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CRÔNICA DA CIDADE

Memória com vista para o mar

Depois da invenção da prensa de tipos móveis por Gutenberg, a arte de memorizar foi declinando aos poucos até seu epitáfio, escrito pelo sr. Google

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postado em 22/10/2016 15:06 / atualizado em 22/10/2016 15:21

Gustavo Falleiros

Thomas Cole /Google Art Project
“Conhecer é lembrar.” A frase atribuída a Platão geralmente é encarada como um convite à realização do ser humano, cujas potencialidades precisam ser despertadas do sono do esquecimento. A interpretação menos filosófica também vale: o conhecimento deve estar à mão, do contrário é inútil. Todos já passamos pela experiência constrangedora de estudar um conteúdo, mas, na hora de pôr em prática, ficar bloqueado. É o famoso “deu um branco”.

O medo do apagão sempre preocupou as pessoas. Por isso, ao longo da história, foram desenvolvidos vários truques para guardar a informação na cabeça — e não fora dela. Os oradores gregos já tinham suas manhas. Uma clássica era associar cada parte de um discurso a um dedo da mão. Essa tática foi sofisticada ao extremo pelos monges da Idade Média, que não podiam confiar inteiramente nos livros (manuscritos) para suas preleções.

Finalmente, na Renascença, chegou-se à técnica de mnemônica conhecida como Palácio da Memória. Consiste em separar as lembranças em nichos imaginados. Podem ser gavetas de um móvel. Se o indivíduo for habilidoso, consegue construir quartos e até castelos inteiros. Essa fascinante história foi resgatada por Frances A. Yates no hoje famoso A arte da memória (ed. Unicamp).

Falecido em 2010, o historiador britânico Tony Judt, reacendeu o interesse pela mnemônica com o tocante O chalé da memória (Ed. Objetiva). Seriamente debilitado pela esclerose lateral amiotrófica, Judt manteve uma lucidez cortante até o último momento. Não podia escrever ou consultar livros, mas ditou essa coleção de ensaios a partir das memórias, muito bem organizadas em um charmoso e aconchegante chalé.

Fato é que, depois da invenção da prensa de tipos móveis por Gutenberg, no século 15, a arte de memorizar foi declinando aos poucos até seu epitáfio, escrito pelo sr. Google. Não sem protestos. Em entrevista ao El País em julho passado, o intelectual judeu George Steiner, 88 anos, fez a seguinte provocação: “Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma fábrica de incultos e que não respeita a memória. E que não faz nada para que as crianças aprendam as coisas com a memorização. O poema que vive em nós, vive conosco, muda conosco e tem a ver com uma função muito mais profunda do que a do cérebro”.

Ao jornal espanhol, o velho professor revelou o segredo de sua lendária facilidade para decorar textos: “Faço exercícios todos os dias”. E como seria essa ginástica? “Eu me levanto, vou para o meu pequeno estúdio de trabalho e escolho um livro, não importa qual, aleatoriamente, e traduzo uma passagem para os meus quatro idiomas.” Um treino e tanto para os neurônios, não acham?

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