REPORTAGEM DE CAPA

Autoestima tatuada

Desenhos permanentes disfarçam marcas e defeitos igualmente indeléveis no corpo. As tatuagens corrigem imperfeições na pele e devolvem o gosto pela própria aparência

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postado em 14/02/2016 08:00 / atualizado em 12/02/2016 14:35

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

 

É claro que quem faz tatuagem quer enfeitar o corpo e se sentir mais bonito, mas, em alguns casos, o reforço na autoestima é a justificativa maior para traços definitivos na pele. Há histórias pessoais em que a arte de tatuadores é capaz de devolver a autoconfiança àqueles que se sentem desconfortáveis com o corpo marcado por cicatrizes de cirurgias, acidentes, machucados, piercings ou defeitos de nascença. São mulheres que se submeteram a mastectomia, homens que passaram por situações que deixaram a lembrança na pele e pessoas com todo tipo de marcas que abalam a segurança em si mesmas.


O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Luciano Chaves, explica que há dois tipos de cicatrizes: as estéticas e as inestéticas. As primeiras são finas, claras e baixas. As segundas destoam muito do tom de pele da pessoa e, normalmente, formam queloides, resultado de um processo de cicatrização muito intenso, com produção excessiva de colágeno. Ele conta, no entanto, que não são só as inestéticas que costumam incomodar os pacientes. Alguns preferem esconder até boas cicatrizes com tatuagens. Ele alerta, no entanto: "É uma decisão muito importante, para que o desenho não vire uma marca inestética", pondera.

No caso de cicatrizes queloidianas, os médicos propõem a revisão cicatricial, em que se retira cirurgicamente o excesso de pele no local e depois é feito um trabalho com pomadas, lasers, corticoide, para minimizar a possibilidade de formação de uma nova queloide. Mas tudo isso seria uma ação preventiva, apenas. "São procedimentos profiláticos", ressalta Chaves.

Para aqueles que associam queloides e tatuagens, Chaves desmistifica a questão. Mesmo quem é suscetível a cicatrizes inestéticas pode ser tatuado. "A cicatriz só surge com ferida, com corte. A tatuagem é só a pigmentação de uma pele saudável, portanto, ela não formaria uma queloide", esclarece.

Fazer um desenho em cima de uma queloide nem sempre é fácil, mas há quem tenha habilidade. O tatuador Rogélio Santiago tatua há 38 anos, o que lhe deu experiência na questão. Ele não generaliza: "Às vezes, precisa ser um desenho maior; às vezes, é mais fácil ou mais difícil, depende muito de cada cicatriz."

Quanto à autoestima das pessoas, ele garante: "Tem gente que chega aqui insegura e sai chorando de felicidade. É muito legal", relata. Ele acredita que a necessidade e a prática fazem o mestre. Ele já tatuou cabelo em falhas na cabeça de vários homens. "Um deles tinha passado em um concurso da Polícia Militar e estava com medo de não o deixarem entrar por causa da calvície", exemplifica. Lembra ainda quando chegou a tatuar cerca de cinco mamilos por mês em mulheres que retiraram as mamas por conta de câncer.

Prótese estampada

Um vírus durante a gravidez da mãe causou uma má-formação em Taliane Moraes, 22, estudante, que nasceu sem uma das pernas. Ela sempre usou próteses simples, cor de pele. Quando passou da fase de crescimento, a família decidiu que era hora de ter uma prótese com identidade própria. Um dia, conversando com a mãe, revelou o sonho de andar de salto. "Imagina, a gente vai ficando mocinha, vê as amigas, a mãe, todas usando salto", explica a moça vaidosa.

Quando Taliane menos esperava, a mãe já tinha encontrado uma empresa que fazia próteses com a altura regulável, própria para quem quer usar sapato alto. Rapidamente, há quase três anos, os pais acertaram tudo para viajarem a Sorocaba (SP). Ao chegar lá, a decepção: ela teria que passar três meses usando a prótese sem o acabamento, o que faz com que ela se pareça com uma perna de verdade. "Fiquei revoltada, mas explicaram que era necessário, porque esses três meses seriam para checar se não precisaria de nenhum ajuste. Se colocassem o acabamento e depois fosse preciso ajustar, seria muito mais difícil e mais caro", conta, a jovem.

A prótese sem acabamento tem um ferro na parte inferior e um cartucho na parte superior. A empresa fabrica o cartucho com diferentes estampas. Quando perguntaram a Taliane se ela não gostaria de escolher uma, ela ficou indignada: "Eu respondi que queria cor de pele, como eu queria toda a prótese, na verdade. E respondi brava. Estava revoltada, chorei muito", admite. Como seria apenas por três meses, o vendedor e o pai de Taliane a convenceram a escolher uma estampa e, em três meses, toda a prótese seria coberta pelo acabamento que lhe daria a aparência de uma perna de real, em tom de bege. "O vendedor brincou que só velho escolhia cor de pele", relembra.

Passado o período de teste, Taliane chorou mais uma vez. Agora, o motivo era diferente. Estava apaixonada pela prótese sem acabamento e "tatuada". A solução foi, então, manter a peça com acabamento como estepe. As coisas mudaram na cabeça de Taliane e hoje ela usa mais a prótese tatuada com flores e uma caveira.

Antes, Taliane queria ficar o mais discreta possível e disfarçar a perna falsa. Hoje, não liga e faz questão de deixar claro que a prótese nunca a limitou em nada. Pelo contrário, ela permitiu que fizesse absolutamente tudo. "A prótese sem acabamento e com estampa reflete muito mais a minha personalidade e meus gostos. Ela é despojada e alegre igual a mim. Quase todos os meus amigos têm tatuagem e eu brinco com eles que a minha nem doeu." Aliás, Taliane está à procura de uma desenho que se pareça mais com uma tatuagem. Ela gosta tanto do colorido que, se pudesse, trocaria a estampa todo dia, como se fosse uma peça de roupa.

Thiago Teixeira, do marketing da Conforpés, que produz essas próteses, explica que a ideia da empresa é justamente não camuflar o acessório. "Nós incentivamos que exibam o ferro para mostrar à sociedade que se trata de um trauma superado", explica. O cartucho customizado é feito a partir de um tecido com estampa. Uma resina por cima dele gruda a malha na prótese", explica.

Feminilidade renovada

Janaína Machado, 43 anos, servidora pública, é uma das que tiveram o seio tatuado. O câncer de mama dela era diferente do da maioria: se desenvolveu antes dos 40. Chegou aos 38 e era impossível de ser detectado pelo autoexame já que não havia nódulo. Estava espalhado como areia por toda a mama e não era hereditário. Retirando a mama por inteiro, os médicos garantiram 99% de chance de cura, além de terem descartado a necessidade de fazer a radioterapia. Ela, então, não pensou duas vezes e retirou o seio, reconstruído com silicone.

Mas o tratamento de radiação não foi dispensado como previsto e, três anos depois, finalizado o processo, ela trocou a prótese, danificada pela agressividade do tratamento. Foi aí que os médicos começaram a lhe recomendar a tatuagem no mamilo. Os cirurgiões que lidam com esses casos costumam ter em sua agenda uma pequena lista de tatuadores em quem confiam para recomendar às pacientes. Só depois de quatro meses, porém, Janaína criou coragem para fazer o desenho que lhe devolveria as formas do corpo.

Os traços definitivos não são a única opção para desenhar a aréola. Em alguns casos, é retirada a borda do mamilo intacto, reduzindo seu diâmetro, e é colocada, em espiral, no outro seio. Esse, porém, não é o procedimento mais comum. Um pouco mais frequente é retirar pele do início da coxa, da área de dobra com a virilha, que tem uma coloração semelhante à da aréola, para colocar no seio reconstruído. Muitas mulheres, porém, ainda preferem os novos contornos feitos a tinta.

Há três semanas, Janaína fez a primeira sessão da tatuagem no seio. "Os médicos tinham razão em falar para eu fazer", admite. O desenho da aréola foi feito em 3D, para imitar um mamilo de verdade. A diferença de um seio para o outro é quase imperceptível. Chegando em casa, Janaína, que confessa nunca ter sido tímida, estava tão feliz, que exibiu a novidade para todos. Mesmo assim, o tatuador, perfeccionista, pretende deixar a cor ainda mais correta com mais algumas sessões.

As cirurgias de Janaína também deixaram grandes cicatrizes nas costas. Na primeira vez em que foi à praia, conta que tratou de comprar biquínis com tiras bem largas para escondê-las. Sentia um pouco de vergonha e não queria que ficassem olhando. "Hoje em dia, não ligo. O importante é eu estar viva", desabafa. Mesmo superada a vergonha, ela ainda estuda a possibilidade de fazer tatuagens em cima das marcas.

Na primeira sessão de tatuagem no seio, o tatuador fez um esboço nas costas de Janaína, em cima das cicatrizes, para dar uma ideia de como ficaria. A primeira impressão da moça foi de que o traço ficou grande demais. Voltou ao estúdio duas semanas depois para que ele visse como estava ficando a pigmentação da aréola desenhada. Ele fez outro desenho nas costas dela: dessa vez, com flores menores. As rosas agradaram bem mais. Mesmo assim, ela diz que ainda tem que pensar melhor se quer apagar com desenhos a marca de sua luta pela vida.


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Edmilton
Edmilton - 21 de Fevereiro às 10:47
Viva o novo conceito da tatuagem. Tenho porque gosto, porque cada tatuagem significa uma etapa superada ou alcançada da minha vida.