Crônica da Revista

Diante do mar

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postado em 10/01/2016 17:30 / atualizado em 10/01/2016 17:38

 

Laísa Queiroz/CB/D.A Press

 

Diante do mar arisco na Playa Delfines, em Cancún, amonta-se uma multidão de gente que fala língua aprendida nos mais diferentes lugares mundo. Naquela parte do litoral mexicano, aquele monstro de águas muito azuladas é, de fato, o grande espetáculo. Não podia ser diferente. Qualquer um, inevitavelmente, se curva em frente à tamanha beleza da natureza. Quem vive em cidade incrustada no meio de um continente gigantesco, como os brasilienses, desconhece a rotina com o mar. Assim, uma visita à praia equivale a uma visita ao paraíso. Pelo menos assim funciona comigo, que só ponho meus pés em água salgada em bons momentos da vida, como as férias.

 

Dessa vez, porém, a imensidão daquelas águas atraiu minha atenção por outra razão que não sua óbvia existência. Acreditamos que todos somos plateias do mar, mas, na verdade, ele, sim, é a verdadeira testemunha de inúmeras histórias anônimas encenadas, diariamente, diante dele. Nasce sol e elas estreiam junto com o dia. O mar é, de fato, um espectador privilegiado. Se pudesse falar, certamente regurgitaria junto com suas ondas as boas histórias assistidas de camarote. 

 

Basta fazer o exercício de trocar de lugar. Por alguns momentos, não me interessava em nada o vaivém daquela água arredia, de coloração indescritível. Meu foco eram as representações particulares que aconteciam simultaneamente em cada canto daquela praia. 

 

Diante do mar caribenho, vi casais enroscados na areia, dormindo abraçados sem qualquer preocupação com o calor que certamente lhes tostava desigualmente a pele. Amantes que misturavam saliva e suor para garantir a selfie para a eternidade do amor até quando ele durasse. Também me deparei com famílias inteiras, munidas de comida pouco saudável e suficiente para abastecer uma semana de acampamento. Pelos traços físicos, não restavam dúvidas de que eram mexicanos, gente que tem o privilégio de ter aquela paisagem no quintal de casa. Só não posso ter a certeza de que o programa era corriqueiro ou um luxo planejado por semanas, como uma ocasião especial de estar com a família naquele cenário.

 

Juntamente comigo, o mar testemunhou os filhos que rolavam pelas areias ou jogavam bola acompanhados pelos pais. Ouvi risadas de velhos e de adultos. Escutei choro de criança. Diante do mar, não há barulho definido. Há uma mistura de sons. Um jovem tocava violão para uma senhora que poderia ser sua mãe. Ela estava feliz e acompanhava o ritmo, que eu não podia identificar, com os pés. Pelo compasso, acredito que era música animada, uma boa pedida para aquele dia ensolarado. 

 

Na praia do México, vi gente de diferentes países desfrutando da prerrogativa de verdadeiros monarcas. Afinal, com dinheiro estrangeiro, eles pagaram pelo direito de usufruir de um pedaço daquele paraíso onde os limites de cimentos erguidos pelo homem criaram cercas no espaço aberto planejado pela natureza. 

 

Praia é lugar de despir-se. Mostrar o corpo e desnudar a alma. O primeiro, vi de todos os jeitos, como, graças a Deus, deve que ser na democracia da beleza. Esbarrei com gente malhada, de corpo bem-desenhado, fosse por benção divina ou por esforço mundano. Exibiam-se os que tiveram as formas esculpidas pelo tempo; também os desapegados e desleixados. Tinha quem entrasse no mar com biquíni de etiqueta cara ou de calça jeans e camiseta mesmo. Vai saber se por vergonha, por praticidade ou por falta de dinheiro... Não sei dizer. Vi mulher de calça comprida dourada dentro da água e também, homem de sunga enfiada, fora dela. O melhor da praia é a liberdade. Cada um anda como quer. Se uns vestiram roupa, outros as tiraram. Tinha mulher de topless e fio dental. Ali, quase tudo pode.

 

Diante do mar, vi gente hipnotizada ao contemplar aquela visão, escutar o arrebentar das ondas e os caminhos feitos pelo vento. Arrisco a dizer que os pensamentos podem entrar em sintonia com o movimento das marés. O barulho da água é calmante natural e tem poderosa capacidade de fazer qualquer um se teletransportar. Em conversas silenciosas, certamente, aquelas pessoas reviviam histórias, remoinham o passado, buscavam perdoar e se perdoarem. Ou, pode-se dizer, tentavam se livrar do mais pesado que levavam na cabeça e carregavam nas costas. Jogaram o fardo para o mar. Ainda que simbolicamente, vai que a onda leva para bem longe... E na falta de certeza, por que não pedir? Teve quem aproveitasse as primeiras horas de 2016 para celebrar naquela praia e estourar champanhe quente e barata. No mínimo, se não fosse atendido, já era um brinde diante do mar.

 

E quantas são as coisas que não se pode ver, mas imaginar, que acontecem naquelas areias? Diante do mar, muitos casais dividiriam os detalhes da primeira noite de amor, vividas nas horas antes. Ali, estou segura de muitos amores começam e certamente tem os que terminam também. O mar é testemunha da emoção de quem o vê pela primeira vez e também da inocência de quem desconhece que será a última a desfrutar desse encontro. Pessoalmente, entrar no mar me acalma, me energiza. Um banho que me faz ser grata pela oportunidade de fazer parte desse universo caprichoso que desenhou palcos assim. Mar traz paz, cuida da a cabeça, do espírito e recicla os pensamentos. Só é ingrato em um detalhe: não faz nada bem para os cabelos. Ao menos, para os meus. 

 

 

 

Por Flávia Duarte

(interina) 

flaviaduarte.df@dabr.com.br

 

 

 

 

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