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Dez mil horas de prática ajudam, mas não garantem a criatividade

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postado em 01/05/2016 08:00 / atualizado em 30/04/2016 11:25

Reprodução da obra


* Por Ricardo Teixeira

 

As pessoas criativas não são necessariamente experts de uma determinda atividade. Ao invés de praticar exaustivamente um caminho já conhecido, elas criam sua própria rota. Picasso tinha habilidades de desenhista de dez mil horas antes de fazer suas obras desencontradas e geniais. A prática ajuda muito, mas não é tudo.

Existem atividades mais dependentes da prática do que outras. São atividades em que as regras para ser um “virtuose” já são bem estabelecidas. Podemos citar o xadrez, o esporte e a performance musical. De qualquer forma sempre existirá o espaço mágico da criatividade. De um lado temos o criador que rompe com o já conhecido e do outro o incrível intérprete. De um lado temos um Garrincha e do outro Carlos Alberto Torres.

Obras e produtos criativos não são meros resultados de expertise. Eles precisam ser originais, surpreendentes e fazerem diferença por serem úteis. Originais porque os criadores transcendem o virtuosismo e vão além do repertório standard. Fazer diferença é fundamental, pois o criador deve satisfazer necessidades. O iphone não seria um sucesso se não resolvesse problemas. Ser surpreendente não só para uma ou outra pessoa, mas para quase todo mundo. As descobertas de Galileu são um bom exemplo.


Elenco abaixo dez evidências que mostram que a ralação sozinha não garante a criatividade.

1 - A criatividade é frequentemente cega. O criador não tem certeza se sua idéia será aceita.

2 - O processo criativo é errático. Shakespeare escreveu Hamlet aos 38 anos de idade. Logo depois escreveu obras que não foram tão agraciadas.

3 - A regra dos dez anos nem sempre é verdadeira. Um estudo destrinchou o percurso de 120 compositores clássicos e mostrou que uma década de prática é uma condição frequentemente necessária para as primeiras grandes criações. Entretanto, alguns compositors demoraram menos, enquanto outros muito mais.

4 - Talento ajuda muito. Se definirmos talento como a velocidade com que uma pessoa adquire expertise, podemos dizer que as pessoas criativas são mais talentosas. Precisam de menos tempo para alcançar esse expertise e logo em seguida já viram o disco e passam a sobrevoar o desconhecido.

5 - O tipo de personalidade também ajuda. Pessoas criativas não se conformam com o arroz e feijão, não costumam ser convencionais, gostam de correr riscos e não raramente têm alguma psicopatologia.

6 - Os genes também influenciam. Calcula-se que um terço a um quarto da performance depende da carga genética do indivíduo. Isso vai influenciar também no poder criativo. É claro que os fatores ambientais influenciam e muito.

7 - Os criativos costumam ter interesses amplos. Cientistas bem sucedidos e criativos têm vários hobbies e interesses. Galileu era fascinado pelas artes, especialmente a música e literatura.

8 - Excesso de expertise pode esfriar a criatividade. Aqui temos o fenômeno da curva “U”. Expertise é bom, mas o exagero concorre com a criatividade. Mais nem sempre é melhor.

9 - O olhar de fora tem suas vantagens criativas. Um querido professor me dizia que, quando suas idéias no laboratório estavam pouco criativas, ele ia para a biblioteca folhear periódicos de áreas radicalmente distantes e muitas vezes saía dizendo eureka.

10 - Criadores são bons não só para resolver problemas. São bons também para encontrar problemas. Nem sempre são os mais eficazes, mas seus olhos conseguem enxergar o que ninguém ainda se deu conta.

 

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília e professor de pós-graduação em divulgação científica e cultural na Unicamp.  

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