Talentos

O traço da cidade

Ilustradores, cartunistas e quadrinistas se reúnem para conquistar espaço na capital, apresentar o próprio trabalho e ganhar fãs mundo afora. Saiba quem são os artistas que desenham a criatividade brasiliense

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postado em 03/02/2016 12:35 / atualizado em 03/02/2016 12:32

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A história de todos eles é bem parecida. Crianças que gostam de desenhar, pintar, colorir e criar histórias acabam por se tornar adultos com as mesmas preferências. Contudo, após atingir certa idade, o hobby vira profissão. E esse trabalho específico transcende as barreiras geográficas, levando nomes de Brasília a mercados nacionais e internacionais. A DC Comics, que produz os quadrinhos do Super-Homem e da Mulher Maravilha; além da Marvel, detentora da marca Os Vingadores, são empresas que já contaram com o traço brasiliense em suas produções gráficas. Até para o estúdio japonês Studio Ghibli, artistas da cidade deram sua contribuição.

Para quadrinistas, ilustradores e cartunistas, veteranos no mercado, ou para profissionais com pouco tempo de experiência, a cena da cidade está a pleno vapor. O movimento vem sendo impulsionado por espaços colaborativos de arte, coletivos e outros projetos que querem promover cada vez mais a produção local.

O Par de Ideias é um deles. O espaço, pensado por Maisa Ferreira e Julia Gonzales, abriga cursos de artes visuais, entre cursos regulares tradicionais e até de quadrinismo. Nele, por iniciativa de Maisa, desde 2013 acontece o Encontro de Zines. Zine, ou Fanzine, é uma publicação independente, geralmente de baixa tiragem, feita por fãs de determinadas temáticas, como ficção científica ou música.

À época da criação do projeto, a ilustradora estava dedicada a um trabalho chamado Paint it black, inspirado na canção homônima do Rolling Stones. Ela aproveitou a situação para criar um evento onde os artistas de zines pudessem expor suas produções de forma acessível. "Os zines geralmente não dão retorno financeiro e muitos artistas financiam seu próprio trabalho", explica. Cada evento reúne, em média, 30 publicações e já teve quatro edições. Segunda Maisa, os artistas que participaram se alegraram com o resultado, especialmente por atrair um público específico, além da oportunidade de surgirem parcerias para a viabilização de novas ideias.

Um dos participantes do Encontro de Zines foi o projeto Incoerente Coletivo. Essa é uma publicação independente, criada por seis amigos, mas apelidado carinhosamente pelos integrantes como Almanacão de férias underground da Turma da Mônica. O projeto nasceu há três anos e a proposta era usar as histórias em quadrinhos produzidas por cada um deles e publicar. O nome, inclusive, vem do fato de os artistas terem estilos, traços e histórias diferentes para contar. Os quadrinhos publicados não têm, necessariamente, conexão entre si.

Eduardo Calazans, Lucas Bonacho, Dino Motta, Márcio Rocha, Filipe Henz e Guilherme de Lacerda são as seis mentes por trás do Incoerente Coletivo. Todos eles possuem outros empregos, o que torna essencial a organização no dia a dia. "Se não, o produto não sai", explica Eduardo. Há três anos com o projeto e duas edições da publicação, o próximo passo é ir para o meio virtual, por ser uma plataforma mais viável, barata e ter maior alcance de público para produtos desse estilo. "Mas ainda temos o apego com o impresso, de sentir o papel e o cheiro da tinta", conta. Para Eduardo, Brasília tem tido muita feira que reúne publicações independentes e isso é algo positivo, pois permite o contato direto dos artistas com o público.

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Zakuro Aoyama

25 anos

Ilustrador em tempo integral e quadrinista quando dá

O jovem está nessa profissão há três anos. Desde criança, ele já desenhava e, mais velho, passou a conhecer pessoas do meio artístico. Ele produzia alguns quadrinhos e ilustrações quando mostrou seu trabalho para o artista Eduardo Belga, que o incentivou a seguir na profissão. Zakuro se interessa por pintura em tela, mas é o desenho que combina mais com sua personalidade. "O desenho cria uma proximidade com o espectador, na minha opinião. Ele tem o caráter de leitura, de se debruçar, de se entregar à narrativa."

Em seu estilo de trabalho, ao construir a narrativa, os detalhes são muito importantes. Eles contextualizam a história. A inspiração dele está sempre relacionada à decadência romântica, à morte e ao desejo. "É um gosto construído. Reflete o que consumo de música e de literatura." Ele tem trabalhado com concept art e ilustração para revista. Entre as obras que mais se destacam em seu portifólio, estão os pôsteres de filmes, para os quais há grande demanda. Um deles, uma releitura do universo de Nausicaä, de Hayao Miyazaki, rodou o mundo.
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Camilla Santos "Siren"

18 anos

Ilustradora e estudante de design gráfico

Não só os veteranos movimentam a cena das artes plásticas do DF. Uma novata presente nesse meio é Camilla, que assina como Siren. Seu trabalho começou em 2014, com ilustrações e grafites. Mas, antes disso, já desenhava, assistia a muitos desenhos animados, animes e lia mangás. Durante boa parte da infância, coloriu almanaques da Turma da Mônica. Olhava os desenhos e os copiava. Dessa forma, quando precisou, ao final do Ensino Médio, escolher o que faria da vida, a resposta veio de maneira natural.

Nas ilustrações, seu estilo é vetorizado, linear, sem muitos detalhes e livre de degradês. E a temática envolve personagens femininos, misturados a elementos da cultura pop e a plantas, além de usar muitas cores. O grafite se confunde com as ilustrações nas temáticas e o estilo, com traço marcante e bastante uso de contrastes.

Camilla costuma trabalhar também como ilustradora freelancer, tendo feito coleções de pôsteres para empresas, além de trabalhos em parceria com outros artistas, especialmente no grafite. "A gente marca um dia, escolhe um muro e vai", conta. Seu trabalho pode ser conferido em intervenções urbanas na 409 Norte, em uma caixa de luz da CEB, e em uma banquinha de jornal na 505 Sul, entre outros.

 

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Felipe Sobreiro

34 anos

Quadrinista

Há 12 anos trabalhando no ramo, Felipe também é a história clássica de filho de artista que seguiu o caminho do pai. Nesse caso, a identidade familiar gerou inclusive parcerias na produção de obras. Uma delas, feita com Milton Sobreiro, é o livro A ameaça do Barão Macaco, publicado pela editora Fictícia. Formado em artes plásticas na Universidade de Brasília, Felipe começou nesse mercado por meio de parcerias com roteiristas encontrados na internet e depois migrou para as publicações impressas. E foi pelo meio virtual que ficou conhecido, ao participar de fóruns de artistas e outros profissionais do ramo.

Hoje, além do trabalho que realiza com a Sindicato — ateliê coletivo localizado na Asa Sul —, é colorista de HQs publicadas nos Estados Unidos. Inclusive, já fez trabalhos para a Marvel e a DC Comics. E, como quase todos os ilustradores e quadrinistas de Brasília, Felipe realiza parcerias na produção de produtos, como camisetas e zines. Para ele, o mercado local nesse sentido é muito bom. "Não tem muita concorrência, todo mundo está no mesmo barco."

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Lucas Gehre

34 anos

Quadrinista e artista plástico

Quem desenha quando adulto é a criança que sempre fez esboços. Essa é a história de Lucas. Desenhar, para ele, sempre foi o caminho natural que a vida ia seguir. Além disso, é filho de artistas e cresceu em um ambiente propício ao desenvolvimento de suas habilidades. O talento virou profissão quando, em 2008, passou a publicar, junto com Gabriel Góes e Gabriel Mesquita, a antologia SAMBA. Ao longo de seis anos, foram três edições da revista.

Há dois, o artista criou sua própria editora, a LTG Press. Entre a publicação de projetos mais recentes, como a Quadradinhas — série divulgada diariamente no Facebook —, Lucas divide seu tempo comparecendo a feiras de publicações independentes, dentro e fora de Brasília. "Nos últimos quatro anos, essa movimentação do zine, do quadrinho independente, das gravuras e das publicações impressas, tanto em aqui quanto no país todo, formou um circuito. A gente consegue sempre levar material para outros lugares."

No exterior, em países como Portugal, o traço de Lucas já marcou presença. Mas ele ressalta que fazer quadrinhos, artes e zines é escolher um caminho muito difícil em qualquer lugar. Há muito risco e muita dedicação envolvidos. Entrar nesse meio significa, às vezes, fazer de tudo na publicação, desde a arte até a venda pessoalmente nas feiras. "São muitas etapas e todas, bastante trabalhosas. O pessoal dos quadrinhos, da publicação independente, é envolvido de forma mais profunda com o trabalho."

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