TENDÊNCIA

Descarte só o preconceito

Estilistas e designers estão cada vez mais empenhados em mostrar que moda é resultado de criatividade. Eles usam restos de tecidos e roupas com defeito para criar peças diferenciadas

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postado em 16/02/2016 08:00 / atualizado em 13/02/2016 21:10

A moda é um processo constante de invenção. Apesar disso, reciclar também faz parte da construção de um estilo. A habilidade de dar cara nova a uma roupa ou a um acessório é tão importante quanto a de criar. Por isso, em concordância com a mudança de pensamento geral, em  que a sustentabilidade é a cada dia mais valorizada, alguns estilistas optaram por utilizar como matéria-prima de suas invenções aquilo que para muitos ainda é considerado resto ou lixo.

O estilista brasiliense Daniel Larsan, 29 anos, pretende ser um ativista das questões sustentáveis relacionadas ao consumo, e, para isso, estuda a relação do assunto com a moda. “Só poderei ser chamado assim quando colocar em prática a causa”, afirma. Então, a ideia de lançar uma marca de roupas veio acompanhada dessa preocupação. Daniel pensava em como poderia conscientizar as pessoas de que é possível aumentar o intervalo entre uma compra e outra. “A lógica do descarte implantada pelo fast fashion é destruidora e insustentável. Tem gente ganhando uma miséria para trabalhar. É difícil explicar que aquela roupa, depois de um ano de uso, não está velha e ainda pode ser usada”, diz o estilista.
 
Zuleika de Souza/CB/D.A Press
 

Na segunda coleção, Larsan investiu na alfaiataria e oferece uma peça clássica para homens e mulheres: a camisa social. O grande diferencial de modelos tão básicos foi proporcionado pela forma de pensar de Daniel e pelo tecido escolhido. As camisas são feitas com cortes descartados pela indústria e coloridos por estampas que “não deram certo”. A opinião do estilista diverge do senso comum: “Olhei para esses tecidos, me apaixonei e pensei: ‘Descartados? Isso é lindo!’. São novinhos, lindos e cheirosos. Cada camisa é única, pois as manchas são orgânicas, impossíveis de serem repetidas”, defende Daniel. Ele encontrou o material — que chama de tesouro — casualmente, durante a procura por panos em São Paulo. Identificou neles o retrato de tudo o que pensa sobre o tema. No fim, é a forma de conscientização que Larsan buscava. A coleção será lançada em fevereiro próximo.

Outro exemplo brasiliense de sustentabilidade fashion é a marca de acessórios Ouse, criada há apenas um ano pela designer Jéssica de Figueiredo. Ela cursava moda e queria produzir algo, até que optou pelas bijuterias. A ideia de utilizar couro veio logo em seguida. “Eu já tinha em casa alguns retalhos de couro. Essa sempre foi uma preocupação minha, penso muito nas questões do consumo”, contou. Atualmente, metade das peças da Ouse contém retalhos do material.

Jéssica afirma que há dificuldade de vender os produtos em Brasília. Segundo ela, a aceitação foi maior no Rio de Janeiro e em São Paulo. A designer não sabe explicar exatamente por que isso acontece, mas tem uma teoria: “Acho que os brasilienses ainda estão começando a aceitar o trabalho manual, o que tem aumentado nos últimos cinco anos, aproximadamente”, argumenta. Os brincos assinados por ela variam entre R$ 30 e R$ 70, e, no próximo mês, Jéssica se prepara para lançar a primeira coleção de bolsas feitas com a mesma proposta.

A estilista Gabriela Mazepa também trabalha com reaproveitamento de tecidos há sete anos, no Rio de Janeiro. Por conviver tanto com o assunto, ela percebeu, nos últimos anos, maior interesse das pessoas pela moda sustentável. Então, propôs ao Istituto Europeo di Design (IED Rio)  realizarem um curso de “reciclagem” de moda, em parceria com a marca carioca Farm. “Utilizamos peças com defeito da loja. Não são tecidos, mas roupas que seriam descartadas”, ressalta. Os alunos desfazem as costuras e criam uma nova peça.

Em fevereiro, teve início a segunda edição do curso Re-roupa, e Gabriela está otimista. Os resultados da primeira edição foram surpreendentes. “Imaginava que a turma seria composta apenas por estudantes de moda, e o público foi muito variado. Tivemos, inclusive, alunos advogados e neurocientistas”, relata a estilista. Para ela, a mudança é uma demanda de mercado. Pensar e discutir o reaproveitamento na moda é algo contemporâneo. Futuramente, as peças produzidas devem ser vendidas, mas isso ainda está sendo avaliado. Por enquanto, elas permanecem em acervo.

Moda e geração de renda

No Rio Grande do Sul, na cidade de Mafra, existe, desde 2011, um projeto social que busca oferecer uma nova realidade para as mulheres da cidade. O Mulheres de Mafra é uma iniciativa do Instituto Orbitato, que utiliza resíduos de malha como material para produção de bolsas e objetos de decoração para casa, como almofadas e cachepôs. A ideia é debater a percepção do resíduo como recurso. As artesãs trabalham com o plantio do fumo e encontram no Mulheres de Mafra uma segunda fonte de renda, com menos riscos para saúde. Os restos de malha são provenientes de doações de fábricas parceiras. O defeito definitivamente está nos olhos de quem vê. Basta ter um pouco de criatividade para passar a enxergar potencial e beleza onde outros identificam um problema. A depender do ponto de vista, a imperfeição pode ser a principal característica para a diferenciação de um artigo.

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