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A cozinha apaixonante

Escolher a receita, ir à feira cedinho, adquirir os melhores ingredientes, botar as mãos na massa, gelar o vinho, sentar-se à mesa em boa companhia... Percebe como cozinhar, em sentido amplo, é um gesto de amor?

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postado em 22/05/2016 08:00 / atualizado em 20/05/2016 17:08

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

 

Cozinhar está na moda. Programas de televisão sobre comida não são bem uma novidade, mas em tempos de alimentação saudável, o cuidado com o que vai ao prato parece despontar. Além dos formatos antigos, em que a receita vai sendo feita passo a passo, há hoje um interesse crescente por reality shows e documentários que descortinam a atividade do chef de cozinha. Nos últimos meses, os documentários Chef’s table e Cooked, exibidos pelo Netflix, são bons exemplos dessa onda. Os detalhes, contudo, vão além: não basta saber como preparar o alimento, é preciso saber de onde ele vem.

"Aprender a fazer a própria comida, além de ser saudável, é um ato revolucionário." A autora da frase é Luana Budel, consultora em gastronomia funcional. Para a profissional, cozinhar é sinônimo de independência e satisfação pessoal. "Longe de mim tirar o crédito dos restaurantes, mas saber que você tem um feijão preto bem cozido à sua espera é muito reconfortante", completa. "É também sinergia, pois você começa a entender melhor o que está comendo, todas as nuances que aquele ingrediente tem, e agrega carinho à sua comida. O ser humano não é feito somente de matéria física, também precisa de cuidado com o emocional, e a comida carrega essa energia."

Ainda de acordo com Luana, a comida caseira, feita de alimentos com mais casca e menos embalagem, é necessariamente mais nutritiva. Para quem não sabe cozinhar, mas deseja aprender, a internet e a televisão são boas aliadas. Programas, vídeos, sites e blogs estão recheados de dicas para iniciantes. "A bibliografia com livros de cozinha mais práticos e muito bons aumentou consideravelmente nos últimos anos", completa a consultora. Tampouco faltam cursos presenciais na cidade. Enfim, é um prato cheio para quem deseja se aventurar.

O despertar da consciência


Depois de encontrar referências, é hora de colocar a mão na massa. Cortes e queimaduras eventuais são parte da rotina de um cozinheiro, mas assustam quem está estreando na atividade. Mesmo assim, para a consultora em gastronomia funcional Luana Budel, o maior medo dos iniciantes é errar a receita. "É muito importante ter em mente que errar é necessário. Muitas vezes, um erro culinário pode ser uma bela surpresa, pois, em vez de virar uma gororoba, vira um prato novo", ensina. "Até nós, chefs, erramos, mesmo com toda a experiência."

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

 

Alimentação saudável nunca foi um mistério para Arthur Dias Avelino, 28 anos. Quando criança, pelo menos duas vezes por semana, ele almoçava na casa da tia, adepta da cozinha macrobiótica. "É uma vertente um pouco mais ‘pesada’ que o veganismo — tem questões mais energéticas com a alimentação", explica o servidor público. Ele admite: aos 8 anos, trocar o biscoito recheado por tofu era um sofrimento, mas a sementinha da consciência à mesa estava plantada para sempre.

Plantar para colher: em alguma medida, a máxima vale para as escolhas alimentares de Arthur. Para ele, comer bem significa uma velhice mais saudável. "Lembro de, aos 10, beber muito refrigerante e me sentir mal. Naquele momento, entendi que tudo o que eu comia tinha reflexo no meu corpo, no meu bem-estar e, provavelmente, na minha expectativa de vida." Apostar em alimentos orgânicos não é tão simples quanto ir ao mercado mais próximo. Além de frequentar somente feiras orgânicas credenciadas e fiscalizadas, Arthur ensina: organização é a chave. "As feiras têm datas, horários de funcionamento. Às vezes, quando você chega tarde, é difícil até encontrar variedade de alimentos", justifica.

Quando ainda não tinha uma casa para chamar de sua, a cozinha era terreno desconhecido. Tão logo se casou, aproveitou para montar uma cozinha como sempre sonhou: cada panela, faca e espátula foram escolhidas por ele com cuidado e carinho. Tudo o que é feito por ele tem como mote a alimentação consciente — uma forma de comer que leva em conta não só os aspectos nutricionais dos alimentos, mas os impactos que cada ingrediente gera no meio ambiente. "Tudo o que você consome de informação é importante para definir o que você vai comer. E sempre há uma indústria por trás", completa. "Sempre que surge uma informação do tipo ‘alimento tal faz bem’, há também uma leva de informações equivocadas."

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
 

 

 

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