Inspiração africana

A escritora nigeriana Chimamanda ficou mundialmente conhecida por escrever livros em que dá voz às mulheres, aos negros, e põe fim a estereótipos que perseguem o país em que nasceu

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postado em 19/09/2016 17:01 / atualizado em 19/09/2016 17:12

 
 AKINTUNDE AKINLEYE
 
Em 2013, a cantora Beyoncé lançou um CD homônimo. Entre as faixas que falavam de empoderamento e de feminismo, uma se destacou. Flawless trouxe uma mensagem ainda mais forte. Apresentou ao mundo (ou pelo menos para quem não acompanha o cenário literário) a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, 39 anos. Na música, é reproduzido um trecho da palestra, intitulada Sejamos Todos Feministas, durante a qual Chimamanda explica, com um toque de humor, os vários motivos pelos quais as mulheres são oprimidas no dia a dia e questiona a sociedade.

A escritora foi lançada à fama meteórica por Beyoncé, mas a verdade é que Chimamanda já é conhecida pela produção literária há algum tempo — seu primeiro livro, Hibisco Roxo, foi publicado em 2003. Chimamanda estudou medicina e farmácia na Universidade da Nigéria, mas abandonou os cursos para estudar comunicação e ciência política nos Estados Unidos, onde fez mestrado em escrita criativa, na Universidade John Hopkins. Em 2008, formou-se em  um mestrado sobre estudos africanos.

Meio sol amarelo, segundo romance de Chimamanda, foi publicado em 2006 e premiado com o Orange Prize de 2007 para livros de ficção. Em 2014, foi adaptado para o cinema pelo diretor Biyi Bandele e estrelado pelo ator Chiwetel Ejiofor, indicado ao Oscar de melhor ator por Doze anos de escravidão.

Chimamanda escreve em inglês, língua oficial da Nigéria, mas com algumas palavras no dialeto igbo. Ela faz questão de ambientar suas histórias no país em que nasceu. Em sua palestra O perigo de uma única história, a autora explica que cresceu lendo clássicos da literatura americana e europeia que falavam sobre uma África diferente da que vivia todos os dias. Lia sobre um continente estereotipado, atrasado e que se organizava em tribos, enquanto crescia em uma cidade universitária e visitava Lagos, a maior cidade do país, cheia de arranha-céus. Foi aí que descobriu a importância da literatura africana, que constrói um cenário distante da “dó” que se costuma ter quando se pensa na África. Foi então que começou a escrever as próprias histórias.

Em seu último livro, Americanah, Chimamanda traça os caminhos de Ifemelu. A garota se muda para os Estados Unidos e começa um blog onde comenta pequenos episódios de racismo e de machismo sofridos diariamente. Parte da história fala do passado e do romance da personagem principal com Obinze, um namorado da adolescência, além de relembrar a vida dos dois na Nigéria. A narrativa é um soco no estômago. A publicação foi eleita uma das 10 melhores do ano de 2013 pelo New York Times e ganhou o prêmio americano National Book Critics Circle Award. A atriz Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante por Doze anos de escravidão, comprou os direitos para uma adaptação cinematográfica do livro.

Com relatos tão poderosos sobre a realidade como mulher negra, Chimamanda se tornou um ícone. Não só representa a feminista moderna como inspira e instiga os leitores a rever posicionamentos e pensamentos. Apresenta uma África moderna, de jovens que estudaram fora e que, ao mesmo tempo, vivem próximos à tradição do passado. Conta a triste história de seu país, ao mesmo tempo em que mostra a alegria e a diversidade de seu povo. Ela faz isso usando uma linguagem leve, mesmo contando relatos densos e doloridos.

Leia mais:
 
 

 
Hibisco Roxo (Companhia das Letras): Conta a história de Kambili, uma adolescente que é filha de um industrial extremamente católico,  apesar de bater na mãe da menina e controlar toda a família. Ele nega a tradição nigeriana, temendo que tudo aquilo seja pecado. Por conta da religiosidade extrema do pai, Kambili praticamente não tem contato com muitas pessoas, incluindo o avô, que mora em uma tribo e é contador de histórias. Depois de passar uma temporada na casa da tia, uma professora universitária, a adolescente descobre que o mundo é muito menos estrito do que aquele que conhece.
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
Meio Sol Amarelo (Companhia das Letras): Ambientado durante a guerra de Biafra, o livro é contado por três pontos de vista. O de Olanna, filha de família rica, mas que se recusa a participar dos negócios do pai e se muda para Nsukka para dar aulas na universidade e morar com o amante Odenigbo; o de Richard Churchill, britânico namorado da irmã gêmea de Olanna, Kainene; e de Ugwu, um adolescente que trabalha como criado na casa de Odenigbo. A guerra e seus horrores muda a vida de todos os personagens, que passam a lidar com a violência e a insegurança diariamente.
 
 
 
 

 
Americanah (Companhia das Letras): Ifemelu é uma jovem nigeriana que deixa para trás o país e um namorado para estudar nos Estados Unidos. Lá, começa a perceber os pequenos racismos de que é vítima no dia a dia, assim como as dificuldades de ser mulher e negra em um país de desigualdades raciais tão fortes. Para dar voz a essas experiências, Ifemelu começa um blog. Obinze, o ex-namorado, vai levando a vida da forma que pode. Quinze anos depois, a jovem resolve voltar à Nigéria.
 
 
 
 
 
 
Trecho do discurso Sejamos todas feministas, de Chimamanda, reproduzido na música Flawless, de Beyoncé

“Nós ensinamos meninas a se diminuírem. A se fazerem menores. Nós dizemos às meninas ‘você pode ter ambição, mas não muito. Você devia querer ter sucesso, mas não muito sucesso. Se você fizer isso, irá ameaçar os homens’. Porque eu sou mulher, se espera que eu queira me casar, se espera que eu tome decisões na minha vida sempre lembrando que o casamento é o mais importante. Casamento pode ser uma fonte de alegria, amor e suporte mútuo, mas por que nós ensinamos meninas a querer casar e não ensinamos o mesmo para os meninos? Nós criamos meninas para enxergar umas às outras como competição, e não por trabalho ou por realizações, o que eu acho que pode ser uma coisa boa, mas pela atenção dos homens. Nós ensinamos meninas que elas não podem ser seres sexuais da forma que os meninos aprendem. Feminista é a pessoa que acredita na igualdade social, na política e na econômica dos sexos.” 
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