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Da porta pra dentro

As formas de morar do brasiliense incluem apreço pelo verde, gosto pela luminosidade natural e um desejo de homenagear as raízes nos objetos de decoração

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postado em 17/01/2016 08:00 / atualizado em 15/01/2016 18:23

 

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

 

Quando Brasília foi construída, nasceu também uma forma nova de morar. A ideia de Lucio Costa era que só os monumentos cívicos ficassem expostos aos visitantes. A privacidade dos moradores seria protegida por cinturões de árvores; a infância seria debaixo dos blocos; os moradores não precisariam ir longe para conseguir boas escolas, comércio farto, templos religiosos. Os prédios, semelhantes a caixinhas de fósforo com janelas enormes, abrigariam todos os brasilienses — ricos e pobres. De fato, espaço e a comodidade eram aspectos marcantes da capital nascente.

A realidade, porém, é que a cidade utópica cresceu. O modernismo, lindo, criou 62.945 apartamentos minimalistas e crus, sem nenhuma referência de Brasil. Só que o Plano Piloto é parte de um quadro maior: criamos, aqui, um jeito próprio de morar. Enchemos os cômodos de referências aos nossos estados de origem. Ao mesmo tempo, aprendemos a valorizar as características singulares de Brasília.

“A arquitetura aqui foi influenciada por outras cidades, outras tradições, outras culturas. Não é só modernismo. Temos muita inspiração nas casas do interior de Minas Gerais, com telha colonial, por exemplo. Somos uma mistura de tudo. Brasília é uma cidade eclética”, argumenta Angela Borsoi, diretora regional da Associação Brasileira de Designers de Interiores/DF. E há muito orgulho nas casas brasilienses, tanto é que é costume visitar as pessoas. Se não para um lanche da tarde, para os muitos almoços, jantares e festas que ocorrem no recesso do lar.

Nesta edição, entramos nas casas de alguns brasilienses para saber como é a vida entre quatro paredes.

Moradias brasileiras

O brasileiro não “habita” sempre da mesma forma. No Nordeste, mais quente, as casas são arejadas e as redes, um artigo fundamental. As regiões mais frias têm projetos completamente diferentes. Ambas as formas têm raízes em comum, que remontam à chegada da família real ao país.

“Com a industrialização, a partir do século 18, a Europa viveu o surgimento de novas classes urbanas que seguiam modelos suntuosos, muito refletidos no jeito de morar”, conta Renata Amaral, presidente da Associação Brasileira de Designers de Interiores. “A partir do século 19, a classe média decorava as moradias com artigos produzidos em massa, como papéis de parede e tecidos, mas, nas salas de estar, priorizavam o que aparentava riqueza, conforto e formalidade.” Com os europeus e seu gosto por uma decoração ostensiva, veio também uma mão de obra especializada, que ainda não existia nas terras tupiniquins. A boa madeira, abundante, encontrou forma e sofisticação.

Com o tempo, o brasileiro foi adaptando as novidades que chegavam da França e da Inglaterra ao clima e ao gosto da época. Os paquebots, na década de 1920, eram glamourosos navios que, muito bem decorados, chegavam mostrando as modas da Europa. “Eles exerceram um papel fundamental na formação do gosto, na tomada de consciência quanto ao mobiliário, à ambientação de qualidade e ao valor de um bom design. Já nos anos 1940, com a Segunda Guerra Mundial, chega ao Brasil uma nova leva de decoradores, que contribuíram para que o design e a decoração florescessem por aqui”, explica Renata.

Nas décadas seguintes, surgem profissionais que são referência até hoje, como Joaquim Tenreiro, Sergio Rodrigues e Jorge Zalszupin. Com a inauguração de Brasília e todos os ideais modernistas que envolvem a construção da nova capital, vieram peças e ideias que traduziam o que havia de melhor no design nacional e internacional. “Todos estavam presentes em mais essa etapa da construção de uma identidade nacional, que vinha sendo forjada com mais força desde os anos 1950. E chega à década seguinte fortalecida, mas com o frescor do que é jovem e vigoroso”, afirma a presidente da ABD. Os anos 1960 também inauguraram uma nova forma de pensar a decoração.

A conclusão é que não há apenas um jeito de morar no Brasil. Todas as influências que recebemos desde a chegada dos europeus construíram o que temos hoje. “Essa mistura é a verdadeira riqueza da nossa decoração e é uma delícia enxergar através do tempo e ver como as pessoas passaram a valorizar cada vez mais o lar”, afirma Renata. O que une todas as regiões é mais um desejo pela privacidade. Jerry Sanchez, diretor de vendas de prédios de luxo em Miami (cuja população brasileira está em franca expansão), arrisca um perfil: brasileiros procuram imóveis amplos e em vizinhanças tranquilas.

Preferências locais

“As pessoas estão investindo em morar bem, curtindo a decoração com coisas mais divertidas, mais atuais. Agora se tem mais acesso ao mobiliário de design, e há um desejo por renovar, tornar a casa mais atual”, explica a designer de interiores Angela Borsoi. Outra necessidade do brasiliense é unir praticidade e conforto. A casa não deve ser complicada de limpar ou cheia de objetos frágeis, mas uma decoração charmosa e sofisticada é bem-vinda. “Ninguém tem mais tempo ou mão de obra para passar enormes toalhas de linho, por exemplo”, afirma Angela. Os revestimentos entram com sucesso, imitando materiais, como pedra e madeira, com perfeição e, de quebra, têm uma manutenção muito fácil. “Há uma tendência de facilitar a vida cada vez mais.”

“Tenho percebido que o brasiliense tem se voltado para um lado mais moderno. Absorver os conceitos de minimalismo e modernismo é um processo que demora, mas acho que estamos chegando lá”, explica a arquiteta Cynthia Rondelli. Não se tem mais aquele monte de móvel. É um sofá bom, uma poltrona de design. A iluminação é importante, porque valoriza peças de arte, principalmente de artistas locais. “Hoje se usa mais a casa, o brasiliense gosta de estar em casa”, avalia Angela.

Como é uma das cidades mais arborizadas do país, o morador de Brasília faz questão de estar cercado de verde. Quer ter uma vista, um jardim imenso, olhar pela janela e ver as árvores, flores e frutas. Esse engajamento com a natureza no dia a dia se traduz também no jeito de viver. Há uma preocupação com preservar a natureza, aproveitar a luz natural, a ventilação, a energia que vem do sol, reaproveitar a água da chuva. “O brasiliense procura mais jardins, trazer o verde para casa, mas não necessariamente dentro de casa. Vemos aberturas para área externa, esquadrias cada vez maiores, panos de vidro, tudo para ter um contato direto com a natureza”, explica a arquiteta.

Segundo ela, a febre dos pergolatos e das paredes verdes são bom exemplo das novas prioridades brasilienses. O primeiro traz plantas em madeira enquanto protege da chuva — e não é usado só em jardins; as coberturas têm aderido ao pergolato. As paredes verdes também se tornaram uma forma de levar a natureza para dentro de casa. 

Vivendo o modernismo

“Eu queria uma vida mais prática.” É o que conta Deise Lima, 44 anos. A empresária morou a maior parte da vida em casas. Há dois anos, decidiu mudar de vida e comprou um apartamento na 114 Sul. “Estava em um processo de reduzir, de diminuir minha vida. O fim da Asa Sul é um lugar superarborizado, que combina com a minha vontade de fazer as coisas a pé. É muito prazeroso andar por aqui”, explica.

O apartamento de Deise traduz bem essa vontade de ter a natureza por perto. Tem grandes janelas e cobogós que passam pelo apartamento inteiro. Até no banheiro. A cozinha americana funciona dando ainda mais fluidez ao projeto, que já estava pronto quando a empresária comprou o imóvel. A localização também é importante — Deise espera conseguir ir ao trabalho de bicicleta.

“Fiz poucas intervenções, achei que ele combinava muito com as minhas coisas. É grande, então meu mobiliário feito para espaços maiores, coube. Quanto à decoração, ela basicamente conta a minha história de vida. Tenho aqui, misturados, objetos da minha mãe, os meus, os de arte, de viagens, de amigos e dos meus filhos”, resume.

A vida no apartamento também é um retorno. Deise nasceu no prédio vizinho. Hoje, mora com o filho caçula e aproveita a concepção da casa para receber amigos. Ainda menos do que gostaria, mas sempre recebe visitas. Além disso, inspirada por toda a luz, ventilação e natureza que cercam o apartamento, a última empreitada da empresária é tentar diminuir a quantidade de lixo que produz.

Que seja colorida!

Dizem que, se a casa é colorida, os moradores são felizes. Então quem anda pelas apertadas ruas da Cidade Estrutural e encontra o muro verde da casa da diarista Maria Elizabete Brito, 50 anos, tem certeza que, como diz a placa, ali mora uma família feliz. Por dentro do portão, encontra-se uma casa pequena, mas arrumadíssima, e um grande jardim, que recebe gente todos os fins de semana. Para chegar na cozinha, é preciso passar pelo quarto de casal, mas a parede laranja da sala, a capa azul-royal do sofá e o laranja da manta provam que ali não falta capricho — e bom humor.

“Se eu pudesse, ficaria a vida toda arrumando minha casa. Passo meus dias organizando a casa dos outros e adoro fazer o mesmo com aqui. Até no dia que eu tô de folga, arrumo alguma coisa para fazer. E eu gosto de tudo colorido, estampado, alegre! Todo mundo que chega aqui comenta como é linda a minha casinha”, revela a diarista. Maria Elizabete mora com o marido e o pai na Estrutural há 17 anos. Os filhos, já casados, não moram lá, mas fazem questão de fazer uma visita semanal. Os moradores são só elogios à região. “Eu adoro a Estrutural, é muito bom morar aqui. Tem gente que diz que é violento, mas, à meia-noite, qualquer lugar é violento. Para mim, é tranquilo, não tenho do que reclamar.”

A grande atração da casa é mesmo a área externa. A maioria das casas da região aproveita quase todo o terreno para edificação, mas não o imóvel da diarista. O jardim tem uma pequena horta, um sofá, uma mesa e bastante espaço para receber as quase 30 pessoas que frequentam a casa do muro verde. “A ideia é subir mais um andar, mas sem mexer no jardim. Sou de família cearense e adoro receber. Por enquanto, é pequena? É. É simples? É. Mas eu estou morando no que é meu, e sou muito feliz com a minha casinha”, afirma.

 

 

Leia a reportagem completa na edição nº 557 da Revista do Correio. 

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