REPORTAGEM DE CAPA

Livres para amar

Em uma época de afetos libertos, há diferentes formas de união e as regras para a relação são inúmeras. Não importam os acordos entre as partes, algumas coisas não mudam: a busca por amor e a satisfação dos desejos

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postado em 15/01/2017 08:00 / atualizado em 14/01/2017 22:24

Minervino Júnior/CB/D.A Press

Estudar, trabalhar, casar, ter filhos, se aposentar e morrer. Essa poderia ser a vida de qualquer um há 10 ou 20 anos, porém, o mundo mudou e não há mais um roteiro a ser seguido. Dentro dessa revolução no modo de vida, amores, antes impossíveis, tornaram-se libertos e os modos tradicionais de se relacionar foram reinventados para se adequar à nova realidade.


O sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman, que morreu na semana passada, criou o conceito de dois modelos de amor: a fixação — representada pelo romantismo, pela idealização e pelo desejo de permanência; e a flutuação ou liquidez, caracterizada pelo desejo de liberdade e pela facilidade de rompimento. O pensador polonês concluiu que estamos todos na fronteira entre ambas as formas de amar, como explica Marcia Stengel, professora do programa de pós-graduação em psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Puc-Minas).

“As pessoas estão desenvolvendo relacionamentos customizados. Antes, por exemplo, a mulher era dona de casa e o homem, a autoridade. Ou seja, eram papéis bem divididos. A partir da década de 1970, ocorre uma grande liberação sexual e a obrigatoriedade dos papéis vai se desfazendo. Assim, as relações mudam e acabam customizadas. Cada casal firma pequenos acordos sobre aquilo que deve ser ou se ter no relacionamento”, atesta Stengel. Na vida a dois, a três ou mais, tudo pode ser negociado. Se antes existia um modelo a ser seguido, hoje, cada relacionamento é fundado em acordos personalizados.

E isso abre precedentes para viver qualquer tipo de amor, determinado por quaisquer regras e até mesmo pela falta delas. No entanto, algumas coisas permanecem, fazem parte da essência do sentimento. Envelhecer ao lado do companheiro ou companheira, por exemplo, é umas das fantasias amorosas mais comuns entre jovens românticos. Apesar de os relacionamentos estarem mais curtos, muitos ainda sonham com uma vida a dois que dure para sempre. “Essa mudança nos padrões está gerando alguns dilemas, pois, quanto mais liberdade, menos segurança há. As pessoas querem a permanência, mas não existe mais o pretexto do casamento indissolúvel para continuar em um relacionamento que está machucando uma das partes. Desse modo, a separação é sempre uma saída”, afirma Marcia.




A delicadeza do amor

O escritor Gabriel Garcia Márquez é conhecido como um dos mais exímios tradutores do amor. O colombiano explica, no livro Amor nos tempos do cólera, que o relacionamento acaba toda noite antes de dormir e “é preciso voltar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do café da manhã”. Uma metáfora que desmistifica o amor como algo arrebatador, misterioso e o recoloca como um sentimento que é tecido todos os dias. É o caso de Taya Carneiro, 23 anos, e Lua Stabile, 24, que se apaixonaram aos pouquinhos.

“A gente ficou por muito tempo em algo mais liberto porque não queria enquadrar nossa relação como namoro. De início, propusemos uma coisa que não fosse ligada àquela cobrança tradicional. Mas, depois de um tempo, desistimos. Refletimos que a gente queria era namorar mesmo e pronto”, explica Taya. A comunicadora afirma que dar nome aos bois fez muita diferença: “Essa mudança de nomenclatura trouxe novas responsabilidades”.

As duas são mulheres transexuais, mas se conheceram antes da transição, processo de mudança de identidade, que foi compartilhado lado a lado. “Nos conhecemos nas reuniões da Corpolítica, um coletivo do qual participamos. Depois, trabalhamos juntas na ONU e, desde o ano passado, moramos no mesmo apartamento”, conta Lua, que é formada em relações internacionais e, atualmente, trabalha como assistente de coordenação da Organização das Nações Unidas. “A gente fez tudo juntas: compramos roupas, iniciamos o processo de terapia hormonal, fizemos a depilação definitiva do rosto, entramos para estagiar no mesmo lugar e militamos no mesmo coletivo”, relembra Taya.

“O amor é a escolha de encontrar uma pessoa — ou mais de uma —, para compartilhar algo na vida, dividir segredos, medos. Na transição, precisamos muito uma da outra, porque a gente fica com muito medo das pessoas durante o processo e você tem vontade de desaparecer. A única pessoa para quem eu não queria desaparecer era para a Lua. Às vezes, queria me trancar em casa com ela e me esquecer do resto do mundo”, rememora Taya, que iniciou transformação há dois anos.

Se essa parceria vai durar a vida toda? Quem ousaria dizer? Segundo a professora Marcia Stengel, as pessoas ainda estão presas à ideia de que um relacionamento de sucesso é aquele que persiste “até que a morte os separe”. Porém, a pesquisadora acredita que o êxito está na consistência das experiências que foram divididas durante o tempo juntos. “A durabilidade tem que deixar de ser um parâmetro. A combinação dos ideais e dos valores assumidos pelos casais refletem não só a ideia de customização — pois cada casal assume um modo singular de se relacionar —, como diz respeito também sobre uma capacidade adaptativa na qual queremos crer”, afirma.

Há dois meses, Taya e Lua atualizaram para “sério” o status de relacionamento no Facebook, e perceberam uma outra faceta dos namoros na era digital: a exposição. Grande parte dos amigos achavam que elas eram apenas amigas e alguns só descobriram a relação após a divulgação. Desse modo, as redes sociais se tornaram mais uma etapa do namoro a ser compreendida.


Namorado(a) não é propriedade

Quando muito jovem, é comum aceitar relacionamentos limitantes, que sufocam. Segundo a psicoterapeuta de casais Mônica Bueno, tanto homens quanto mulheres tendem a ser mais ciumentos e inseguros na adolescência e no início da vida adulta. Características que podem, ou não, mudar de acordo com as experiências vividas ao longo dos anos. “Algumas pessoas desenvolvem uma aversão tão grande, por serem podadas em um relacionamento anterior, que procuram outras formas de se relacionar”, explica. É isso que dá origem a relacionamentos abusivos. As mulheres são as principais vítimas, devido à cultura machista.

Débora Jacintho, 26, historiadora, teve experiências de relacionamentos estáveis, longos e exclusivos, inclusive com mulheres. Com eles, chegou à conclusão de que não seria certo prender alguém. Ela se sentia presa também. “A gente acaba desenvolvendo uma relação de propriedade e isso é muito errado”, afirma. Para ela, os namoros fechados acabam levando à hipocrisia, pois não são poucos os casos de traições. Ela mesma admite que já traiu e já foi traída. “Não é bom estar em nenhum dos dois lados, e eu não queria isso pra mim mais”, conclui.

O relacionamento atual de Débora com o estudante Iago Rocha, 22, é aberto. É a primeira vez que ambos vivem essa configuração de namoro. Estão juntos há mais de um ano, mas só oficializaram a relação, divulgando nas redes sociais, em outubro do ano passado. “Foi só simbólico. Na prática, nada mudou”, reconhece. O tempo em que estiveram juntos, mas que a ligação ainda não era tão séria e fixa, foi essencial para que decidissem ter uma relação aberta. “Nós estávamos juntos, ficávamos com outras pessoas, os dois sabiam, e, mesmo assim, os sentimentos que tínhamos um pelo outro não mudavam”, conta Iago. Não havia motivo, portanto, para, de repente, mudar tudo e se restringirem ao carinho um do outro.

Ficar com outras pessoas, para eles, não é questão de sentimento, mas de diversão, de aproveitar os momentos e as oportunidades. Não saem anunciando ao mundo qual o modelo do relacionamento deles porque não consideram necessário. “É muito natural para a gente. Sempre fomos muito amigos, sempre conversamos muito. Graças a isso, temos menos tabus do que a maioria dos casais. Desejos e vontades nunca vão deixar de existir e foi nossa forma de lidar com eles, em vez de reprimi-los. As coisas são muito mais leves assim. Estamos juntos porque queremos. É muito desconfortável ficar presa”, conta Débora.

Alguns amigos de Iago e Débora já consideravam o casal como namorados antes da oficialização. Outros diziam ter dificuldade de reconhecê-los como tal por perceberem que ambos ficavam com outras pessoas. Em geral, as pessoas comentam que é legal eles terem a mente aberta e reconhecem: é preciso certa maturidade para não sentir ciúme do parceiro ou da parceira. Outros ainda duvidam do equilíbrio no relacionamento: “Geralmente, em relacionamento aberto, o homem pega todo mundo e a mulher, ninguém”, comenta a moça. Mas não é o caso.

Débora já se deparou com ciúme uma ou duas vezes. Descobriu que o sentimento aparece quando Iago fica com alguém que ela não conhece, mas nada que muita conversa não resolva o impasse. “Chegamos a considerar não contar ao outro quando ficamos com alguém, mas desistimos”, diz. Atualmente, é perfeitamente possível que os dois estejam juntos em uma festa, se interessem por outras pessoas, se separem por um tempo e voltem a se encontrar. “A gente atingiu o nível de companheirismo de um relacionamento longo e monogâmico, mas temos a renovação sexual sempre”, garante Débora. “Chega um momento da relação exclusiva em que já não há descobertas a se fazer no outro. Nós temos sempre novas oportunidades”, completa Iago.

 

Leia a reportagem completa na edição nº 609 da Revista do Correio. 

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Luciana
Luciana - 19 de Janeiro às 00:37
Que Cristo os alcance.