REPORTAGEM DE CAPA

A era dos fazedores

Hoje, ser multitarefa parece uma obrigação diante das demandas da vida social e do trabalho. Mas será que esse engajamento simultâneo é mesmo necessário? Ou ainda: será que o nosso cérebro consegue processar tantos estímulos?

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postado em 26/02/2017 08:00 / atualizado em 25/02/2017 22:51

Julio Lapagesse/CB/D.A Press
O hábito de fazer muitas coisas ao mesmo tempo é chamado, em inglês, de multitasking. Por lá, a palavra pode funcionar também como um verbo. Em português, usa-se mais o adjetivo "multitarefa". Por exemplo: "Fulano é multitarefa — assobia e chupa cana ao mesmo tempo". A tecnologia parece convidar o indivíduo a se multiplicar (ou se dividir) em muitos. Ouvimos música no celular enquanto conversamos com alguém por mensagens instantâneas; lemos um e-mail; pesquisamos sobre algum tema; passamos o olho em alguma notícia interessante. Tudo ao mesmo tempo.

 

Há quem veja a multitarefa como uma exigência da atualidade e garanta que tira de letra. A maioria, porém, se "enrola" e sonha em ter um dia com mais de 24 horas. Um estudo da Universidade de Utah concluiu que apenas 2,5% das pessoas têm a capacidade de fazer (com desenvoltura) diversas atividades ao mesmo tempo: são os supertaskers. Segundo os pesquisadores, boa parte dos 97,5% restantes até tenta se desdobrar em vários, mas estão fadados à frustração.

 

Segundo o psicólogo David Strayer, um dos responsáveis pela pesquisa realizada em Utah, as pessoas tendem a fazer mais coisas de uma vez porque têm dificuldade de bloquear outras distrações e se concentrar em uma tarefa só. "Ser multitarefa é uma desculpa para começar uma nova atividade sem terminar a anterior", afirma. Essa dificuldade se traduz em dezenas de abas abertas no navegador do computador, que geram procrastinação, ansiedade...

 

Do ponto de vista neurológico, Anthony Wagner, professor de psicologia da Universidade de Stanford, explica que fazer muitas coisas ao mesmo tempo reduz a produtividade do cérebro. "Quando uma pessoa multitarefa está em situações em que há múltiplas fontes externas de informação, ela fica incapacitada de filtrar o que é relevante para o seu objetivo", ensina o acadêmico. A ansiedade advinda desse baixo rendimento é inevitável.

Para Nicolas Carr, autor de A geração superficial e outros livros que criticam a forma como usamos a tecnologia, a internet encorajou as pessoas a aceitarem interrupções constantes, a fazer várias coisas ao mesmo tempo. "Perdemos a capacidade de afastar as distrações e de sermos pensadores atentos, de nos concentrarmos no nosso raciocínio, ou seja, a forma como a tecnologia evoluiu nos últimos anos tornou-se mais distrativa; encoraja uma forma de pensar que é a de passar os olhos pela informação e desencoraja um pensamento mais atento", afirma.

 

Vivendo e aprendendo

O professor e servidor público João Coelho, 29 anos, trabalha cerca de 50 horas por semana, o que já é bem acima da média. Ainda muito jovem, ele desenvolveu um forte senso de responsabilidade. Irmão mais velho, cuidava do menor. Começou a trabalhar aos 13 anos. Sempre gostou de se envolver em muitas atividades. "Quando entrei na faculdade, era um estudante que trabalhava. Prestes a sair, era um trabalhador que estudava. Isso, sem deixar de lado atividades de pesquisa e extensão da universidade e programas voluntários", relembra.

 

Até que percebeu que o ritmo desenfreado estava prejudicando sua saúde. Precisou frear um pouco para, então, superar a obesidade. Fazer muitas coisas não chegava a ser um problema, mas era preciso mais organização para não sair atropelando uma ou outra. "Eu precisei aprender na marra a me programar, a fazer uma coisa de cada vez. Vi que aquilo não estava me fazendo bem e, se você não está bem, não faz nada direito", conta.

Atualmente, além do cargo público, ele dá aulas para concurso. Por um tempo, também deu aulas no curso de direito da UnB. Fazer exercícios físicos tornou-se uma prioridade. Encontrar os amigos pelo menos duas noites durante a semana garante a saúde mental. João dorme de 6 a 8 horas por dia e desperta sempre às 5h, para organizar as tarefas.

 

Na repartição, João busca estar inteiramente presente e é reconhecido pela eficiência. São muitas as demandas, mas todas dizem respeito ao trabalho. "Com o tempo, descobri que, além de ser importante você focar em uma coisa por vez, é preciso que todas as atividades estejam relacionadas de alguma forma. Meu trabalho no cursinho me ajuda no meu trabalho no serviço público e vice-versa. As coisas convergem de alguma forma", explica.

 

João tem idade suficiente para ter vivido uma época em que o acesso à internet não era tão popular, e os celulares faziam pouca coisa além de ligações. Para ele, a tecnologia foi essencial para otimizar o tempo. Mas isso só aconte porque ele é extremamente disciplinado no uso. O acesso a redes sociais está limitado ao horário de almoço. Ele recebe muitos e-mails relacionados às videoaulas que ministra — seria interrompido a todo momento se não tivesse uma rotina de checagem.

 

De acordo com a neuropsicóloga Rosimeire Oliveira, nós estamos confundindo as dimensões síncrona e assíncrona da comunicação. A primeira diz respeito à disponibilidade das pessoas que trocam informação. A segunda ocorre quando uma das partes não está disponível na hora em que a mensagem é emitida — acontece muito no WhatsApp. "Perdemos o limite disso. Dá uma sensação de que, se a pessoa recebeu a mensagem, se visualizou, tem que responder imediatamente. Isso gera um estresse tanto em quem está esperando a resposta quanto em quem tem que responder. Se ela não pode na hora, fica preocupada com o que o outro pode pensar", observa. "As pessoas agora vivem com a sensação de que deveriam estar sempre alertas. Elas tentam se concentrar no trabalho, mas não podem focar por completo, porque precisam estar atentas ao celular", aponta.

 

Leia a reportagem completa na Revista do Correio. 

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