[an error occurred while processing this directive] Não é apenas sobre você. O pensamento coletivo é o caminho para o feminismo - Revista do Correio Braziliense

CAPA

Não é apenas sobre você. O pensamento coletivo é o caminho para o feminismo

Entenda por que o chamado feminismo suave, que discute questões individuais, como o comprimento da saia ou a sexualidade, pode embaçar os temas mais importantes para as mulheres, como a violência e a desigualdade de renda. Especialistas ensinam que o caminho é pensar coletivamente

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postado em 12/03/2017 08:00 / atualizado em 10/03/2017 20:57

O feminismo está em voga. Recentemente, o programa Amor & Sexo, da TV Globo, trouxe o tema para dentro da telinha. Em lojas de departamento e até em desfiles de marcas renomadas, como a Dior, frases e símbolos do movimento estampam coleções. O rosto de Frida Kahlo, considerada um dos ícones do feminismo, está não só em roupas, mas em canecas, canetas, bolsas, cadernos e em uma infinidade de objetos. Nas redes sociais, grupos de meninas discutem o direito de não seguir padrões estéticos e de se intitular feminista. Apelidado de “feminismo suave”, esse tipo de abordagem é polêmica. Por um lado, pode ser considerada uma apresentação a uma nova visão de mundo, mais igualitária e sem opressões. Por outro, não vai a fundo e ignora questões cruciais, como a desigualdade salarial entre homens e mulheres e a legalidade do aborto. Afinal, há espaço para suavidade no feminismo?

Maurenilson Freire/CB/D.A Press
As mulheres ainda ganham menos do que os homens. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em dezembro de 2016, com dados de 2015, revelou que o salário deles é, em média, R$ 490 — ou 26% — maior que o delas. Quando o assunto são cargos de chefia, as mulheres também saem perdendo. Na mesma pesquisa, o instituto revelou que, em 2015, 6,2% dos homens estavam empregados em cargos de gerência ou direção contra 4,7% de mulheres. As que conseguiram se tornar chefes permanecem em desvantagem: em média, elas recebem 68% do salário deles.

O feminicídio é outro grave problema. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa brasileira de 2013 foi de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres — o que nos coloca na quinta posição internacional entre 83 países do mundo (Veja quadro 3). Números como esses são o que fazem pessoas como a socióloga Jolúzia Batista, assessora técnica do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), desacreditarem na existência de uma versão “suave” do feminismo. “A questão estética não tem nenhuma importância. O que importa mesmo é quando a mulher compreende que tem força para ser quem ela é, isso é o empoderamento.”

Ser quem se é, dentro do feminismo e da sociedade em geral, pressupõe também poder contar com os outros. É aí que entram duas palavras-chave para o movimento: empoderamento e sororidade — este último termo é especialmente importante para o feminismo, pois diz respeito à união entre mulheres baseada em empatia. “O feminismo não se faz com uma pessoa sozinha. É aí que está a luta coletiva, que é o que se tem para se apegar, se fortalecer”, explica Jolúzia Batista.

Dar as mãos umas para às outras é um dos pontos mais importantes do movimento, explica Jolúzia Batista. Isso porque as mulheres são oprimidas o tempo inteiro, especialmente quando tentam fugir dos padrões, como não querer filhos ou dispensar casamento, por exemplo. “É nessa hora que a verdade chega, é quando seu feminismo precisa saltar da superficialidade e partir para um outro momento”, defende. “O feminismo é uma perspectiva política de percepção do mundo arrojada e tem uma coisa que a gente fala que é o imperativo ético, quando você, de uma certa forma, se vê tensionada a viver aquilo que está falando, não dá para ser oba-oba suave.”
 

“Dio(r)evolução”

Em setembro do ano passado, a estilista italiana Maria Grazia Chiuri foi a primeira mulher a criar uma coleção para a Dior. Frases como Whe should all be feminists (“Todos deveríamos ser feministas”, em tradução livre) estamparam as camisetas da marca, que se inspiraram em uniformes de esgrimistas (praticamente unissex) para “escapar da estereotipação” de gênero.


Renda


Salário médio dos homens em 2015: R$ 2.012
Salário médio das mulheres em 2015: R$ 1.522

Salário médio dos homens em 2005: R$ 1.552
Salário médio das mulheres em 2005: R$ 1.101

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)


A matança de mulheres no Brasil


Entre 83 países analisados pela OMS, o Brasil apresenta 4,8 homicídios por 100 mil mulheres, enquanto a média mundial é de 2 por 100 mil. Isso resulta em uma taxa de:
48 vezes mais homicídios de mulheres que o Reino Unido;
24 vezes mais homicídios de mulheres que Irlanda ou Dinamarca;
16 vezes mais homicídios de mulheres que Japão ou Escócia.

Unidades Federativas com taxas bem acima da média nacional:
Roraima: 15,3 por 100 mil;
Espírito Santo: 9,3 por 100 mil;
Vitória, Maceió, João Pessoa e Fortaleza: índices acima de 10 homicídios por 100 mil mulheres;
Dos 4.762 homicídios de mulheres registrados em 2013 pelo Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde (MS), 2.394, isso é, 50,3%, foram perpetrados por um familiar da vítima. Isso representa perto de sete feminicídios diários nesse ano, cujo autor foi um familiar;
1.583 dessas mulheres foram mortas pelo parceiro ou ex-parceiro, o que representa 33,2% do total de homicídios femininos nesse ano. Nesse caso, as mortes diárias foram quatro.

Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS); Mapa da Violência 2015.
 

Tudo vira marketing


Carlos Vieira/CB/D.A Press
Dia Internacional da Mulher instiga naturalmente a discussão sobre direitos femininos. Para muitas, os debates estimulados pela data são um primeiro contato com a noção de que mulheres têm direitos. Para Jolúzia Batista, socióloga e assessora técnica do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), o lado mais “ameno” do feminismo indica uma mudança de comportamento, mas a especialista não considera o feminismo “suave” algo necessariamente positivo. “É uma ideia de emplacar um conceito em uma mudança de comportamento”, reforça. “As mulheres já tiveram essa percepção.”

Para Ismália Afonso, assessora técnica do Cfemea, jornalista e mestre em Estudo de Gênero, a “suavidade” no feminismo está ligada ao conforto “que as redes sociais e a internet permitem”. “O mercado espertamente consegue transformar tudo em produto. Então, essa coisa de Frida Kahlo, transformar ícones que parecem feministas em produtos, deixa alguém como in, na moda, em um debate que é desse tempo, é atual, mas que é só até a superfície”, defende.

Embora o termo “feminismo suave” possa dar a impressão de que se tratam apenas de garotas jovens, para Ismália, a questão tem mais a ver com classe e privilégios sem reflexão. Uma mulher branca, de classe média ou rica, por exemplo, enfrenta menos problemas que uma mulher negra e pobre. “Uma mulher branca tem três vezes menos chance de morrer por feminicídio que uma mulher negra”, justifica. “As mulheres não são iguais. O feminismo suave dialoga muito bem com quem não tem o enfrentamento da vida cotidiana difícil e não reflete sobre os privilégios sob os quais nasceu.”

Segundo o Mapa da Violência de 2015, uma mulher negra morre dia sim, dia não, dentro da própria casa. Esse é apenas um dos números que fazem com que a realidade do feminismo, de acordo com Jolúzia Batista, não possa ser “suave”. “Não existe feminismo ‘suave’ quando temos que lutar no STF pela legalização do aborto, ou quando você descobre que tem mulheres morrendo no hospital ou sendo presas porque fizeram uma intervenção completamente clandestina”, exemplifica. “É uma luta de resistência e sobrevivência cotidiana.”

O feminismo “pop”, por assim dizer, é uma consequência das manifestações espontâneas, segundo Jolúzia. “Todas as mulheres concebem que têm direitos, é um acumulado de conquistas, mas é tudo muito recente na nossa democracia”, explica. O direito ao voto, de estudar sem precisar pedir permissão ao pai ou ao marido e o direito de trabalhar fora, por exemplo, são conquistas com menos de um século de idade. “Isso tudo vai dando outra perspectiva de existência na sociedade.” Novamente, ela frisa que os impactos dessa liberdade vão depender de onde a mulher está. A classe social e a cor da pele também terão grande influência. “Mas pode ser positivo para as mulheres saberem que existe outra perspectiva de vida no mundo que não simplesmente a de estarem oprimidas.”
 

O que realmente importa no feminismo?

Carlos Vieira/CB/D.A Press
 

A construção do feminino


Temas como feminicídio, abuso sexual, violência doméstica e múltiplas jornadas de trabalho tendem a ser evitados em detrimento de outros aparentemente menos controversos — como usar ou não maquiagem.

Tânia Navarro Swain, doutora em História e Estudos Feministas e editora da revista on-line multilíngue Labrrys, études féministes/estudos feministas, explica que a noção de “diferença” entre homens e mulheres é uma construção social para “atrelar o feminino a seu corpo, a uma natureza específica e, claro, inferior à masculina”.

A fixação no sexo é apenas base para a dominação das mulheres. “A ‘diferença sexual’, assim, tem sido fundamento para a criação de estereótipos, assumidos, ou não, pelas mulheres”, detalha. A imagem do que seria a “verdadeira” mulher, levando em conta inclusive aspectos delimitados pela aparência, além de atuação e competência, criam a noção que temos hoje do que seria a feminilidade.

O feminismo suave é, para a especialista, uma continuação da corrente da “feminitude”, que vai na linha do “sou feminina e não feminista”. Para ela, não dá para se considerar feminista sem se preocupar profundamente com mudanças de estruturas do imaginário social, da divisão excludente de trabalho e de posição da mulher no social e no político.

Ignorar as questões-chave do movimento, para Tânia, é não mudar efetivamente nada — afinal, sem reivindicações, não há conquistas. “O feminismo suave se sujeita às regras e determinações da aceitação masculina, sobretudo utilizando os signos criticados pelos feminismos para deturpar seu significado profundo, que é a luta sem trégua contra o patriarcado”, completa.

Mais do que não contribuir para que o feminismo saia do lugar, a “versão” suave do movimento corre o risco de servir ao patriarcado — ou seja, o oposto do objetivo feminista. A liberdade sexual seria um exemplo, já que seria “apenas a liberdade de responder sempre sim às demandas e exigências masculinas, como mostra a extrema juventude de meninas com atividade sexual superprecoce”, de acordo com Tânia Navarro. 
 

O que realmente importa no feminismo?


“O que importa realmente no feminismo é desmascarar as artimanhas do patriarcado para inferiorizar e assujeitar as mulheres a seus desejos e desígnios. Quer seja pela força e pela violência ou pelo convencimento, como no caso do incentivo ao ‘feminismo suave’, o patriarcado conserva suas garras sobre as mulheres, em termos de salários, de liberdade, de posse de seus corpos, da própria imagem que elas têm sobre si mesmas, de fracas e incapazes. Por que existem tão poucas mulheres na política e quando existem são nulidades? As mulheres não votam em mulheres, não acreditam na capacidade do feminino. Isto é a cultura patriarcal, que tenta solapar todas as conquistas feministas em toda ocasião possível. As jovens que estão se engajando em um ‘feminismo suave’ estão contribuindo para o desmantelamento e a força de repúdio do feminismo em relação aos tentáculos patriarcais que sufocam as mulheres e restringem suas capacidades e ação política lato sensu.”

Tânia Navarro Swain
doutora em História e Estudos Feministas

 

Feminismo it girl


“Não existe uma fórmula correta sobre como ser feminista, mas é preciso prestar atenção aos discursos que se escolhe apoiar para não cair em armadilhas desmobilizadoras que buscam enfraquecer o movimento.” Na visão de Maíra Valério, pós-graduanda em gênero, sexualidade e direitos humanos e autora do blog Vulva Revolução, o tal feminismo suave pode até ser uma forma de introdução, ainda que torta, às ideias do movimento. O problema é quando a falta de aprofundamento em questões importantes funciona como uma espécie de encenação, uma tentativa de “estar na moda”. “Deixa de ser uma força política para virar uma espécie de tribo urbana com data de validade.”

Há décadas, segundo a estudiosa, feministas se debruçam sobre a relação entre o status quo e a força política e cultural do feminismo. O que parece libertador ou mesmo uma forma de demonstrar apoio a uma ideia (como ter uma bolsa da Frida Kahlo) pode ser, na verdade, apenas uma forma de ganhar dinheiro. Quando o feminismo é “lavado” pela mídia e por opiniões com interesses voltados para o lucro, segundo Maíra, acaba por favorecer a manutenção da exploração da mulher.

Maíra destaca que muitas práticas reproduzidas pelas mulheres são aprendidas. Por isso, dificilmente nossas escolhas são feitas sem nenhum tipo de influência externa, como a mídia, opiniões de pessoas importantes ou a cultura em que estamos inseridas. Os embates começam quando se problematizam tais escolhas. Um exemplo é a confusão que ainda existe sobre o que é ser feminista e como uma mulher que se define como tal deve se apresentar — depilada ou não, maquiada ou não. “Muita gente apela para o ‘faço para me sentir bem’, como se não houvesse uma pressão para a gente se sentir bem apenas enquanto dentro de um certo padrão ou como se a indústria da beleza não fizesse pressão alguma sobre as mulheres”, critica. “Esse mercado é um dos poucos que não entram em crise no país e é importante a gente entender o que existe para além do ‘se sentir bem’, mesmo que a gente continue reproduzindo certas práticas por hábito, costume, vontade ou pressão.”
 

O que realmente importa no feminismo?

 
Arquivo Pessoal/Divulgação
 
 

Informar é poder


Feminismo negro, anarcofeminismo, radfem, feminismo liberal… O feminismo tem muitas vertentes. Em parceria com algumas amigas, Bárbara Albuquerque Rodrigues, 26 anos, designer de interiores e integrante do Coletivo identiAfro, criou um álbum no Facebook para detalhar algumas linhas principais. Compartilhado por mais de 8 mil pessoas até o fechamento dessa edição, o objetivo principal foi dar visibilidade e explicar de forma acessível as nuances entre cada uma das modalidades.

Para Bárbara, o feminismo “suave” seria algo próximo ao feminismo liberal, também conhecido como libfem. “Penso que é o feminismo que as mulheres acabam por conhecer primeiro porque ele é o que mais tem visibilidade e é aquele que menos choca num primeiro momento”, opina. O lado individualista dessa vertente (a do feminismo dito suave) é, para ela, seu principal defeito. “Se você quer realmente fazer parte de um movimento, tem que pensar como um coletivo e não individualmente. As reivindicações do feminismo liberal são para a liberdade individual e não auxilia o grupo de mulheres como um todo.”

Se o feminismo liberal ou suave pode ser considerado uma espécie de porta de entrada para o feminismo, Bárbara pontua que se deve tomar cuidado para não ficar apenas “na soleira”, ou seja, sem adentrar de verdade nas questões realmente importantes. Reivindicações superficiais, ela defende, não ajudam as mulheres como um todo, já que não fazem recorte nem de classe nem de raça. “Enquanto feministas liberais lutam pelo direito de ficarem com quantas pessoas quiserem numa balada sem serem xingadas de vagabundas, feministas negras lutam para voltarem vivas para casa”, justifica. “Estagnar no feminismo liberal é fechar os olhos para as necessidades e direitos de mulheres negras, indígenas, pobres, etc.”

E a discussão sobre a aparência? Para Bárbara, é tudo uma questão cultural. A falta de coragem em “se assumir” feminista seria, para ela, uma forma de deixar claro para a sociedade que a moça pode até acreditar em alguns ideais feministas, mas ainda está presa a padrões de beleza impostos. “Sair desse padrão é algo extremamente difícil de se fazer e não são todas que conseguem. Porém, deixar essa sua escolha tão exposta e marcada dessa forma faz com que você diminua a conquista da mulher que conseguiu e ajuda na estigmatização e depreciação delas. Você não precisa diminuir outras mulheres para se sentir bem.” 
 

O que realmente importa no feminismo?

Arquivo Pessoal/Divulgação

 
 
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