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O caminho da sobriedade

Os piores momentos de quem abandona o vício em álcool estão associados à abstinência. Porém, quem persevera tende a ingressar em um novo patamar de autocontrole, sem as dolorosas ânsias. Estamos falando de sobriedade

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postado em 21/06/2016 15:40 / atualizado em 21/06/2016 16:43

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

 

Você pode delirar, ter alucinações, ataques de pânico, náuseas e vômitos. Você pode desenvolver transtornos alimentares, como a anorexia. Pode ter convulsões, alterações de humor, crises de ansiedade. Em casos extremos, a depender do comprometimento dos órgãos, você pode até morrer. Você também será privado de um prazer momentâneo, que, por vezes, é o único conhecido e reconhecido, e isso causa dores, inclusive físicas. Se você sofre de alcoolismo e tem plena consciência disso, já sabe: parar de beber não é apenas uma decisão dificílima a ser tomada; é também uma prova de resistência.

 

Todos os sintomas listados aí nesse primeiro parágrafo são apenas alguns dos diagnosticados durante o período de abstinência, que muitas vezes, em maior ou menor grau, se segue à escolha consciente de desintoxicar o corpo. Normalmente, esse momento chega depois de duros embates e traumas que se prolongam por anos a fio. O dependente de álcool adoece o corpo e o espírito; também arrasta consigo a própria família. Por vezes, causa danos irreparáveis. Não é mensurável o tamanho desse sofrimento, apesar de haver estatísticas que permitem medir o tamanho do problema.


O Ministério da Saúde contabilizou, no ano passado, 60.901 internações hospitalares no Sistema Único de Saúde (SUS) por transtornos decorrentes do uso de álcool. A boa notícia é que está caindo, numa média de 5% ao ano. O governo credita essa redução à expansão da Rede de Atenção Psicossocial, sobretudo ao aumento da cobertura da atenção básica e aos atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Mas, nos últimos 10 anos, a média anual de procedimentos ambulatoriais por problemas associados ao álcool foi de 906 mil. Não é pouca coisa.

Quem consegue vencer as intercorrências e ficar definitivamente longe do álcool sabe a diferença entre estar abstêmio e ser, finalmente, sóbrio. Entende que o vício é uma coisa, e a doença, outra. Que a bebida levava ao prazer, ainda que durasse pouco. Mas a falta dela pode levar à felicidade. O diretor vice-presidente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Odacir Klein, ex-ministro dos Transportes, é uma dessas pessoas. Há 12 anos, parou de beber. Ainda é pouco se comparado aos 20 anos, entre os 40 e os 60 anos, em que viveu regido pelo álcool. Começou a beber ainda adolescente, mas foi nessa fase da vida que a situação se agravou. O que ocorreu nessas duas décadas foi tão devastador que hoje prefere manter no passado, uma forma de aliviar as dores, sobretudo da família.
 
Fernando Lopes/CB/D.A Press
 
 
Apesar disso, tornou-se um autodidata no tema. Conhece tudo sobre alcoolismo, escreveu um livro chamado Conversando com os netos, em que compartilha seu conhecimento. Uma forma de fazer com que a informação vença o preconceito. Aos 73 anos, Odacir Klein goza de boa saúde. Não tem sequelas físicas do período em que ficou sob efeito do álcool. Faz caminhadas diárias porque é bom para a saúde e não com o objetivo de reforçar a sobriedade. Não tem qualquer outro vício nem sente vontade de beber. Pode participar de eventos em que outros bebem e isso não lhe causa problema. "Não estou apenas abstêmio, mas absolutamente sóbrio, não é necessário fazer nenhum esforço para evitar recaídas", garante.

Foi dispensado da terapia há alguns anos. Mas tem seus apoios. "A religião me faz ter a certeza de que, como não posso recuperar os prejuízos que causei aos meus semelhantes quando bebia, preciso ser solidário e generoso em grande escala para, na contabilidade da minha vida, compensar os débitos daquele período." Nesta reportagem, ele, outras pessoas que sofrem de alcoolismo e médicos nos ajudam a entender melhor a sobriedade, que é diferente do ato de parar de beber.
 
Leia o depoimento de Odacir:
 
Arquivo pessoal
"Parei de beber muitas vezes, mas recaía, porque estava apenas abstêmio e não sóbrio. Sobriedade é uma sensação de bem-estar permanente, geradora de tranquilidade e paz. Abstinência é a não ingestão. Muitas vezes, fiquei sem beber por muito tempo, até mais de um ano, mas meu estado era apenas de abstinência, pois ficava contando quanto tempo fazia que estava sem ingerir bebida alcoólica. Era um sintoma de que estava desejando beber. Pensava que a não ingestão de bebida alcoólica por longo período havia resultado em desintoxicação do organismo e que poderia beber moderadamente. Voltava a beber e as recaídas eram horríveis. À época, não havia atingido a sobriedade; apenas praticado atos de abstinência. O abstêmio pode sentir falta de bebida alcoólica. O sóbrio, não. O abstêmio fica privado do prazer que a bebida lhe confere e não alcança a felicidade de quem corta com segurança o uso, passando a ser sóbrio. Sobriedade significa a não intoxicação, com qualidade de vida mais saudável e paz interior — pela ausência da ressaca moral e pela certeza de não estar concorrendo para a infelicidade dos familiares. Quando ficava apenas abstêmio, tinha sensação nostálgica. Agora, sóbrio, a única lembrança que tenho é do que causei de infelicidade, não só pessoal, mas para as pessoas que por mim têm afeto."
 
Leia mais na edição nº 579 da Revista do Correio.     
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