MEDICINA

Pacientes colaboram com indústria farmacêutica na criação de novas drogas

Informações como complicações colaterais e tempo de feito, por exemplo, ajudam na reformulação dos medicamentos. Cientistas ouviram 23 mil pacientes para formular um anticoagulante

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postado em 14/12/2016 14:50 / atualizado em 18/12/2016 09:25

Roma — Até chegar às prateleiras das farmácias, os medicamentos passam por uma série de passos de pesquisa laboratorial e testes clínicos. Por isso, a demora da descoberta, passando por pesquisas, até a comercialização. Agora, os especialistas apostam em um novo modelo de estudo para o aperfeiçoamento dos remédios. Os usuários passam a ter um protagonismo jamais desempenhado na indústria farmacêutica. Cientistas querem saber as percepções dos pacientes e usar essas informações na concepção das drogas. Na lista, entram os efeitos colaterais, o tempo de ação e os benefícios alcançados. A partir dessas informações, os estudiosos alteram a estrutura da droga, a fim de testar novos títulos ou simplesmente ajustar o funcionamento das já receitadas nos consultórios médicos.

Julio Lapagesse/CB/D.A Press
Longe de ser um método de filme de ficção científica, no Brasil já circula um remédio anticoagulante desenvolvido a partir desse modelo de pesquisa. Nos últimos três anos, um grupo de cientistas acompanhou 23 mil pacientes nos Estados Unidos para o desenvolvimento do medicamento. Segundo os pesquisadores, com os depoimentos dos usuários, alguns ajustes resultaram na redução de 47% nas hemorragias intracranianas, por exemplo. Atualmente, a droga é vendida em 120 países.

A reviravolta na linha de produção vem da possibilidade de ouvir a avaliação dos pacientes e fazer mudanças a partir disso. Normalmente, durante a fabricação de um remédio, grupos específicos, de 20 a 200 pessoas, fazem parte dos testes. Com as "evidências do mundo real" (RWE, real world evidence, em inglês), como a técnica é chamada, o resultado é mais abrangente, atingindo o universo de pacientes de uma determinada doença, fugindo assim do perfil de teste pré-estabelecido nos laboratórios. Dessa forma, o processo que hoje conta com cinco fases, de acordo com norma técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ganharia mais uma etapa (veja quadro). O assunto foi tema de debate no 12º Congresso da Sociedade Europeia de Arritmia Cardíaca (ESC 2016), realizado na Itália, em setembro.

 

Até comercializar um medicamento, porém, a indústria farmacêutica realiza testes em cinco escalas:

EPTV/Reprodução
 

 

A técnica


O conceito é ancorado na demonstração do benefício do remédio nas condições em que não há interferências da ciência no usuário. Normalmente, quando o medicamento é comercializado, após os testes nos grupos pré-determinados, ele perde algum grau de eficácia. A falha pode ser resolvida com a integração entre as pesquisas desenvolvidas na bancada dos laboratórios e a percepções dos médicos e dos pacientes. Dessa forma, a composição é revisada para que a efetividade seja mantida. Nesse caso, se identifica a parte da molécula responsável pela ação do fármaco e alteram-se, ou criam-se substâncias diferentes.

A abordagem exige a construção de bases de dados a partir da coleta de informações de quem vai ingerir a droga. O professor John Camm, do Centro de Investigação em Ciências Cardiovasculares da Universidade de Londres, no Reino Unido, acredita que as evidências do mundo real são importantes para o alcance de tratamentos menos agressivos. "Ensaios clínicos permanecem como referência para avaliar a eficácia e a segurança de um medicamento, mas a evidência do mundo real está desempenhando um papel cada vez mais importante na complementação do nosso conhecimento sobre o uso e impacto dos medicamentos na prática clínica diária", explica Camm.

A comunicação entre os médicos, cientistas e pacientes deve ser estreitada para que a troca de informações possa responder mais rapidamente a questões que, quando avaliadas somente por uma frente da medicina, levaria mais tempo e custaria vidas. "O ensaio clínico pode dizer o que a droga faz, enquanto as evidências do mundo real podem fornecer o contexto que diz se o que ela faz realmente importa", acrescenta Camm.

Lucas Pacífico/CB/D.A Press

Experiência


Craig Coleman, professor de Farmácia Prática da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, garante que pesquisas baseadas em resultados no mundo real são a chave para a compreensão da rotina de funcionamento de um medicamento no organismo dos pacientes. Entretanto, os resultados devem ser analisados com cautela. "Ao avaliar os dados do mundo real, é importante observar tanto benefício (a eficácia de um medicamento), como o risco (o quão bem um medicamento é tolerado), a fim de obter uma compreensão completa de como um ele funciona", argumenta Coleman.

Apesar da inovação, o especialista garante que mesmo os melhores medicamentos só surtem efeitos quando os pacientes seguem de forma adequada a prescrição e aderem ao tratamento. "A educação destinada aos doentes e suas famílias aumenta a consciência da importância de seguir os planos de tratamento. A comunicação aberta e eficaz entre médicos e pacientes capacitará os usuários a desempenharem um papel ativo na gestão da sua própria saúde", frisa Camm.

A valorização de tais evidências tem despertado o interesse das companhias farmacêuticas, sobretudo, segundo os especialistas, porque na avaliação de dados de efetividade, por exemplo, o laboratório ganha a oportunidade de oferecer uma "segunda janela" de comercialização para o medicamento. Assim, aquela droga que não teve bom desempenho em ensaios clínicos passa a ter uma nova oportunidade de encontrar seu lugar no mercado e oferecer melhores soluções a quem depende de uma composição química para ter qualidade de vida e até para sobreviver.
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