Entrevista

Em papo com a Revista, Denise Fraga fala sobre sua volta às novelas

Em cartaz com uma peça que retrata a trajetória de Galileu Galilei, a atriz declara que sua missão é contar boas histórias

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postado em 10/04/2016 08:00 / atualizado em 08/04/2016 13:08

A atriz Denise Fraga, 51 anos, é conhecida do grande público. Durante os cinco anos em que foi protagonista do quadro Retrato Falado, exibido pela Rede Globo, encenava, aos domingos, histórias reais de espectadores. Foi mãe, filha, avó, amiga, companheira, esposa, ex-mulher, divorciada… Nessa época, Denise se tornou quase parte da família dos brasileiros. O sorriso fácil, a narrativa leve e o respeito com as histórias faziam do quadro um dos momentos mais esperados da semana. E a atriz, uma das mais queridas.

De lá para cá, Denise participou de muitos projetos. Fez minissérie na tevê aberta, na fechada, fez teatro, filmes. Foi A mulher do prefeito, foi uma das Três Terezas e, hoje, é Galileu Galilei nos palcos e Ana Lúcia no longa De onde eu te vejo. A peça, escrita por Bertolt Brecht, conta a história do cientista que negou o próprio trabalho para fugir das labaredas da inquisição com humor e uma dose cavalar de reflexão. Ao ler o texto, Denise teve certeza de que precisava montar a peça e viajar o país contando a história — depois de um pouco de insegurança, decidiu que queria servir ela mesma de filtro entre as falas e o público. Queria passar a emoção que sentiu ao ler pela primeira vez as páginas.

 

Willy Biondani/Divulgação
 

 

A atriz conta ter descoberto uma missão na própria vida: contar boas histórias que provoquem reflexão no espectador. Quer pegar a mão de cada um e levar a um ponto de vista diferente. Tudo isso com muito humor, diversão, leveza. Com o sorriso largo e respeito. Apesar do sucesso, Denise faz questão de receber o público na porta do teatro, distribuindo os programas. "É o que me enche a alma."

 

Depois de muito tempo longe das novelas, a atriz volta em uma participação especial no próximo folhetim das 21h. Com mais esse trabalho, passa a administrar teatro, cinema, televisão e escrita. E tudo com muito fôlego, muita alegria e a certeza de que está fazendo o que sempre quis.

Como é interpretar um personagem não apenas masculino, mas uma referência mundial?

Para mim, esse é um dos maiores textos da dramaturgia universal. Eu queria muito montar essa peça. Achei que era uma ideia maluca da minha parte, mas é engraçado como tudo foi se configurando de outro modo. Eu queria tanto interpretar esse texto que passei por cima dessa insegurança de achar que era impróprio para mim. A grande estrela da peça é a reflexão, a ideia, o exercício da retórica, o argumento e a réplica a partir do humor. Ele leva o público caminhando pela reflexão e rindo ao mesmo tempo. Eu me identifiquei muito. Adoro esse terreno em que você consegue fazer a plateia rir e refletir ao mesmo tempo. Então não tinha muita importância eu ser mulher. Eu coloco a peruca, falo com a plateia, tiro a peruca e falo com eles de novo. Eu me faço e desfaço. Se eu achava que ser mulher era uma insegurança para esse projeto, diante do sucesso que a gente vai vendo, sinto que é um valor.

A peça é cheia de reflexões. Qual é a mais importante para você?

Eu queria muito interpretar esse texto porque quem de nós não negou verdades para não ir pra fogueira? A gente vive em uma sociedade cujo grande senhor é o poder econômico. A gente tem uma sociedade pautada pelo que rende e não pelo que é bom. Tantos projetos na gaveta que fariam bem para a humanidade mas que dão lugar a projetos mais rentáveis. Vamos fazendo concessões durante toda a vida, a gente acha legítimo abdicar dos ideais por conta das coisas que não podem ser ditas e reveladas. Talvez seja o que mais me interessa na peça, como você acha brechas para estar em dia com seus ideais mesmo com essa sociedade louca que a gente inventou? Você vai se distanciando dos seus ideais, dos seus mais bonitos projetos porque acha que não valem a pena. A peça te dá esperança para continuar lutando para estar em dia consigo mesmo, pra não se olhar no espelho e achar somente um pedacinho de você, de quem você realmente era. Galileu escreveu uma obra inteira escondido usando o resto de luz das noites claras. E o que você vai fazer com seu resto de luz das noites claras?

Você ainda se enxerga quando se olha no espelho vestida como o personagem?

Acho que o fato de montar Galileu apesar de todas as dificuldades iniciais é uma maneira de eu escrever nas noites claras. Eu podia tentar coisas mais fáceis, mas me sinto recompensada pelo que eu estou vivendo, com o sucesso da peça, eu me sinto recompensada por ter investido no lado mais tortuoso. Para mim, chegou a um ponto que começou a ser muito essencial usar minha arte para refletir, para transformar. Eu podia fazer coisas levinhas, um monólogo, algo mais fácil. Optar pelo caminho mais difícil me traz menos dinheiro e, às vezes, um sufoco, mas me enche a alma. Sinto que estou fazendo a minha parte. Vejo bastante de mim quando me olho no espelho. Acho que teve um momento da minha carreira em que comecei a vislumbrar perder aquela pessoa que tinha entrado para a escola de teatro. Apesar de sempre ter me envolvido com projetos muito legais, teve uma hora que precisei fazer o que me toca o coração, que me faça entrar em cena com sangue nos olhos.

 

João Caldas Filho/Divulgação
 

 

No filme De onde eu te vejo, você e o seu marido (o diretor Luiz Villaça) trabalham juntos mais uma vez. Como é essa parceria. Também funciona na vida do casal?

Ele também tem essa angústia de querer, de alguma maneira, pegar na mão do espectador e levá-lo para outras paragens. E esse filme é interessante porque conta a história de um casal que se separa e vai morar um de cada lado de uma rua. Esse casal que se olha de longe, passa a se ver. O filme também tem uma conexão linda com a cidade de São Paulo, essa coisa física de se ver de longe abre uma reflexão sobre essa cidade que constrói e destrói, assim como casamentos, assim como nossa história de vida. Leva o espectador a ver que a vida é móvel, como São Paulo, é caótica e enlouquecedora. Trabalhamos muito bem juntos. A gente achou uma harmonia qualquer, a gente gosta de estar junto. Claro que essa parceria não é obrigatória, ele faz coisas sem mim e eu faço sem ele, mas, quando a gente vê, já montou um projeto para trabalhar junto. Rendemos bem, achamos uma complementariedade, temos respeito pelo local do outro. Não é que a gente não brigue, a gente discute sim, mas é bonito que conseguimos achar o caminho do meio.

Além de atuar, agora você assina duas colunas. Como tem sido se expressar de uma forma diferente?

Cada vez gosto mais das minhas colunas. Não sou uma escritora, não é minha primeira profissão. Não sinto que escrevo para guardar na gaveta, ainda escrevo com a arma na cabeça e um deadline para entregar. Toda semana penso que não vou conseguir, mas acaba vindo. Já comecei a ter uma rotina e vou mastigando um tema na cabeça até a hora de escrever. Eu não tenho rotina de escritora, mas tenho várias histórias que eu gostaria de escrever, mas não me aventuro ao romance. Minha atriz ainda grita quando a escritora chega no teclado. E um lado bom é que recebo e-mails adoráveis dos leitores.

Não tem vontade de escrever uma peça?

Acho que tenho medo. Eu seria muito cruel comigo mesma representando um texto que eu escrevi. Acho um canto da sereia muito forte essa coisa de ter orgulho da própria opinião. É preciso cuidado. Hoje, somos arautos de nós mesmos, temos um megafone na mão por conta da internet, acho louca essa vida que a gente entrou em que há um grande orgulho da opinião própria. A internet é um mar de opiniões, mais do que um espaço de histórias e isso me dá um pouco de angústia.

Você estará de volta às novelas depois de 16 anos. Como foi essa decisão?


Vou fazer uma participação na primeira fase, faço a mãe da Isabelle Drumond, são apenas três capítulos. Eu recebi um convite da diretora Denise Saraceni, trabalhamos juntas em Queridos amigos, e foi um trabalho muito querido. Vou poder fazer a novela porque é pouco tempo. Estou feliz, pois, mesmo no meio da turnê da peça, vai dar para gravar. Eu venho querendo fazer uma novela, mas uma inteira. As últimas não dava por causa do teatro, mas eu acho que o importante é contar uma história. A novela ainda é um potente veículo do nosso trabalho, não tenho essa coisa de "não faço novela". É bom percorrer novos ares sempre.

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