paciente terminou o tratamento e está bem, por que não voltar ao trabalho? Não é uma sentença de morte. Até porque a pessoa sai fortalecida da doença, já sabe o que quer e como se colocar”, acrescenta Anderson. Mas o fantasma do retorno do câncer frequentemente assombrará tanto chefes quanto funcionários. Para vencer o preconceito, além de informação, a dica é se preparar física e psicologicamente. “Muitas vezes, isso exige uma mudança de visão das empresas, porque a maioria dos pacientes são curados hoje em dia. Eles precisam estar aptos e preparados para voltar para o mercado de trabalho”, avalia Fernando Vidigal, oncologista clínico e diretor médico do Centro de Câncer de Brasília (Cettro).

 

Fioravante Mieto Filho, 69, trabalhou na mesma empresa por 30 anos. Quando foi diagnosticado com câncer de próstata, em 2001, viu a vida mudar drasticamente.”Fui fazer um teste de resistência para saber se poderia fazer exercícios físicos e o médico me pediu um exame de PSA porque achou que eu estava com uma ‘cor feia’, um pouco avermelhada”, detalha. O exame feito por Fioravante detecta uma substância produzida pelas células da glândula prostática. Quanto mais PSA no sangue, maior a chance de o câncer de próstata se desenvolver.

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
 

 

As suspeitas iniciais do médico foram confirmadas com o resultado: enquanto a maioria dos homens possui até quatro nanogramas PSA por cada mililitro de sangue, Fioravante estava com oito. “Ele, imediatamente, me encaminhou para um urologista.” A biópsia feita pelo especialista revelou que o tumor na glândula era, realmente, maligno.

 

De cara, Fioravante pensou que fosse morrer. “Meus tios e meu pai também tiveram a doença e vi o sofrimento deles. O câncer de próstata atinge a coluna quando se expande e é extremamente doloroso”, explica. “Fiquei pensando: ‘E agora?’ Não sabia como ia dirigir minha família, que ficou apavorada.” A essa altura, os médicos ainda desconheciam a extensão do tumor do aposentado, o que só poderia ser confirmado após a cirurgia. “O tratamento foi a operação e o uso de hormônios. Não precisei de quimioterapia e só fui fazer radioterapia seis anos depois, quando o câncer voltou.” Na época da recidiva, o aposentado precisou de 39 sessões de radioterapia.

 

Na primeira vez em que foi diagnosticado, Fioravante era coordenador de Orçamento e de Finanças da Presidência da República. Ele teve que se ausentar durante o tratamento, mas depois voltou e assumiu o mesmo cargo. “Para mim, a volta foi boa. Os outros que me olhavam com cara de cismados: ‘Será que esse coitado vai aguentar?’”, diverte-se. Ele estava, realmente, diferente: dos 108kg que tinha antes de adoecer passou para 68kg. “O problema das pessoas é a desinformação. Como é uma doença agressiva e, antigamente, só sobrava alguém por mero milagre, você fica com aquele medo. Eu tinha certeza de que ia viver, os outros é que achavam que eu ia morrer.” Atualmente, ele está aposentado há cinco anos. Depois do câncer, a vida mudou: nada de bebida ou “exageros”. O estresse é visto como uma perigosa armadilha, na qual pretende nunca mais cair. “Você tem que mudar, senão, a tendência é ele voltar. Hoje, sou uma pessoa mais otimista.” 

 

 

Sossego como remédio
Estar aberto a mudanças é o caminho menos doloroso para facilitar a readaptação. Vladimir Melo, terapeuta familiar e mestre em psicologia, explica que o mais importante é que o ex-paciente consiga construir nos ambientes sociais relações próximas em que seja possível ter apoio. “O mais complicado é quando a pessoa se isola. Este é o maior perigo”, alerta. A vida, naturalmente, jamais será a mesma. Depois da doença, exageros devem ser banidos da rotina. “O estilo de vida vai ter que mudar. A pessoa precisará lidar, ainda, com outras transformações, como plásticas e reabilitação.”

 

Passar por todo o esgotamento envolvido em um tratamento contra o câncer, conviver com o incômodo dos efeitos colaterais  — que nem sempre desaparecem junto com a doença — já é uma carga considerável de estafa. Por isso, no retorno ao emprego, a palavra de ordem precisa ser só uma: desacelerar. De acordo com Daniela Dornelles Rosa, vice-presidente do Conselho Científico da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) e médica oncologista do Hospital Moinhos de Vento, o recomendado é optar por um trabalho sem estresse emocional. “O ideal é que o trabalho seja uma válvula de escape para uma vida normal, que contribua para a qualidade de vida”, completa.

 

Uma queixa comum dos ex-pacientes, segundo Daniela Rosa, são pequenos lapsos de memória. Mesmo assim, não há motivos para ter medo de retomar ao batente. O sintoma, em geral, some com o passar do tempo e é tão leve que a própria pessoa aprende a contorná-lo com facilidade. Os fatores emocionais, contudo, são os que mais influenciam a forma como a nova fase profissional será encarada. “A pessoa volta diferente”, analisa a médica.

Leia a reportagem completa na edição nº 556 da Revista do Correio.

 

 

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