REPORTAGEM DE CAPA

Eles podem fazer a sua cabeça

Jovens de Brasília usam a internet como meio democrático para falar do seu estilo de vida, dar dicas fitness, de beleza, de viagens, além de expressarem os próprios sentimentos. A empatia dos internautas dá a eles o status de digital influencers

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postado em 19/03/2017 08:00 / atualizado em 20/03/2017 10:19

Por Marina Adorno, especial para o Correio


A internet se popularizou nos anos 1990, e, desde então, os meios de comunicação não param de revolucionar. A informação se tornou mais acessível e dinâmica. Recentemente, devido às proporções que o meio on-line tomou, observa-se, inclusive, uma grande mudança em algumas carreiras. Fomos apresentados às blogueiras, aos youtubers (pessoas que usam o Youtube como plataforma para apresentar o próprio trabalho). Agora, surgem os influenciadores digitais ou digital influencers. Eles são as pessoas que você segue e que são capazes de te fazer querer consumir um produto ou serviço. Bastam algumas fotos e vídeos.

A influência sempre existiu. “Todos nós somos influenciados, seja pela mídia, seja por nosso círculo de amizades. O termo ‘influenciador digital’ tem grande relevância pela rapidez do processo de influenciar”, explica o professor Renato Rosa, da pós-graduação em marketing digital do UniCeub. Segundo ele, fora do meio digital, a influência ocorre de forma mais lenta, conforme a informação transita entre as pessoas.

Em setembro do ano passado, a YOUPIX (plataforma focada em discutir a cultura da internet e como o jovem a usa para criar movimentos culturais e sociais) com a Airstrip | Airfluencers (agência que avalia a aderência de um influenciador a temas específicos para encontrar o profissional ideal para divulgar campanhas de clientes)com a empresa de estudos de mercado GFK fizeram um estudo sobre o mercado de influenciadores digitais. Segundo a pesquisa, existem 230 mil influenciadores no mundo, dos quais 60% são homens e 40% são mulheres. A força deles é algo indiscutível: 2% dos usuários geram 54% das interações de um total de 7,2 bilhões daquelas feitas on-line. Esses parcos 2% são os digital influencers.

 

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Breno Fortes/CB/D.A Press
Janaína Rocha, 24 anos, cresceu ouvindo que era uma pessoa fotogênica e que deveria investir na carreira de modelo. Aos 17, ela procurou uma agência, mas se decepcionou com o tipo de tratamento que lhe foi dado na ocasião e desistiu de seguir em frente. Foi quando se dedicou aos estudos e se formou em bacharel de direito.

Ela ainda fez alguns trabalhos de fotografia, mas sem a ambição de se profissionalizar. Até que um dia, depois de fazer um ensaio, no fim de 2015, com um fotógrafo brasiliense para uma revista online de Paris pediu autorização para publicar as fotos. A partir disso, Janaína recebeu várias propostas do exterior para ser fotografada. “Na época, tinha 2 mil seguidores no Instagram e não levava isso tão a sério. Achava que eu simplesmente era fotogênica”, afirma.

Há um ano e meio, ela se viu dividida: teve que conciliar o estágio em um escritório de advocacia em Brasília com alguns trabalhos de modelo, que muitas vezes pagam baixos cachês ou apenas fazem permutas. “Acredito que Deus tenha planos para cada um e, nesse momento, rezei e pedi para que Ele me indicasse o caminho certo a seguir”, conta. Rapidamente, ela percebeu um retorno crescente como modelo e, em junho do ano passado, largou o direito para se dedicar integralmente à nova carreira.

Hoje, a modelo tem 12,4 mil pessoas que acompanham o perfil dela no Instagram. Com o crescimento rápido nas redes sociais, Janaína passou a receber mais convites profissionais para trabalhar com grifes que sempre admirou. Inclusive, foi capa de uma revista de noivas no ano passado — algo que ela considera um marco da sua trajetória. “Fiquei muito chocada com o crescimento do meu perfil on-line e ainda me surpreendo. As pessoas realmente me acompanham e interagem por meio dos comentários e de mensagens”, ressalta.

A influência que Janaína Rocha tem sobre seus seguidores é perceptível e as marcas que se aliam à imagem dela têm retornos positivos. A modelo tem parcerias com grifes de moda, saúde, beleza e estética da cidade. Em uma ocasião, ela divulgou uma maquiadora nas redes sociais e a profissional ganhou 50 seguidores, instantaneamente, no Instagram. “Eles comentam que determinada roupa que eu usei vendeu rapidamente e, quando posto algum tratamento estético, recebo muitas mensagens pedindo telefone e endereço”, orgulha-se.  

 

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Breno Fortes/CB/D.A Press
A servidora pública Mariana Nóbrega, 32 anos, frequenta academia desde os 15 e sempre foi do tipo que gosta de praticar vários esportes. Com o passar do tempo, as pessoas com quem ela se encontrava começaram a perguntar o que ela fazia, o que comia e chegavam, inclusive, a pedir para irem malhar na companhia dela. Então, passou a compartilhar sua rotina com os amigos mais próximos, que tinham interesse no estilo de vida saudável que ela sempre levou.

Até que, em janeiro do ano passado, os mesmos amigos sugeriram que ela postasse algumas dicas no Instagram para que mais pessoas se beneficiassem dos conselhos dela. “Resolvi tentar, mas levando isso como uma brincadeira. De repente, ganhou uma proporção muito maior”, conta. Os amigos estavam certos quando fizeram a sugestão: o interesse pelo dia a dia dessa influenciadora digital é perceptível. Hoje, ela já tem 32,5 mil seguidores no Instagram.

Mariana acredita que o grande diferencial do perfil é o fato de ela ser uma pessoa que se esforça para conciliar a academia com a rotina de trabalho, como tantas outras pessoas. “Tenho uma hora por dia para malhar, também trabalho, faço supermercado, cuido da casa, tenho família, namorado e animal de estimação. Mostro que é possível conciliar tudo, basta querer”, explica a influenciadora.

Aos poucos, a responsabilidade de manter os seguidores motivados se tornou um incentivo pessoal. Em um só dia, Mariana recebe mais de 100 mensagens de compartilhamento de fotos, dividindo os resultados e agradecendo a inspiração.

Mesmo com uma carreira digital recente, a musa fitness tem consciência do peso das informações que passa e toma muito cuidado antes de postar. “Sou apenas uma servidora pública que gosta de treinar e comer bem. Não sou nutricionista ou profissional de educação física. Apenas posto a minha rotina nas redes sociais”, defende.

A exposição e a popularidade on-line nunca foram sua ambição. Mariana é formada em direito, trabalha há nove  anos como servidora e confessa ser apaixonada pelo trabalho. Largar a carreira, pela qual ela se dedicou tanto, definitivamente não é uma opção.

Ser reconhecida na rua pela sua contribuição com informações de esporte e de alimentação é algo que ela nunca imaginou, mas, durante o último ano, a situação já se repetiu algumas vezes. “A primeira vez, eu estava em uma festa quando uma menina passou e me olhou. Pouco tempo depois, veio falar comigo, disse que era minha fã e que não acreditava que tinha me encontrado. Conversamos por 40 minutos, trocamos telefone e até combinamos de treinar juntas”, relembra. O elo criado com as seguidoras é algo que ainda a surpreende. Mariana atribui o sucesso dessa relação a um fator: ela é verdadeira. “Não adianta tentar ser alguém, o segredo é ser você mesma e mostrar a sua personalidade”, aconselha.

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Breno Fortes/CB/D.A Press
A escrita sempre foi a maneira encontrada por João Doederlein, 20 anos, de se expressar. Em datas comemorativas, como Natal, ano-novo e Dia das Crianças, ele se dedicava a fazer posts temáticos para seu perfil pessoal do Facebook. Os amigos aguardavam ansiosamente pelos textos comemorativos assinados por ele. Atualmente, um número maior de pessoas acompanham suas produções. Quase um milhão delas seguem os perfis no Facebook e no Instagram do estudante de publicidade da Universidade de Brasília, para ler os novos textos do jovem poeta.


A carreira dele começou de maneira despretensiosa, há seis anos. João era apenas um menino que tinha prazer em escrever e, certa vez, postou um texto na internet “para ver no que ia dar”. Como resultado, ele ganhou algumas curtidas e uns poucos comentários, mas isso foi motivação suficiente para ele criar um blog na plataforma Tumblr, quando tinha 13 anos. Aos poucos, começou a conquistar seguidores e receber feedbacks positivos. “Gostei de saber que as pessoas liam o que eu escrevia, e que a minha mensagem estava chegando a algum lugar”, destaca. No Tumblr, João contabilizou 2 mil seguidores e, na época, isso foi algo que o impressionou.

Aos 16 anos, ele decidiu se arriscar em outra plataforma e criou a primeira página no Facebook. Com a página “Contos Mal Contados”, ele conseguiu uma liberdade maior para escrever textos mais compridos e foi nesse espaço que o hobby começou a ganhar novas proporções. Nos três primeiros anos, ele ganhou 10 mil seguidores, mas ele fechou 2016 com 600 mil. Um crescimento que João classifica como gigantesco. Esse resultado é um reflexo da dedicação dele. “Sempre me empenhei com muito afinco nesse trabalho. Buscava novos formatos e mais qualidade nos textos. Observava o crescimento dos youtubers e sabia que isso que eu estava fazendo era algo sério”, argumenta.

Diante desse boom, alguns amigos sugeriram que ele estendesse suas postagens poéticas para o Instagram. O perfil @akapoeta era o espaço pessoal onde ele compartilhava fotos com amigos e familiares e não lhe parecia apropriado para publicar pensamento. Foi quando criou o primeiro texto de ressignificado, no qual escolhe uma palavra e discorre sobre ela, muitas vezes atribuindo novas características e expressando seus sentimentos naquele momento.

No Facebook o resultado foi positivo e ele desconfiou que também poderia funcionar no Instagram. “Interesse” foi a palavra escolhida para o novo formato e não decepcionou. “Naturalmente, esse formato de texto começou a ter mais curtidas do que as outras fotos e comecei a postar só isso. Fui profissionalizando meu perfil, apaguei muitas fotos que não tinham nada a ver com a nova proposta e me comprometi com a frequência de publicação. Pelo menos uma vez por dia, coloco um novo texto”, conclui.

João esclarece que o processo de criação foi muito natural. Ele testava modelos e tomava as decisões de maneira instintiva. “Estava em busca de algo único, meu. Independentemente de saber se funcionaria ou não. Acredito até que existem formatos mais virais, mas foi com esse que me identifiquei. A forma do meu primeiro post, em março do ano passado, é o mesmo até hoje”, comemora o poeta. No período de um ano, desde a primeira publicação, ele passou de 1.500 para 340 mil seguidores no Instagram — dos quais 87% são mulheres — e já redefiniu mais de 300 palavras.

Com o sucesso na internet, João já conquistou várias realizações profissionais. Ele já recebeu propostas de trabalho em vários segmentos, como marcas de café, joias e colégios, e, em breve, vai realizar um grande sonho: publicar seu primeiro livro. Nos planos dele estão uma coletânea de novas palavras, mas também outros gêneros literários. “Observando a trajetória de alguns youtubers, vi que a internet poderia ser um caminho. Não sabia aonde ele ia chegar, não via como algo garantido, mas nem por isso deixaria de tentar”, conclui. 

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Breno Fortes/CB/D.A Press
Os 42,8 mil seguidores que ele possui no perfil do Instagram são apenas reflexo de muita dedicação. Para o maquiador Lázaro Resende, 24, natural de Luis Eduardo Magalhães (BA), o sucesso on-line não chegou por acaso. Ele sempre acreditou no potencial das novas plataformas para disseminar seu trabalho e conquistar novas oportunidades. O empreendedorismo deu certo e, de recepcionista em um salão na cidade natal, Lázaro virou um maquiador premiado e conhecido internacionalmente.


O profissional da beleza define que sua trajetória começou na raça. Há seis anos o salão no qual ele trabalhava, na Bahia, precisou de um maquiador e Lázaro se ofereceu. “Não tinha prática nenhuma. Movido pela necessidade, descobri um dom.” A partir desse momento, ele começou a trabalhar como maquiador, buscou um curso profissionalizante e, há dois anos, foi convidado para trabalhar em um salão da capital.

As redes sociais sempre foram vistas pelo empreendedor como uma ferramenta de trabalho tão importante quanto os pincéis e os produtos de beleza. Lázaro começou publicando seu portfólio no Facebook e dois anos atrás migrou para o Instagram. “Precisava captar cliente e não tinha recursos para divulgar meu trabalho. Mas tinha à minha disposição uma ferramenta gratuita que é o Instagram.” Na rede social de compartilhamento de fotos, ele pôde usar das hashtags para se destacar e aumentar a clientela.

Visionário, Lázaro Resende aposta no crescimento do mercado digital e define metas para se manter motivado. Atualmente, ele traçou como objetivo atingir 100 mil seguidores até o fim deste ano. Segundo o profissional, em tempos de internet e interação on-line, a rede social é o primeiro contato que ele estabelece com a cliente, de apresentar o trabalho que executa e o tratamento que oferece àquelas que o procuram.

O maquiador ministra cursos presenciais e se prepara para lançar cursos virtuais. Em outubro, vai para Miami realizar um workshop; em maio, vai disponibilizar um site e uma linha com 12 produtos de maquiagem assinados por ele. O retorno pela influência que conquistou não é apenas financeiro. “Tenho parcerias com marca de pincéis, empresas que oferecem brindes para minhas clientes e profissionais com os quais faço permuta, como dentista, endocrinologista e coach”, finaliza. Desde que começou a usar o Instagram de maneira profissional, a renda de Lázaro Resende aumentou em 300%.

 

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Arquivo pessoal
Para os amantes de viagem, o blog We Love é uma ótima fonte de inspiração e de informação. Manoela Denardin, 23 anos, nasceu no Rio Grande do Sul, mas, ainda criança, veio com a família morar em Brasília. O sonho dela sempre foi o de ser atriz e se mudar para o Rio de Janeiro. Então, juntou dinheiro vendendo brownies e cookies na escola e conseguiu, aos 18 anos, se mudar. “Nunca imaginei todas as outras portas que se abririam a partir desse momento e com todos os rumos que isso tomaria”, confessa. Quatro meses depois da mudança, ela conheceu Matheus.

Matheus Kelmer, 26, nasceu no estado do Rio de Janeiro, mas se considera mineiro por ter morado em Juiz de Fora (MG) até os 17 anos. Até que o pai foi aprovado em um concurso em Cabo Frio, litoral do Rio, e o jovem pôde realizar o sonho de morar na praia. Matheus conta que sempre foi apaixonado pelo mar, pelo surf, por filmar e editar vídeos. Para tentar realizar o desejo de estudar cinema, mudou-se para o Rio e, cinco meses depois, conheceu Manoela. “Nem sei direito dizer se é destino, sorte ou coincidência, mas acho muito louco. Parece que, desde lá de trás, tudo foi acontecendo para que nossos caminhos se cruzassem.”

Os dois sempre foram apaixonados por viagens e isso sempre foi parte importante do relacionamento deles. O primeiro destino que conheceram juntos foi Pipa, no Rio Grande do Norte. Foi o mesmo lugar onde, alguns anos depois, moraram por sete meses e o que consideram um marco para a história deles. “Depois de voltar de cada viagem, a gente sempre se sentava juntos e ficava editando os vídeos e as fotos dos melhores momentos, mas não publicávamos em lugar nenhum. Eram lembranças para nós dois”, conta Matheus. Até que um dia, em 2014, decidimos criar uma página para deixar registradas todas nossas experiências em cada lugar, além de dar dicas e sugestões para quem estivesse planejando ir para o mesmo destino. Hoje, o perfil tem 106 mil seguidores.

Logo no início, renomados canais de televisão por assinatura, revista e contas oficiais da câmera GoPro começaram a compartilhar as fotos do casal. Isso contribuiu para o crescimento do perfil e deixou Manoela e Matheus com ainda mais vontade de se profissionalizarem. “Com o cachê do primeiro trabalho, vendemos todas as câmeras, juntamos com a remuneração e compramos equipamentos profissionais”, conta Manoela.

Apesar do grande número de pessoas que acompanham o perfil deles nas redes, eles afirmam que não conseguem mensurar a dimensão do que isso representa. “Não nos consideramos famosos, mas, às vezes, rolam uns episódios que nos surpreendem. Muita gente nos encontra na rua para trocar uma ideia, fala que curte o que a gente faz, pede para tirar uma foto. É muito louco! Alguns ficam nervosos, tremendo e até se emocionam”, orgulha-se Matheus. Para eles, é muito gratificante saber que tocam positivamente a vida das pessoas. Atualmente, eles recebem convites de Secretarias de Turismo e de hotéis do mundo inteiro para viajar. No momento, estão fora do Brasil, no Havaí, sem data para voltar. 

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adelaide
adelaide - 21de Março às 12:25
Fofoooooooooooooooooo Manoelaaa