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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

Jogo de espelhos

O sedutor autorretrato feito no celular é um fenômeno cultural. E está mudando a forma como olhamos para nós mesmos


postado em 28/02/2016 08:00 / atualizado em 27/02/2016 11:52

Selfie. A palavra, com certeza, já faz parte do seu vocabulário, e, se você observar, a pronuncia com mais frequência do que imagina. Vem do inglês, com origem no termo self-portrait — que significa autorretrato. O autor da imagem não se esconde por trás das câmeras. Ele aparece e, desta vez, em primeiro plano.

O uso do termo aumentou em 17.000% no período de um ano entre 2012 e 2013, de acordo com o blog do dicionário de Oxford. Devido a esse crescimento tão rápido, ‘selfie’ foi eleita pelo renomado dicionário "a palavra do ano de 2013". Ela ganhou o mundo como sinônimo de foto de si tirada com um smartphone e compartillhada nas redes sociais.

(foto: Josep Lago/AFP)
(foto: Josep Lago/AFP)

Em 2015, Samsung e a consultoria Antennas Business Insights realizaram a primeira pesquisa sobre a selfie no Brasil. O resultado obtido foi expressivo: 90% dos brasileiros tiram selfies e a frequência é alta — 58% disseram fazer selfies quase todos os dias ou, pelo menos, uma vez por semana. Outro traço interessante sobre os brasileiros que o levantamento percebeu é que 72% dos entrevistados preferem tirar a foto conhecida como ‘ussie’, que é a selfie em grupo, com amigos e familiares.

Em qualquer cidade pacata do interior, há uma praça e em torno dela estão a padaria, a farmácia, o açougue etc. De acordo com o psicólogo especialista em dependência tecnológica Cristiano Nabuco, os habitantes dessas cidades vão até a praça para cumprir um objetivo muito específico: verem e serem vistos. "Faz parte da necessidade biológica do homem se manter em destaque. As redes sociais são a nova praça", exemplifica. As pessoas criam novas identidades, postam coisas boas, como sucesso profissional, viagens e comida apetitosas. Afinal, ninguém quer ser visto na praça com aparência desleixada.

Uma das explicações para a adesão dos internautas à selfie é exatamente o cumprimento dessa função "instintiva". Na internet, é possível que qualquer um seja a sua melhor versão, eternizar sua identidade e valores.

Porém, é preciso ter moderação. Pessoas que postam demasiadamente, em busca de aceitação, acabam sendo taxadas como chatas. O raciocínio comum é que quanto mais reconhecimento, melhor. Segundo o especialista, isso não é saudável. "Quando uma selfie não atinge muitas curtidas nas redes sociais é, frequentemente, apagada. Como se aquilo fosse uma mancha no currículo da pessoa", afirmou.

O psicólogo ressalta a existência de estudos que mostram que quanto mais selfies um indivíduo posta nas redes sociais, mais inseguro ele é. Essa seria uma maneira de compensar sentimentos negativos e inquietudes. Isso porque a internet se configurou como uma realidade paralela na qual é possível obter sucesso e aceitação. Mesmo assim, os internautas devem usar o recurso de forma equilibrada, de modo a não misturar realidade e fantasia.

O que as imagens dizem

A estudante Natasha Mendes, 21 anos, reconhece que talvez tenha se excedido no período em que ficou fora do país: fez mais de 5 mil fotos. "Acredito que 90% delas sejam selfies. Mesmo quando viajava com amigos, nós preferíamos tirar selfies", confessa. Em julho de 2015, ela se mudou para Paris com o objetivo de estudar francês. Apaixonada por fotografia, ela fez questão de registrar cada momento dos sete meses de intercâmbio.

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

No começo da viagem, ela diz que sentia vergonha de fazer o registro que muitos veem como algo egocêntrico, ainda mais no meio da rua. "Eu me sentia meio boba, com o bastão de selfie enorme esticado e sorrindo pro além. Até tentava disfarçar", assume. A timidez foi passando quando a estudante percebeu a popularização do recurso. E foi aprimorando os cliques. "Com o tempo, você aprende o ângulo certo para cada tipo de foto", diz.

Para a psicóloga Ana Maria Martins, especialista em terapia cognitivocomportamental, não se pode atribuir um sentido generalizado ao ato de tirar selfies. A obsessão em ser sujeito da imagem pode ter diferentes significados para cada pessoa. Pode ser o simples desejo de se ver ou a vontade de registrar um momento para consulta pessoal. Segundo ela, a barreira do vício é cruzada quando há alguma forma de prejuízo. "Por exemplo, quando a pessoa para de se envolver com os momentos e companhias para ficar totalmente imsersa no ato de tirar fotos", pondera.

O crescimento da internet e das redes sociais permitiu a qualquer pessoa um espaço para buscar atenção ou notoriedade. A selfie, como forma de registrar um momento e compartilhar o sentimento associado a ele, é uma forma válida de expressão e comunicação moderna. Entretanto, o professor da Universidade Católica de Brasília Alexandre Cavalcanti Galvão comenta que a selfie se torna um assunto delicado diante de uma situação. "Quando a pessoa começa a se autofotografar inventando um estado de espírito, é preciso prestar atenção. A necessidade de pegar emprestado um sentimento diferente do real é o que deve chamar a atenção", ressalta Alexandre.

De acordo com o professor, essa necessidade de se mostrar em situações positivas é um condicionamento cultural. Alexandre ressalta que a sociedade permite cada vez menos exibir "sentimentos pesados". "Não permitimos que as pessoas se sintam tristes e chorem por suas perdas, queremos que o luto passe rápido", aponta. Nesse sentido, a selfie apenas reproduz um padrão social mais amplo.

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