CRÔNICA DA CIDADE

Louco por cinema

Não se levante da poltrona antes dos créditos finais: a ótima programação do Cine Brasília é mérito de um grande conhecedor da sétima arte

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postado em 04/02/2016 10:05 / atualizado em 04/02/2016 10:35

Sharon: 22/06/1976

Foi uma cena memorável. Domingo de manhã, havia fila no Cine Brasília. Adultos e crianças ocuparam 405 assentos do grande cinema da 106/107 Sul para conferir O menino e o mundo, animação do paulista Alê Abreu que concorre ao Oscar este ano. Vocês já assistiram? É preciso ver para entender, porque o simples fato de o filme de ter sido selecionado para a premiação norte-americana vai contra as expectativas.

Sem estragar a surpresa de ninguém, o desenho encanta pela técnica e pela narrativa. A aparência artesanal e ingênua envolve um questionamento bastante profundo sobre exploração do trabalho, desequilíbrio ambiental e perda de raízes. No Brasil, foi visto por 35 mil espectadores e, nos EUA, ocupou mais de 100 salas de projeção. No Oscar, concorrerá com Divertida mente, da gigante Pixar.

Bom, então está explicado o burburinho no Cine Brasília na sessão das 11h para ver uma produção nacional. Mas espere aí, não se levante da poltrona antes dos créditos finais. A vitalidade da sala depende do compromisso de um sujeito discreto chamado programador, responsável pela escolha das obras e pelo paciente trabalho de barganhar com as distribuidoras cinematográficas. Quem assina a curadoria do Cine Brasília é o Sérgio Moriconi.

Dispensa apresentações, mas exalto a felicidade que é a pessoa certa no lugar certo. Não conheço cinéfilo maior que Serginho, como é chamado pelos alunos. Afirmo isso, é claro, com todo respeito à memória do grande Rogério Costa Rodrigues (1935–2005), professor dos professores. Fato é que a generosidade de Moriconi preencheu com sobra 20 anos de cursos no saudoso Espaço Cultural da 508 Sul (posto assumido a convite de Tetê Catalão). Quando não existia internet, lá estava ele, projetando películas raríssimas nas paredes. Para sempre, guardarei gratidão pelo ciclo de cinema não narrativo.

A missão atual de Serginho começou em setembro de 2013, com chancela do então secretário de Cultura, Hamilton Pereira. De lá pra cá, é pérola atrás de pérola, fica até difícil acompanhar. Quando tanta coisa definha a olhos vistos na cidade, essa fertilidade precisa ser elogiada. Uma vez, vi Moriconi se desculpar pela eloquência. “Conversar comigo é assim, você vai ficar louco, vou fazer parênteses, chaves e colchetes…” Não, mestre, mantenha o fluxo. Nós é que temos de segui-lo.
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