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Voar, voar

Em março, Brasília recebe o primeiro centro do país de simulação indoor de paraquedismo. A Revista antecipa como será o túnel de vento

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postado em 16/02/2016 08:00 / atualizado em 13/02/2016 21:10

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 SCOTT OLSON

 


Sempre fomos aficionados pela ideia de voar. Desde o voo de Ícaro à criação dos aviões, passando por todos os super-heróis que passeiam pelos céus, queremos algo que parece impossível. Queremos passear pelas nuvens, sentir o vento no rosto, sair voando por aí sem trânsito ou amarras, ir para qualquer lugar sem precisar gastar fortunas em combustível. Criamos até um esporte para criar essas condições com segurança. O paraquedismo traz a sensação de queda livre, de voo, de não estar preso à nada. São segundos de queda até que se abra o paraquedas e a aterrissagem seja atenuada.

Se subir em um avião e pular parece um pouco extremo, ter a experiência de ficar sem os pés no chão ficará mais fácil a partir de 16 de março. O dia marca a abertura da iFly em Brasília. A empresa é um centro internacional de simulação indoor de paraquedismo, presente em mais de 15 países. Um grande túnel de vento patenteado recria com perfeição as condições de um salto sem precisar estar, de fato, no céu.

"Sou paraquedista há 23 anos, fui campeão brasileiro 13 vezes e já fiz mais de 10 mil saltos. A experiência no túnel de vento é muito similar ao salto. A velocidade do vento é a mesma, a temperatura é a mesma. A diferença é que é um ambiente controlado, seguro — e nada se compara à adrenalina de abrir a porta de um avião e se jogar lá de cima", explica Fábio Diniz, presidente da iFly. Outro aspecto interessante do túnel é que, enquanto um salto dura entre 30 e 45 segundos, a simulação pode passar dos dois minutos.

A filial de Brasília será a primeira do país. "A capital tem uma vocação para esportes radicais e sentimos que faltavam opções nesse sentido", conta Manoel Damasceno, diretor executivo da empresa. A representação de São Paulo é a próxima a ser inaugurada. O objetivo é ter seis túneis até o fim de 2017. O preço promete ser competitivo. São vários pacotes, e o mais barato, que garante um minuto de voo, custará R$ 129. Independentemente do tempo, todos os paraquedistas passarão por uma aula de segurança (que explica os sinais e como se portar dentro do túnel) e usarão roupa especial para o salto.

Além de funcionar como centro de entretenimento e treinamento para paraquedistas profissionais, o túnel pretende ser sede de algumas aulas de física para escolas da capital. "A ideia é repetir o que já acontece em outros lugares do mundo. Trazemos estudantes entre a quinta e a nona série para explicar como funciona o projeto e permitir que eles vivenciem a física na prática", revela Damasceno.

Como funciona

Um grande tubo proporciona a sensação de queda livre criada por dois enormes ventiladores localizados no telhado, ao contrário do que se pensa de início. Os aparelhos acabam criando uma espécie de sucção que obriga o ar a se movimentar em ciclo. Desce pelas paredes e sobe pelo centro do túnel. Os ventos variam entre 260km/h e 300km/h, de acordo com o peso, a experiência e o número de "paraquedistas" do túnel. A atração não tem idade limite, e crianças a partir dos 3 anos já podem participar da experiência.

 

Eu, repórter » Livre, leve e solta


Sempre quis voar. Quando era pequena, escolhia a capacidade de sair por entre as nuvens como a mais interessante entre os poderes dos super-heróis. Imaginava a sensação de liberdade, o vento no rosto. Quando chegamos à iFly, prédio vizinho ao Pier 21, ainda em construção, não imaginava direito como seria a experiência. Fui recepcionada por uma equipe muitíssimo animada e atenciosa. Fomos aconselhadas a tirar pulseiras, anéis, brincos, objetos dos bolsos, grampos dos cabelos. Tudo acaba voando dentro do túnel e pode se perder. Fui de sapatilha, mas fui logo informada que precisava de um tênis — até os sapatos voam. Para solucionar o problema, uma das meninas do staff me emprestou os próprios calçados.

Fomos levados a uma salinha — nosso grupo era composto de cinco pessoas. Eu, a fotógrafa Zuleika e mais três pessoas que fazem parte do projeto. Apenas uma delas já tinha voado. O instrutor Paulo nos ensinou a posição almejada e os sinais. Como o vento é barulhento, não dá para ouvir nada dentro do tubo. Dois dedos esticados significam esticar as pernas, os dobrados pedem para flexionar os joelhos, um dedo em riste manda levantar o queixo. E um símbolo de hangloose, típico dos surfistas, significa exatamente o que se propõe. Relaxe.

Vestimos macacões, que devem ser um pouco maiores do que os de paraquedistas, calçamos os tênis, colocamos os protetores auriculares, os óculos de proteção. O instrutor coloca e fecha o capacete de cada um com cuidado. E aí ligaram o túnel. O barulho é o que se espera, um ventilador gigante. Fui a última da fila, nunca gostei muito de ser a primeira. Prefiro analisar as dificuldades antes de entrar de vez no desafio. Eles me perguntaram se eu estava nervosa, mas não, estava mesmo era ansiosa para ver como funciona o túnel e como eu ia me virar para não acabar deitada no chão sem conseguir voar. Uma vez na porta de vento, o instrutor checa mais uma vez o fechamento do capacete e sorri — é a hora. Dá, sim, uma injeção de adrenalina, não importa se o ambiente é controlado.

Não se entra em pé no túnel, é mais como se estivesse caindo. Sabe quando crianças brincam de "madeira"? Que se cai como uma árvore? Esticado e de barriga para baixo? É essa a posição. Olhando para cima. O ar logo me segurou (e o instrutor também). Estica perna, dobra perna, estica o braço, recolhe o braço. Recebo um "ok" do instrutor, que garante que estou na posição certa, e me fala para sorrir. Eu estava bastante concentrada em tentar entender um pouco como a posição do meu corpo influenciava no subir ou no descer dentro do túnel.

Obviamente, mexi a perna mil vezes e tive que me ajustar toda para não bater no vidro muitas outras vezes. Assim que saí, recebi uma rodada de aplausos dos outros paraquedistas e dos instrutores. Um dos meus colegas, o que já tinha voado e entrou no túnel fazendo cambalhotas, me deu um hi-five e consegui entender, mesmo de protetores nos ouvidos, que eu tinha ido muito bem. Alguns minutos depois fui para a segunda rodada. Perguntei para o instrutor se, para subir, bastava esticar as pernas, mas ele só riu e entendi que eu deveria pensar menos. Quando se acerta a posição, dá para sentir que estamos voando sem qualquer apoio. Livres, leves e soltos.

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press


Fechei os olhos para pensar como definir o que eu estava sentindo, mas a verdade é que eu tive zero pensamento nos dois minutos que eu estava dentro do túnel. A cabeça estava vazia, eu estava relaxada, quase em um processo meditativo — quase relaxei demais e saí voando por aí. Senti o vento forte nos braços, nas mãos que tentavam ficar em uma posição decente, nas minhas bochechas. Quando me estabilizei, senti o instrutor agarrando as alças do meu macacão e a velocidade do vento aumentando. Era a hora do hi-fly. Eu mesma não fiz nada mais do que tentar ficar na mesma posição, mas nós dois subimos rodando até o alto do tubo e descemos. Fechei os olhos e comecei a rir (a boca seca por causa do vento, mas tudo bem).

A sensação geral foi de liberdade. Manoel me explicou depois que o voo dá mesmo um pico de endorfina, e que agora eu já tinha o equivalente a oito saltos no meu currículo. Sei que parece pouco dizer que cada rodada foi de apenas dois minutos, mas entendi finalmente que o tempo é relativo (sou de humanas!). Dois minutos é o bastante.

Sim, doem os braços e as pernas, a simulação é quase um exercício isométrico, como a prancha, que se tem que ficar parado na mesma posição por algum tempo. Mas logo passa. Não senti nada além de uma leve dor de cabeça, mas culpo o nariz entupido de gripe. Zuleika conta que sentiu um pouco de falta de ar e tontura, e que os tênis dela quase saíram voando. Dá vontade de voltar várias vezes e aprender as acrobacias que os instrutores demonstraram. E levar a família — até cinco pessoas podem passar pela experiência ao mesmo tempo.

Saímos as duas rindo para tudo, revendo os vídeos e mandando as fotos para os amigos mais próximos (e tem que ser amigo mesmo, porque a combinação vento forte com óculos apertados não é muito favorável, digamos assim). Na saída, um dos instrutores contou que percebeu que eu gostei do hi-fly. "Vi um sorriso cheio de dentes lá em cima. Deu para entender por que nós largamos as nossas profissões para nos dedicarmos a isso?" Sim, entendi.

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