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Lutas feministas e debates importantes para o Dia Internacional da Mulher

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, ainda há muito a ser conquistado. Nesta reportagem, dividida em duas partes, a Revista debate os avanços das lutas feministas e aponta desigualdades persistentes, como o descaso quanto à autoestima delas

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postado em 05/03/2017 08:00 / atualizado em 03/03/2017 18:43

Maurenilson Freire/CB/D.A Press
Quando alguém é devagar para correr, fraco, não sabe jogar bola ou aparenta sensibilidade, é chamado de “mulherzinha”. “Ser mulher” é usado por crianças bem novas (mas também por adultos) como uma ofensa. Uma brincadeira nada inocente, se considerarmos que as meninas, quando ouvem esse tipo de “mensagem”, ainda não têm a personalidade totalmente formada e carecem de exemplos e estímulos positivos. No caso, a ideia passada é de inferioridade mesmo.

Os ataques à autoestima feminina se expandem e se reconfiguram ao longo da vida. O padrão de beleza vigente será sempre constrangedor em alguma medida. Ao pesquisar sobre a influência das supermodelos na autoimagem de adolescentes, o psiquiatra Raj Persaud, do Maudsley Hospital, em Londres, descobriu que a confiança das garotas caía 80% após 60 minutos de leitura de revistas de moda.

De forma semelhante, o Relatório Global de autoconfiança feminina Dove, divulgado no ano passado pela marca de cosméticos, sustenta que a segurança das mulheres em relação ao próprio corpo é baixa e não para de diminuir. Chegou-se a essa conclusão a partir da análise 10,5 mil entrevistas com mulheres e meninas de 13 países.

Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
“Tende-se a acreditar que a autoestima depende apenas da forma como a pessoa se percebe no mundo, mas importa também como somos e fomos percebidos antes mesmo de tomarmos consciência de nossa existência”, analisa a psicóloga Josefa Tavares. Felizmente, muitas mulheres estão conscientes do desafio e não baixam a guarda. A turismóloga Clarissa Valadares Xavier, 35 anos, é uma delas. Após passar por perdas marcantes, ela recorreu ao coaching para superar a crise. “Eu não sabia aonde iria com as coisas que estava fazendo”, relembra.

No primeiro encontro com a profissional, tentou estabelecer metas. Mas o único objetivo que lhe veio à mente foi emagrecer, como tantas mulheres insatisfeitas com seus corpos. “Eu achava que tudo que estava errado na minha vida era por causa do meu peso”, conta. Estava enganada. O primeiro aprendizado foi entender a conexão entre saúde, vida afetiva, aspectos financeiros e espiritualidade. “Uma coisa depende da outra e, para manter tudo mais ou menos equilibrado, haja terapia, acupuntura, psiquiatra”, brinca.

Após quase 20 encontros e diversos “deveres de casa”, Clarissa ressignificou a autoestima. “Percebi que ela não é um meio para se sentir bem, mas o resultado de se sentir bem. Aprendi que olhar no espelho e gostar do que está refletido não tem a ver com a sua forma física — é muito mais profundo”, analisa. Por mais doloroso que seja, ela compreendeu que estava priorizando as coisas erradas.

Ela critica os padrões de beleza impostos às mulheres. “Eles fazem com que a gente queira caber nas roupas, quando são as roupas que precisam caber na gente”, conclui. Lamenta que as mulheres não consigam bater o pé contra esse fenômeno e, em vez disso, se destruam por dentro. Admite que, em outros tempos, embarcou em muitas ciladas, como as “dietas malucas”. Em uma delas, só consumia leite e proteínas. Acabou ficando intolerante a lactose e com a imunidade abalada.

Finalmente, Clarissa compreendeu que a opinião das pessoas sobre ela é apenas um ponto de vista. “Ninguém deve dizer que o outro é menos”, defende. Estar bem consigo mesmo é o ponto de partida para interagir com os outros.
 

O gênero do sucesso profissional


Scott Olson/Getty Images/AFP
No domínio intelectual, as mulheres também são frequentemente tratadas como inferiores. Sheryl Sandberg é uma empresária norte-americana que já foi vice-presidente de vendas globais e operações on-line do Google e, atualmente, é chefe operacional do Facebook. Ela é o braço direito de Mark Zuckerberg. Quando lançou o livro Faça acontecer, em 2013, pela Companhia das Letras, tornou-se quase uma embaixadora da igualdade feminina no mercado de trabalho.

No livro, Sandberg elenca pesquisas que evidenciam a desigualdade injusta entre mulheres e homens no mercado de trabalho. Além disso, revê alguns de seus erros, para que não se repitam, e dá muitos conselhos. Entre os estudos comentados por ela, um evidencia a diferença no comportamento dos dois gêneros quando estão em busca de um emprego. Segundo o livro, mulheres só enviam currículos se preencherem todos os pré-requisitos da vaga, enquanto homens os enviam mesmo que não se encaixem por completo. Dessa forma, eles acabam criando mais oportunidades. Segundo Sandberg, as mulheres não se permitem ter grandes expectativas a respeito de onde podem chegar e tendem a achar que vão falhar antes mesmo de o desafio surgir.

São assertivas polêmicas, já que, de certo modo, transferem a culpa do quadro de desigualdade para as próprias vítimas. No entanto, a reflexão dela parte do pressuposto que a insegurança é incutida nas meninas desde cedo, tornando-se, assim, aspecto cultural.

Em seu TedX, a empresária relembra uma história que mostra como as mulheres têm essa tendência de menosprezar suas capacidades. Cursava uma matéria na faculdade na mesma turma em que o irmão e uma amiga muito esforçada. Ele não frequentava a aulas. Sandberg ia às aulas e lia a maioria dos textos. A amiga não só lia todos os textos, como o fazia várias vezes e em mais de uma língua. Antes das provas, o irmão de Sandberg fazia as duas lhe ensinarem o conteúdo. Depois das provas, as duas nunca estavam completamente seguras em relação ao desempenho delas, mas ele sempre achava que tinha gabaritado.

Estudo realizado pela New York University (NYU) concluiu que, a partir dos 6 anos, crianças passam a associar inteligência ao sexo masculino. Foram feitos dois testes diferentes com crianças de idades maiores e menores que seis anos. Contava-se a elas uma história sobre alguém muito inteligente. Em seguida, pediam que elas associassem o feito ao gênero feminino ou ao masculino. O outro teste era pedir para que escolhessem entre uma brincadeira para crianças brilhantes ou uma para crianças de inteligência média.

Antes dos seis anos, elas diziam que a pessoa inteligente da história tinha o mesmo gênero delas. Quando era uma menina, dizia que era a história de uma mulher e, quando era um menino, de um homem. Além disso, até essa idade, a mesma quantidade de meninos e de meninas escolhiam uma ou outra brincadeira.

Com as crianças mais velhas, os resultados foram bem diferentes. Tanto meninas quanto meninos associaram a história da pessoa inteligente a um homem. E a maioria dos meninos escolheu a brincadeira para crianças brilhantes, enquanto a maioria das meninas escolheu a para crianças medianas. Andrei Cimpian, o professor de psicologia da Universidade de Nova York que conduziu a pesquisa, acredita que, a partir dos seis anos, as crianças são mais expostas a lugares-comuns a respeito de inteligência, ou seja, o resultado reflete o que os pequenos extraem das falas dos adultos.

Cimpian acredita que o interesse menor das meninas pelas brincadeiras “brilhantes” pode interferir, no futuro, nas escolhas profissionais. Elas terão a tendência a optar por uma carreira que não seja para pessoas tão inteligentes (veja quadro). “Se essas pequenas diferenças iniciais se acumularem ao longo dos anos, pode levar a uma grande diferença de conhecimento e expertise entre homens e mulheres, desestimulando o ingresso em ciências exatas, consideradas mais difíceis”, afirma.
 

Vivências da mulher selvagem


Minervino Junior/CB/D.A Press
A coach e espiritualista Silvia Marilia da Silveira Chaves começou a trabalhar pelo empoderamento das mulheres após um período difícil de vida, em que se sentia muito insegura. Tirou férias do trabalho e foi passar uma temporada em uma comunidade isolada, sem água encanada ou energia elétrica. Na volta a Brasília, ainda passou alguns dias na Chapada dos Veadeiros. A intenção era entrar em contato com o seu lado mais selvagem e recuperar sua essência, já que vinha, há algum tempo, estudando os escritos da terapeuta junguiana Clarissa Pinkola Estés, autora de Mulheres que correm com os lobos (1992).

Segundo Estés, a cultura reprime a natureza instintiva das mulheres e pune todas as que se rebelam. Essa domesticação milenar traria sintomas para as mulheres contemporâneas, que incluem depressão, medo, fadiga, sentimento de fragilidade e de falta de criatividade. Com 19 lendas e histórias antigas, a autora identifica a essência da alma feminina e propõe o resgate desse passado longínquo como forma de atingir a verdadeira libertação.

Silvia Marilia decidiu que queria conduzir mulheres nessa jornada. “A maioria das mulheres que participam da vivência têm problemas de autoestima. Acabam descobrindo alguma mágoa que precisa ser enfrentada. Hoje, a mulher tem que assumir tantos papéis na sociedade que não tem tempo de olhar para si, para o seu íntimo”, afirma.

Com exercícios e atividades que envolviam a leitura, a dança, a poesia e a arte, organizados por Silvia Marilia e sua equipe, um mundo novo se abriu para Regiane Perpétua, 41 anos, administradora e estudante. Um mundo em que ser mulher era uma dádiva e em que ela podia pensar mais em si, sem deixar os queridos de lado, realizar o que queria, fazer decisões baseadas no que acreditava. “Eu achava que nada dava certo pra mim, que eu não acertava em nada. Eu estava com uma visão pessimista de tudo e de mim. Passei a ver os problemas de uma forma diferente”, reflete.

Uma parte importante da essência feminina, de acordo com Clarissa Pinkola Estés, é a intuição. A psicóloga Rosângela Macedo acredita que, por a sociedade valorizar muito mais a razão, as mulheres pararam de ouvir os instintos na tentativa de se sentirem inseridas. Ouvir o coração, coisa que havia deixado de fazer, fez uma grande diferença para Regiane na hora de lidar com a perda de visão do filho. Todos a aconselhavam a colocá-lo na escola pública. Contra tudo e contra todos, ela o manteve na escola em que estudou desde pequeno, porque sua intuição mandou.

A vida nem sempre é fácil, mas ela aprendeu a levar tudo de uma forma mais leve e a confiar nas próprias decisões, sem levar em conta apenas a razão. Ela precisa digitar os textos de todos os livros didáticos no computador para que o filho estude, e ele precisa se esforçar mais do que qualquer colega. E dá certo. Ele é o melhor aluno da classe.
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