Os muros grafitados da capital colorem o conjunto de Lúcio Costa e Niemeyer

De uns tempos para cá, a capital ganhou diversos muros grafitados que desafiam o tombamento histórico, mas alegram a paisagem. Os brasilienses parecem gostar desse experimento estético

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postado em 12/02/2017 08:00 / atualizado em 10/02/2017 17:59

“O grafite é a voz da cidade, é um grito.” A frase é do artista urbano e grafiteiro Daniel Toys, 25 anos. Você pode nunca ter visto Daniel por aí, mas com certeza já passou por um de seus desenhos coloridos. Certamente, já leu sua assinatura — Toys — e até sabe o que ele pensa sobre vários assuntos. O grafite é conhecido por ser uma arte democrática, que todo mundo pode ver e sentir sem ter que pagar o ingresso de um museu (algo ainda muito elitizado no Brasil). O morador de rua, o estudante, o trabalhador, o governador, os políticos e até o presidente da República estão expostos aos painéis, à opinião do artista, ao local que se ressignifica quando recebe uma arte em tinta.
 
Breno Fortes/CB/D.A Press
 
 
Muito se fala sobre o lugar do grafite e da pichação, ainda mais em tempos cinzas como os atuais. O programa “São Paulo Cidade Linda”, do prefeito João Doria, que vai apagando as pichações e alguns dos grafites mais característicos da capital paulista, reacendeu, em nível nacional, uma discussão há muito adiada sobre os rumos da arte urbana. A ideia do prefeito é fazer uma espécie de Wynwood Walls (veja box) paulista, um local onde a arte seria legalizada. Ele pretende, de três em três meses, liberar algumas paredes para o desenho. Mas faz sentido limitar o grafite? E a pichação deve, de fato, ser coibida com tanta força?

“O Brasil é um dos poucos locais onde se diferencia pichação de grafite. Começaram juntos, mas as estéticas foram se distanciando. A experiência do grafite e a do pixo (com “x”, como é grafado nas ruas) se separaram muito por aqui”, explica o professor Pedro Russi, coordenador do curso de comunicação da UnB e autor dos livros Paredes que falam: as pichações como comunicações alternativas e Grafitis — trazos de imaginación y espacios de encuentros. Essa distinção passa pela própria definição do que é belo e o que é feio, do que é arte.
 


Para ele, o grafite e a pichação são mais do que a tinta na parede. São uma ação. “É algo que cria uma pergunta. É algo que incomoda”, afirma. Por isso, a essência dos dois tipos de arte urbana é ser ilegal, estampar as paredes, viadutos e muros sem autorização. É o grito da cidade. Segundo a antropóloga Glória Diógenes, pesquisadora da Rede de pesquisa Luso-brasileira em Artes e Intervenções Urbanas, o pixo e o grafite são linguagens da cidade contemporânea. “As cidades não são mais lidas só pelas fachadas, pelos contornos das vias, pela arquitetura. São lidas a partir das inscrições urbanas. Mostre-me os tipos de grafites e pixos que digo que cidade é."
 

Uma expressão não domesticada


Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
O grafiteiro Toys acredita que a arte urbana precisa nascer de um protesto. Como artista, precisa ter voz, opinar sobre temas políticos e sociais. “Particularmente, acredito que o grafite, por ser tão público, precisa passar uma mensagem, precisa gerar um sentimento no espectador. A estética fica até em segundo lugar. O trabalho precisa ser reflexivo, tem que gerar opinião, tem que instigar uma interpretação”, afirma. E essa arte urbana também cumpre seu papel quando abre portais na cidade que acabam tirando as pessoas do seu cotidiano, nem que seja por um segundo. Por isso, precisa estar inserida na vida cotidiana onde menos se espera.

O que muito se discute é a destinação de um local para ser grafitado. De acordo com Toys, isso equivaleria a um “zoológico de arte urbana”. A impressão geral é que é bonito, sim, mas perde o caráter ilegal do grafite. “Muitos artistas contam que ganham as latas de tinta, conseguem fazer uma arte com calma, sem a pressa de ser flagrado, mas que, depois, usam o resto das tintas com murais em lugares não permitidos mesmo. O ilegal é a alma do grafite e do pixo”, explica Glória Diógenes.

Pedro Russi conta que, em sua leitura, a pintura em um local pré-determinado é um mural, um quadro. Mas perde completamente a tensão de levar as coisas ao limite, algo inerente ao grafite e ao pixo. “Se eu escrevo ‘Aqui pode pichar’ em uma parede, estou dando uma ordem, encaixando em um limite. Quando estão em um local proibido, o pixo e o grafite questionam, fazem uma pergunta. Eles não são apenas tinta: são o ato. Não tem a mesma força pintar um lugar permitido”, argumenta o professor.

Nem o grafite nem a pichação têm a pretensão de ser imortal, de durar para sempre. Existe uma ideia muito forte do fazer e refazer, analisa Glória. É uma linguagem mutante, que se transforma conforme a cidade evolui. “A perspectiva é que se passe a dar notoriedade à arte urbana. Agora que começamos a admitir que essa linguagem é uma face das metrópoles, cada vez mais ela estará em discussão. Mesmo que você não aceite, o grafite e o pixo estão no centro do que é público e do que é privado”, provoca. 

 

O fim do cinza

 
Breno Fortes/CB/D.A Press
 
O debate sobre grafite e arte urbana cresce aos poucos em Brasília. Ainda são muitas as paredes que seguem branquinhas, sem intervenções. Toys lembra que, há 10 anos, era muito difícil grafitar e pichar na capital. Mas quanto mais fazem, quanto mais a população conhece, mais aceita e aprende a gostar. “Virou a arte da nossa geração. Tem gente que gosta de cidade cinza, mas o grafite é uma comunicação que mostra que a cidade é viva, que ali passam pessoas com histórias, com opiniões.”

Brasília é dona de uma arquitetura com curvas e retas que desafiam a normalidade, muito representativa do modernismo e, por isso, é tombada como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco. Talvez por isso, o contraste do grafite se torna bastante evidente. “Não acredito muito em cidades tombadas”, conta o professor Pedro Russi. “É tombada, mas tem um sistema público que não funciona e eu não vejo muito sentido. Nesse cenário, a pichação e o grafite podem criar um incômodo diferente — eles têm um desafio maior.”

Para quem passa todo dia pelas linhas coloridas que contrastam tão bem com o cinza do concreto de Niemeyer, os grafites são fonte de alegria, de reflexão. A professora e cantora Haila Ticiany, 37 anos, por exemplo, caminha bastante pela cidade e acredita que o grafite é o melhor jeito de decorá-la. “A cidade fica mais feliz com as cores, e colocar a arte nos muros é um jeito de deixar a pichação menos marginal, de trazer para o centro”, explica. Apesar de a capital ser planejada, Haila considera que o grafite é um complemento. “Brasília tem uma arquitetura muito ousada, que abre espaço para intervenções — as cores do grafite dão um toque underground muito interessante”, afirma.
Breno Fortes/CB/D.A Press

A operadora de caixa Elisangela Alberta, 29, também convive com os grafites diariamente. No caminho para o trabalho, passa pelas passarelas subterrâneas do Plano Piloto e por paradas de ônibus. “A cidade fica mais bonita, mais alegre. Acho que o grafite dá um realce na cidade, e o que eu mais gosto é que os artistas costumam retratar o momento que o país está passando. Concordo quando dizem que a rua é uma galeria de arte a céu aberto”, conta.
Minervino Junior/CB/D.A Press

O professor e escritor Gustavo Dourado, 56 anos, foi grafiteiro em Brasília nos anos 1980, ainda durante a ditadura, e hoje enxerga uma diferença grande entre quem faz grafite e quem picha. Ele acredita que o grafiteiro trabalha com arte, com criação, ao contrário do pichador. “O grafite é uma forma de o artista manifestar a criatividade e o pensamento de uma maneira que muita gente vai ver. É algo de fácil acesso, mas que precisa ser melhor entendido. Não há nada melhor do que uma arte de bom nível. Não resolve os problemas da vida e da cidade, mas ver uma obra de arte melhora o humor. O grafite precisa ser valorizado e, como dizem, não se pode controlar a arte.”

Galeria urbana 

Minervino Junior/CB/D.A Press

Minervino Junior/CB/D.A Press

Breno Fortes/CB/D.A Press
 

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