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O impacto positivo da leitura na vida dos leitores assíduos

A relação do brasileiro com o objeto livro progride lentamente. Em geral, a leitura é um hábito que se adquire cedo, e vai amadurecendo ao longo da vida, com frutos cada vez mais gostosos

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postado em 31/07/2016 08:00 / atualizado em 28/07/2016 16:49

Cristiano Viteck /O Presente
Ler não é só abrir as páginas de um livro e correr os olhos pelas palavras. Ler é abrir um mundo novo a cada volume; é descobrir lugares ermos do planeta sem nunca ter saído do sofá; é viver amores impressionantes e aventuras fantásticas do conforto da sua própria casa. É ver beleza e poesia em qualquer paisagem. É esquecer, nem que seja por meia hora, os problemas e a rotina. É estimular a imaginação e a criatividade.

E ler literatura não é só entretenimento, não é só um jeito de escapar das responsabilidades da vida real. O escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de Literatura afirma: "Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias." Quem lê aprende a separar ideias concretas das ficcionais, a ter empatia, a se colocar no lugar do outro, a ter senso crítico e questionar o mundo.

"Eu compartilho de todos os que acreditam no poder transformador da leitura. Aquele que lê não só tem maior possibilidade de mobilidade social como conquista melhores postos de trabalho, tem acesso a mais conhecimento, tem vocabulário melhor, se expressa melhor, tem a curiosidade e a imaginação despertas. Quando olhamos a sociedade em países com melhores indicadores de leitura, percebemos que os números estão associados ao desenvolvimento humano e social", explica Zoara Failla, coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

Apesar disso, ainda se lê muito pouco em nosso país. A pesquisa, elaborada pelo Instituto Pró-livro e aplicada pelo Ibope Inteligência, foi publicada este ano e teve como base dados de 2015. Retratos da Leitura no Brasil procura entender como é o leitor brasileiro, o que lê, quando lê, seus gostos e motivações. Foram entrevistadas mais de 5 mil pessoas acima de 5 anos de idade em várias regiões do país. Um dos dados mais relevantes é que 56% são considerados leitores, um avanço em relação aos 50% apurados em 2011. Ainda é muito pouco.

 Kleber Sales/CB/D.A Press
"É preciso avaliar os números para encontrar explicações. Por um lado, a melhoria na escolaridade, com mais pessoas se formando no Ensino Médio e na faculdade pode ajudar a explicar o crescimento. Mas, ao mesmo tempo, a melhora na compreensão leitora foi muito sensível — outros indicadores dão conta que uma em cada quatro pessoas são analfabetas funcionais e só um em cada quatro entende o que lê", avalia Zoara. A pesquisa revela ainda que a maior parte dos leitores está em idade escolar, entre 5 e 17 anos. Mas os adultos mostram crescimento acentuado. Os leitores entre 25 e 29 anos aumentaram de 47% para 59%, por exemplo. E quando se presta atenção no que as pessoas andam lendo, a literatura religiosa é o carro-chefe.

Trinta e dois por cento dos entrevistados afirmam que não leem por falta de tempo. Ao mesmo tempo, cresceu em 5% o número de pessoas que aproveitam períodos de deslocamento (ônibus, avião, trem ou metrô) para colocar a leitura em dia. Zoara avalia que, se a pessoa gosta mesmo de ler, percebe que é importante para a sua vida e seu sucesso, então dá um jeito de separar um tempinho para as páginas.

Um dos indicadores mais interessantes é o repertório de outras atividades que os leitores fazem. A pesquisa conta que quem lê pratica mais esporte do que quem não lê, reúne-se mais com os amigos, até frequenta mais bares e restaurantes, derrubando a ideia de que ler tira o tempo de outras atividades. "Isso mostra que o leitor acaba tendo um repertório de atividades sociais maior e, sem dúvida, vai ter muito mais oportunidades que o não leitor", analisa a coordenadora.

Outro aspecto importante é o que leva as crianças a ler. Onze por cento dos entrevistados contam que a mãe (ou responsável do sexo feminino) é a influência principal na construção do hábito de leitura. Em segundo lugar, vêm os professores, com 7% e, em terceiro, o pai (ou responsável do sexo masculino), com 4%. "Sem dúvida, essa iniciação no espaço familiar é muito importante. É na família em que se desenvolvem interesses e valores. A criança percebe pelo exemplo. Se ela ganha livros, valoriza a leitura. Se os pais leem para ela, o livro fica na memória afetiva como algo gostoso. Você forma valor", explica Zoara. O problema é que, de um modo geral, a família brasileira não é leitora — algumas não têm sequer um livro em casa e a responsabilidade de despertar o gosto acaba sendo da escola.
 
Retrato de uma escritora mirim

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Ainda muito pequenininha, a estudante Maria Fernanda Moreti, hoje com 7 anos, ganhava muitos presentes. Brinquedos de todos os tipos e tamanhos, muitas roupas. A avó paterna, professora aposentada, resolveu mudar isso e só dar livros à pequena. No começo, livros de figuras enormes, com cheiro, com textura, à prova d’água. Conforme Maria Fernanda vai crescendo, o número de páginas vai aumentando (e as ilustrações, encolhendo).

A iniciativa funcionou. A menina ama ler. Lê sozinha e adora ler para a irmã mais nova, Maria Eduarda, de 5 anos. "Durante as férias, nós fomos para a casa da minha avó e li umas 14 histórias para a Duda. Normalmente, é minha avó que lê, mas, desta vez, eu levei um livro grosso, de 365 histórias. É para ler uma por dia, mas, algumas vezes, eu li mais, até minha irmã dormir", conta a estudante.

Na escola, encantou-se pela série Os pingos, de Mary França e Eliardo França. Ao terminar os volumes, o jeito foi escrever a própria continuação da história. "São vários pingos, o pingo de sol, de céu, de flor, de lua. Resolvi escrever o livro porque li a coleção e senti falta quando acabou", explica a estudante. Em uma manhã inspirada, Maria Fernanda pediu para a mãe papéis que pudessem ser dobrados ao meio, como um livro. E não dava para esperar até a noite — a inspiração não espera o papel! As duas foram pedir papel para a vizinha e Maria Fernanda se pôs a trabalhar.

Em duas manhãs, estava pronta a continuação de Os pingos. A mãe, Soraya Moreti, encadernou e plastificou o livrinho e Maria Fernanda foi a sensação da escola no dia seguinte. Acessíveis, os autores Mary e Eliardo França, receberam uma reprodução da obra e gravaram uma mensagem de voz para a nova escritora, parabenizando-a. Soraya acredita que a filha, graças às leituras precoces, desenvolveu um senso crítico incomum.

"Gosto de ler por muitos motivos. Por exemplo, a gente pode imaginar e pode ter ideia para outros livros", ensina a menina. A próxima história dela já está na cabeça, apesar de ainda não ter título — algo a respeito de uma formiga que fica amiga de um tamanduá. "Perguntei pra ela se o tamanduá não ia querer comer a formiga, mas ela logo me olhou com aquela cara de quem ouviu uma coisa óbvia e disse: ‘Mãe, nos livros, pode acontecer qualquer coisa’.", conta Soraya.

A faixa etária de Maria Fernanda é uma das mais interessantes para se desenvolver o gosto pela leitura. Antes das leituras obrigatórias da escola, a vontade de ler é que faz a diferença. "A escola trabalha a literatura com um foco muito escolarizado, de gramática, de certo ou errado, e acaba afastando o estudante do lado bom da leitura. Se a pessoa adquire o hábito de ler desde a primeira infância, vai ler com velocidade, ganhar vocabulário para ajudar na vida. Já recebi depoimentos de professores de matemática que perceberam que quem vai mal em português também tem dificuldade com as matérias exatas. O aluno não entende o comando ou não sabe interpretar o enunciado", explica João Bosco, do Circuito de Feiras do Livro. Por isso, é essencial que o professor seja um mediador, que saiba lidar com o assunto de forma lúdica, para que o aluno não perca o interesse.
 
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