Literatura

Em Gratidão, Oliver Sacks leva à reflexão sobre a importância da existência

No livro, o escritor e neurologista disserta ainda sobre como é possível desfrutar a vida até os últimos dias

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postado em 10/04/2016 08:00 / atualizado em 08/04/2016 11:44

O que você faria se descobrisse que sua vida tem os dias contados? Sim, você sabe disso. A existência é democraticamente finita para todos. O presente é não saber quando será o último suspiro. Mudo a pergunta, então: o que você faria se descobrisse que vai poder viver apenas por alguns meses? Difícil saber qual a reação pessoal diante da proximidade da morte, aquela verdade inexorável que é, abençoadamente, esquecida todos os dias. Mas há quem se veja diante da certeza de que ela chegará em breve, com um tíquete de ida para levá-lo deste mundo já conhecido.

O neurologista e escritor inglês Oliver Sacks foi um desses humanos, sortudos, ou não, que teve a consciência da despedida da vida. E se preparou. Teve como decidir o que faria com o tempo que ainda lhe restava. Alguns encaram esse momento como bichos acuados. Diante da batalha perdida, se escondem, se aninham em si mesmo, ou, quando muito, em volta dos que amam. Oliver Sacks não. Quando recebeu a notícia de que o câncer de olho, um melanoma raro, aquietado pelas drogas há nove anos, tinha voltado a dar sinais, resolveu dizer ao mundo que ia morrer em breve e levou milhares de pessoas à reflexão de como viver melhor os anos que lhe foram agraciados e também os derradeiros dias.

Adam Scourfield/AP

"Tenho visto minha vida com grande altitude. Como uma espécie de paisagem. Isso não quer dizer que não quero mais nada com a vida. Muito pelo contrário, sinto-me intensamente vivo, e desejo e espero, no tempo que ainda me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles a quem eu amo, escrever mais, viajar, se tiver forças, atingir novos patamares de compreensão e descortino. Não há tempo para o que não é essencial. Devo me concentrar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não assistirei mais ao noticiário toda a noite. Não vou mais prestar atenção em política ou aquecimento global", emocionou os leitores, no artigo My Own Life, publicado no jornal americano New York Times, logo após ele ter o diagnóstico.

Desta vez, o câncer em Oliver se manifestou como uma implacável metástase no fígado. O prognóstico foi de apenas 18 meses de viva. Em vez de se calar, engolido pelo medo e pela própria dor, o neurologista continuou a fazer o que sempre soube fazer de melhor: escrever sobre vida, morte e superação. Os quatro últimos ensaios do escritor foram compilados em uma edição que chega agora ao Brasil com o nome de Gratidão.

No quarteto de textos, ele reflete, em muitos momentos, esse sentimento tantas vezes negligenciado diante da falsa garantia de existência do amanhã. Doutor Sacks escreveu o primeiro deles, a qual intitulou de Mercúrio, para celebrar e agradecer a possibilidade de completar 80 anos de vida. Não sabia que a doença já lhe consumia por dentro, mas definiu com sabedoria, que "estava feliz por não estar morto", estar lúcido e com problemas controláveis de saúde com tantos anos.

Era agradecido por todas as coisas que teve oportunidade de viver, fossem elas boas ou ruins. Sentia-se privilegiado pelos livros que escreveu, pelas cartas que recebeu, pelos amigos que fez e pelos leitores que conquistou ao longo de oito décadas. Lamentou apenas a timidez persistente desde a juventude; assim como a falta de tempo ou interesse em aprender outra língua que não a materna.

Apaixonado por ciência, ele fez uma brincadeira entre a idade que avançava e os elementos da tabela periódica. Mércurio corresponde ao metal líquida da casa de número 80. Oliver era grato por ter a chance de chegar ao ano mercúrio, ainda que soubesse que o fim estava mais perto que o início de tudo. "Muitas vezes pressinto que a vida está prestes a começar, e percebo que está quase tudo no fim."
Editora Companhia das Letras/Reprodução

O médico, que aprendeu a lidar com a morte todos os dias, falava da finitude, natural a quem chega à idade de mercúrio. Nas suas contas, um terço de seus contemporâneos já não estavam mais aqui. Ele era privilegiado. E grato. Sequer desconfiava, porém, que a data incerta da morte seria agendada para ele. Um ano e meio depois, veio o câncer de predicado terminal. Era o fim anunciado.

Apesar do temor, que não fez questão de esconder, o médico mais uma vez coloca no papel a gratidão. Diante da remissão do primeiro câncer por quase uma década, ele não manifesta pesar pela volta da doença. Ao contrário, agradece o tempo que lhe foi dado entre os episódios de rebeldia das células. "Sou grato porque me foram concedidos nove anos de boa saúde e produtividade desde o primeiro diagnóstico, mas agora estou face a face com a morte", escreveu em My Own Life, o segundo ensaio publicado no livro Gratidão.

"Não consigo fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado. Recebi muito e dei algo em troca, li, viajei, pensei, escrevi. Tive meu intercurso com o mundo, o intercurso especial dos escritores e leitores. Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e só isso já é um enorme privilégio e aventura."

Oliver Sacks se esforçou para driblar os sintomas da doença e adiar, o quanto resistiu, a morte. Nadou, escreveu, viajou, tocou piano, encontrou os amigos durante o tratamento e a piora dos sintomas. Completou 82 anos. Teve festa. Estava vivo. Era grato. Escreveu o terceiro ensaio o qual deu o nome de Minha tabela periódica. Contou ali, que, como mortal, cercou-se de metais e minerais os quais chamou de "pequenos emblemas da eternidade". Já não era mais mércurio, o número 80. Agora se encaixava na casa 82 da tabela periódica. Era chumbo, mas estava certo que não seria bismuto, o elemento 83 encontrado na Austrália e, segundo ele, pouco badalado pelos amantes do metal.

Encantado pelas descobertas científicas desde menino, sentia profundamente não poder conhecer a nova física nuclear, nem uma infinidade de achados das ciências físicas e biológicas que não poderia presenciar. Àquela altura, com o corpo afetado pelo câncer, que já tinha se espalhado para fora do fígado, cansado, mas ainda lúcido; ele desconfiava não avançar na tabela. Definia, então, a morte como algo "palpável".

Mas teve forças para escrever o derradeiro devaneio. A última recordação. Em, Shabat, relembra a infância na Inglaterra vivida com tradições judaicas e a ida para o "Novo Mundo". A transformação do homem comum no médico que ouvia e contava ao mundo as histórias de seus pacientes. A confissão da homossexualidade. Mais uma vez, reforça a gratidão pelo caminho traçado. "E agora, fraco, sem fôlego, os músculos antes firmes derretidos pelo câncer, encontro meus pensamentos cada vez mais, não no sobrenatural ou espiritual, e sim no que quer dizer com levar uma vida boa, que valha a pena — alcançar a sensação dentro de si mesmo."

Como último desejo, Oliver confessou não ter expectativa de uma vida após a morte. Não no sentido religioso, espiritual, ao menos. Desejava, sim, viver para sempre "na memória dos amigos e na esperança de que alguns dos meus livros ainda possam falar às pessoa depois que eu morrer", escreveu. E ele conseguiu. Oliver Sacks morreu em agosto de 2015, mas continua vivo nas linhas de Gratidão. E certamente está grato por isso.

 

Gratidão
De Oliver Sacks, Companhia das Letras, 64 páginas.
R$ 29

 

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