Medicina

Você é o que você não vê

Bióloga inglesa lança livro no qual garante: somos feitos de carne, osso, sangue e... micro-organismos. Ela prova que eles e os humanos mantêm uma parceria de sucesso, essencial ao bom funcionamento do corpo

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postado em 03/04/2016 08:00 / atualizado em 01/04/2016 16:02

O título por si só é intrigante: 10% humano — como os micro-organismos são a chave para a saúde do corpo e da mente. A provocação que a bióloga inglesa Alanna Collen faz no título do recém-lançado livro no Brasil causa desconforto. Ela propõe, assim, jogar terra na onipotência humana, ser vaidoso que se considera melhor do que todas as demais espécies vivas. Somos, de fato, mais complexos do que uma bactéria unicelular, mas Allana comprova em seu estudo que, para essa máquina funcionar, precisamos dos seres simples na anatomia, mas eficientíssimos no trabalho de manter nossa saúde e até aumentar nosso estado de felicidade.

A moça começou a refletir sobre o tema quando, aos 22 anos, foi vítima de uma infecção tropical. Para destruir as bactérias invasoras que adoeciam seu organismo e provocavam efeitos colaterais, que variavam desde sintomas físicos a mudanças de comportamento, ela foi tratada com antibióticos por um longo período. Ficou boa da infecção, além dos micro-organismos que causavam a doença, a medicação dizimou as colônias benignas de bactérias.

Allana sentiu os efeitos na pele, sobretudo no sistema digestivo, e ficou vulnerável às mais variadas viroses. Foi quando decidiu usar sua formação para entender a vida desses seres microscópicos e a relação deles com o homem. Pesquisou durante anos e chegou à conclusão de que, na verdade, os medicamentos que combateram os invasores indesejáveis, também deflagaram uma guerra contra as colônias de micro-organismos inócuos, e outros tanto funcionais, deixando poucos sobreviventes. Sem o equilíbrio dessas comunidades invisíveis a olho nu, o resultado foi o surgimento de novos problemas e desconfortos.

 

Sextante/Reprodução
 

 

A bióloga se debruçou nas pesquisas existentes para traçar o mapa de presença desse micróbios, carregados pelos humanos. Os números aos quais ela chegou são assustadores para uma mente asséptica: nosso corpo é composto de uma colônia formada por "100 trilhões de criaturinhas amigáveis", como ela se refere. Bactérias, fungos, vírus e arqueias fazem parte do que a pesquisadora chamou de microbiota, que, traduzindo, seria esse ecossistema interno de seres invisíveis a olho nu.

 

E eles estão por toda parte, ainda que você se considere limpo e saudável. Allana contabiliza, que, só na ponta dos dedos, neste momento, você carrega 50 milhões de micróbios. Ao longo da vida, ela diz, "você vai ter abrigado o peso de cinco elefantes africanos em micro-organismos." Para se ter uma ideia, o homem tem 20 mil genes. Enquanto isso, ele leva consigo tantas bactérias, vírus, fungos que somam 4,4 milhões de genes. Faça as contas e você concluirá que, matematicamente, você, na verdade, é pouco humano na essência, defende a bióloga.

 

Um retrato inusitado

Quando o projeto Genoma (que decifrou os genes humanos) foi anunciado em 2000, um estudo paralelo também teve início. O projeto Microbioma Humano, dirigido pelos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos, surgiu para identificar as espécies presentes no corpo humano. A ideia era fazer um retrato do DNA do nosso microbioma e, assim, saber qual seria a função deles. Outro desafio era responder o porquê de nosso sistema imunológico, ativado para destruir corpos estranhos, conviver pacificamente com um sem número deles.


Leia a reportagem completa na edição nº 568 da Revista do Correio.  

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