REPORTAGEM DE CAPA

Matriz africana

O orgulho dos antepassados africanos movimenta, cada vez mais, a cultura e os serviços da capital

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postado em 10/01/2016 08:00 / atualizado em 08/01/2016 19:23

Zuleika de Souza/CB/D.A Press


Conhecido como "país da miscigenação", o Brasil tem dificuldade em aceitar suas raízes africanas.
Isso se vê na intolerância para com os terreiros de candomblé; no hábito de chamar cabelo crespo de "ruim"; no racismo velado. O discurso da democracia racial encobre a marginalização de características físicas e culturais. Ainda assim, existem esforços tanto institucionais quanto particulares para reverter a situação. 

 

A Lei nº 10.639, de 2003, torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileiras na rede pública e privada de ensino. Segundo a Fundação Cultural Palmares/MinC, falta a implementação completa da norma. Cláudia Denis, da Gerência de Direitos Humanos e Diversidade do Ministério da Educação, explica que o assunto é abordado nas aulas de forma transversal, em todas as matérias, e os professores são formados para isso. "Não há uma disciplina específica, mas, nas aulas de história, por exemplo, eles são orientamos a dizerem ‘vieram pessoas que foram escravizadas aqui’, em vez de ‘vieram escravos negros da África’. Isso faz toda a diferença", explica.
 
Na capital, o réveillon dedicado a Iemanjá, na Praça dos Orixás, cresce a cada ano — embora alguns relutem e outros cheguem a atacar a religião. Dias antes da tradicional festa, a estátua de Oxalá foi depredada. Há cerca de dois meses, um incêndio destruiu o terreiro de candomblé Axé Oyá Bagan, no Paranoá. Outros dois terreiros já haviam sido queimados no Entorno do DF em setembro: um em Águas Lindas e outro em Santo Antônio do Descoberto. Preocupadas, mas otimistas, algumas lideranças do movimento negro acreditam que esse tipo de agressão não acontece apesar do maior reconhecimento da cultura afro em Brasília, mas por causa dele.
 
A religião é um dos traços culturais deixados pelos ancestrais africanos. Por todo o Brasil, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) trabalha para o tombamento de casas e terreiros de religiões de matrizes africanas. Danielle Sanchez Mutaledi, 29 anos, secretária executiva do Conselho Distrital dos Direitos do Negro do Distrito Federal, conta que foi evangélica por muito tempo. Na adolescência, porém, sofria com as proibições que a religião impunha e começou a pensar em mudar de crença. "Tudo era pecado", resume. Ela conhecia o candomblé por causa do pai, mas não tinha vivência e, quando criança, tinha medo da incorporação. "O candomblé é demonizado pelas religiões pentecostais, então, eu internalizei aquilo", explica. A iniciação — ritual considerado um renascimento — de Danielle ocorreu em 2013.
 
Embora o candomblé não exija a ida frequente ao templo, Danielle vai a cada 15 dias ao terreiro em Águas Lindas, em uma chácara cheia de mangueiras e com dois córregos próximos. Os encontros, ela define, "são uma festa de sacralização daquilo em que se acredita". A família espiritual de Danielle, como ela chama os amigos de religião, é composta por todas as cores, gêneros e classes sociais. "Nós vamos ao terreiro para passar o fim de semana todo. Se há algum conflito, nós resolvemos lá mesmo", conta.
 
Danielle conta que costuma ser convidada para conhecer outras igrejas quando diz ser candomblecista, como se não tivesse a própria religião. "Nós somos vistos como seita", reclama. Ela também percebe olhares de estranhamento quando sai com as roupas típicas, mas isso não a incomoda tanto. Aliás, houve época em que comprar as roupas e os adereços característicos era bastante difícil. Ela "se virava" para as pashminas virarem turbantes. De tanto pesquisar, decidiu ela mesma fabricar e comercializar o acessário.

 

Estampas coloridas
Danielle Sanchez Mutaledi não está só nesse movimento fashion. O estudante René Martin Mapouna, 25, é camaronês, filho de funcionários da embaixada do país aqui na capital e está em Brasília desde 2005. Ele percebia que muitos brasileiros pediam a funcionários da embaixada que trouxessem tecidos com estampas africanas quando saíam de férias. Por cortesia e informalmente, ele e a família já haviam feito isso algumas vezes. Foi quando a ficha caiu: era uma oportunidade de mercado.
 
Em parceria com a amiga sudanesa Romisa El Karim, fundou a marca Afrikanus, em 2013. "No início, nós trazíamos os materiais brutos e comercializávamos, mas começamos a ver que as pessoas gostavam, compravam, mas não sabiam o que fazer com aquilo: acabavam usando até como cama de gato", conta René. Ele explica que cada tecido tem uma simbologia: alguns são usados só em casamentos; outros, em nascimentos. Resolveram firmar parceria com costureiras da cidade para criar roupas e acessórios.
 
A princípio, os sócios perceberam que as roupas eram mais procuradas por negros e adeptos de religiões de matrizes africana. A situação mudou: no ano passado, a Afrikanus foi convidada a desfilar no Capital Fashion Week. "Ficamos muito nervosos, porque nossas roupas eram diferentes, as estampas eram diferentes. Mas foi um sucesso", comemora René. A dupla ficou entre as cinco melhores marcas do evento, algo que impulsionou as vendas consideravelmente. A peça mais cara da marca é um vestido longo que custa R$ 380.

 

René e Romisa, porém, querem ir além. Eventualmente, eles organizam oficinas de turbante, por exemplo. Ambos percebem que muitos brasileiros falam da África como se o continente fosse um país só. Atualmente, Romisa está em férias e voltará com um pequeno documentário mostrando particularidades de sua nação, o Sudão, e de alguns outros países africanos, como o Egito. "Queremos mostrar que, por trás das roupas e estampas, existe uma cultura, e que cada país é um universo diferente", explica René.


Leia a reportagem completa na edição nº 556 da Revista do Correio.

 

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