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Saúde Mental

Precisamos falar sobre suicídio

O suicídio responde por cerca da metade das mortes violentas no mundo. Se o tema não for debatido com franqueza, continuará ceifando, sobretudo, jovens e adolescentes

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postado em 27/11/2016 08:00 / atualizado em 24/11/2016 18:10

Gláucia Chaves

Suicídio. Uma palavra incômoda. Todavia, dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que está mais do que na hora de conversar sobre o assunto. Segundo o órgão, uma pessoa tira a própria vida a cada 40 segundos no mundo. A cartilha Suicídio: informando para prevenir, feita pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), aponta que, todos os anos, são registrados cerca de dez mil suicídios no Brasil e mais de um milhão em todo o mundo. O tópico é tão crucial que foi um dos principais temas do 34º Congresso Brasileiro de Psiquiatria. De acordo com Hermano Tavares, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), o suicídio é responsável por 50% das mortes violentas no planeta. "É um problema negligenciado pela comunidade médica porque não fomos treinados para lidar com a morte, mas para manter a vida", disse o psiquiatra aos participantes do congresso. "É nosso dever como médicos falar sobre isso."
 
Kleber Sales/CB/D.A Press
 
 
A psiquiatra Valéria Barreto Novais, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e sócia-fundadora da ONG Associação em Defesa da Saúde Mental (ADSM), explica que a incidência de certos transtornos de personalidade (TP) é um fator de risco para o comportamento suicida: uma em cada dez pessoas com TP pode atentar contra a própria vida. Quando esses indivíduos apresentam comorbidades — ou seja, sofrem de mais de um tipo de TP — o risco é ainda maior. No caso específico do Transtorno Borderline de Personalidade, por exemplo, 80% dos pacientes se automutilam, 75% tentam cometer suicídio e 10% realmente se matam.

Nem sempre quem desistiu de viver foi vítima de um trauma, mito muito comum nas tentativas de explicar o fenômeno. "Essas pessoas teriam, de fato, um transtorno na regulação da emoção", explica Valéria Novais. Entre as principais características de uma pessoa com transtorno de personalidade, a médica lista sensibilidade aguçada, reação extremada a estímulos emocionais, afeto instável e autoimagem pobre.

A impulsividade é considerada um fator de risco, mas nem todas as pessoas impulsivas atentarão contra a própria vida — assim como nem todos os suicidas são impulsivos. Segundo Valéria Novais, há indícios de que a impulsividade em pacientes com TP influa, por exemplo, no número de tentativas. Em compensação, pessoas pouco impulsivas são mais meticulosas no planejamento do ato e, como consequência, têm mais chances de "sucesso".

Quem se sente suicida pode buscar ajuda de diversas formas. Muitas vezes, contudo, o pedido de socorro passa despercebido ou é encarado de forma pejorativa. "Fulano só quer chamar a atenção"; "Quem quer se matar se mata, não avisa" e outras frases pouco empáticas são relatos comuns entre os pacientes. O preconceito existe até entre os médicos. "Muitas vezes, as pessoas com TP não encontram guarida por parte dos profissionais de saúde porque demandam muito, são difíceis de tratar", analisa a psiquiatra. "Mas, com cuidados, elas podem melhorar e ter qualidade de vida", garante.

A sombra das redes sociais


Kleber Sales/CB/D.A Press
A revolução digital mudou a forma como as pessoas se relacionam, trabalham, descansam. Não há dúvida das vantagens que a internet proporciona, como economia de tempo, praticidade, proximidade e possibilidade de conexão com pessoas de interesses semelhantes. Porém, como tudo na vida, a rede também tem um lado ruim. Embora ainda não existam dados específicos sobre a influência das redes sociais no índice de suicídio, o assunto começa a chamar a atenção. André Brasil Ribeiro, presidente da Associação Psiquiátrica da Bahia e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, estuda a relação entre tecnologia da informação e medicina há mais de duas décadas. Atualmente, seu enfoque é em mídias sociais.

Em setembro passado, em função da campanha de prevenção ao suicídio Setembro Amarelo, o médico participou de alguns estudos em parceria com desenvolvedores do Facebook para descobrir quantas menções relacionadas a suicídio eram feitas pelos brasileiros diariamente. O resultado foi chocante: por dia, o tema é mencionado cerca de 16 milhões de vezes, só no Brasil. "Isso é sinal de que o tema é cotidiano na vida de muita gente", alerta o especialista.

A preocupação maior é com a saúde mental de jovens e adolescentes. "Quando você vê algo nas redes sociais, pode reagir àquela postagem com ‘curti’, ‘amei’, ou ‘uau’. Mas qual a alternativa para as postagens sobre suicídio?", questiona André Ribeiro. O fato é que Twitter, Tumblr, Instagram, Facebook e Google já estão aptos a identificar postagens com teor suicida e indicar alternativas. No Facebook, por exemplo, há a opção de denunciar esse tipo de conteúdo. Se isso ocorrer, o autor será reencaminhado para uma página de ajuda (com mais de 150 mil visitas por dia). No caso do Google, o site identifica intenções suicidas a partir dos termos buscados e direciona para o Centro de Valorização da Vida (CVV).

Em suas pesquisas, André Ribeiro descobriu diversos "grupos da morte": comunidades em que usuários postam orientações e pedem dicas de como tirar a própria vida. "Muitos perguntam qual é o método mais eficaz e indolor. Os adolescentes estão glamorizando a morte nas redes sociais", afirma. Na Índia, país com maior taxa de grupos da morte no mundo, segundo o médico, há redes sociais exclusivas para suicidas. Lá, os participantes compartilham fotos e vídeos de mutilações e até marcam encontros para cometer suicídio. "Perfis que incentivam essa atitude estão tomando proporções assustadoras", alerta.

Justamente por isso, o psiquiatra frisa: é importante falar sobre o assunto e ajudar quem parece estar inclinado a cometer suicídio. "A internet pode ser fatal ou vital. Temos que partir de onde o ato começa a ser planejado: as redes sociais", reforça. Segundo ele, do ponto de vista estatístico, até 2020, o Brasil pode se tornar o terceiro país do mundo em número de suicídios. Atualmente, a posição é ocupada pela Rússia, com 22 suicídios a cada 100 mil habitantes — bem mais que a taxa mundial de 7 suicidas a cada 100 mil pessoas. "Não podemos deixar essas postagens passarem em branco. Ao vermos algo do tipo, temos que denunciar imediatamente."

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