Modificação corporal associa a transformação da aparência à arte

O corpo é considerado uma obra-prima por quem faz body modification, ou modificação corporal

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postado em 20/03/2017 08:00 / atualizado em 20/03/2017 11:08

Por André Baioff, estagiário sob a supervisão de Flávia Duarte

Bruno Peres/Esp. CB/D.A Press

Pessoas com várias tatuagens, que usam alargadores nas orelhas e piercings espalhados pelo corpo, podem estar em busca da satisfação com a aparência pelos detalhes. Outras, porém, preferem modificar o corpo de forma radical. Esse comportamento é chamado de body modification, ou modificação corporal. Em várias culturas — como pode ser visto em algumas tribos indígenas, entre membros de certas religiões da Índia e, também, em vários lugares do Oriente — essa prática é cultuada há séculos. É que, por aqui, poucos se arriscam a adotar esse radicalismo estético.


Quem costuma a andar pelo centro de Taguatinga já deve ter notado um rapaz, digamos, um tanto diferente transitando por lá. Isso porque ele se destaca em meio à multidão que o cerca. A princípio, é possível notar que a metade da cabeça raspada tem quatro chifres espalhados, seguidos de um longo dread e vários piercings no rosto. Nesse visual excêntrico, há ainda outros detalhes que podem ser destacados, como as sobrancelhas raspadas e a parte branca dos olhos pintadas de preto, que o fazem ter um aspecto inusitado.

Estamos falando do tatuador e body piercing Wildson Santos, 29 anos, mais conhecido como Dark Vírus. A fascinação pela modificação corporal começou quando após folhear o Guinness book, o livro dos recordes. Wildson se interessou especialmente pelo capítulo que mostra as pessoas que mudaram completamente a imagem natural.

Gente como o Stalking Cat — ou homem gato que, para ele, era algo surpreendentemente artístico — o fez mudar inteiramente sua visão de mundo. “Eu pirava no cara e me perguntava: ‘como o ser humano pode ficar nesse nível?’”, relembra. Outros que faziam a cabeça do rapaz eram o Homem Enigma e o Homem Lagarto. “Naquela época, eu via as pessoas tatuadas e com piercing, mas achava meio comum porque muita gente fazia. Gostava mesmo das coisas mais pesadas, radicais e trash. Por isso, me encantava com esses caras”, conta.

Aliás, desde muito novo, a arte sempre esteve presente na vida do tatuador. A mãe dele trabalhava com pintura em tela e sempre o incentivou no gosto pela arte. Na sua adolescência, ele quis fazer o primeiro piercing. Como ainda era menor, ninguém topava realizar o desejo do garoto de se modificar. Foi aí que fez por conta própria: comprou uma agulha de costurar bola de futebol para fazer as perfurações. “Eu era todo perfurado. Tinha piercing em todo canto. Fui a minha própria cobaia”, brinca, Wildson.

Embora, para a nossa sociedade, o comportamento do body modification ainda seja algo que cause estranhamento, há tribos, principalmente indígenas, que usam as técnicas por diversos significados. Wildson Santos explica que, em certas culturas, veem-se as orelhas alargadas como sinônimo de paciência e de sabedoria. Por essa razão, em muitas imagens de deuses orientais pode-se observar isso. “Aqui no Brasil, os índios da tribo Caiapó, da Amazônia, utilizam alargadores nos lábios, nas narinas e em outras partes. Achei massa e quis colocar. Tinha um desejo enorme de fazer isso em mim”, diz.

Preconceito

Roberth Mytchuwm Machado Rego, 55 anos, popularmente conhecido como Kalango Corredor, tem o corpo praticamente coberto por tatuagens. No total, o motorista da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) tem 314 tatuagens e alguns piercings pelo corpo. Como Dark Vírus, também tatuou o globo ocular só que de azul-turquesa, por uma técnica conhecida como eyeball.

Ele diz que a sua primeira tatuagem foi feita logo após entrar para a Força Aérea Brasileira (FAB), quando tinha 18 anos. “Se tivesse feito antes, não tinha entrado na aeronáutica”, justifica. Começou, então, a mudar completamente o estilo de vida. O Kalango Corredor fumou durante muito tempo, cerca de 30 cigarros cotidianamente. Em 2002, largou o vício após descobrir uma nova paixão: a corrida de rua. Já conquistou 454 medalhas e 194 troféus, concorreu cinco vezes à São Silvestre, em São Paulo e não pensa em parar. Ele tem dois sonhos: ser o homem mais tatuado do DF e ser deputado.

Ele concorreu, nas eleições de 2014, para  distrital. Conseguiu pouco mais de 700 votos e não chegou ao cargo. “O meu lema era: ‘tattoo e piercing não definem carácter’. Queria acabar com esse conceito errado que as pessoas têm em relação a isso”, aponta. E ele, realmente, desconstrói muitos dos preconceitos que a sociedade relaciona a essa estética. Ele frequenta a igreja, é pai de três filhos e servidor público.

Aliás, ao contrário do que possa parecer aos olhares mais críticos e desinformados, o psicólogo e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB) Alexandre Galvão comenta que esse comportamento como uma satisfação estética não é doentio. “O bizarro não é patológico. E, portanto, não há prognóstico para isso”, acrescenta.

O risco de se transformar

No caso dos adeptos da body modification, a dor é uma poderosa aliada. Para colocar as próteses, por exemplo, é necessário fazer um corte na pele e desprendê-la do músculo para inserir objetos. Para colocar os “chifres” de Wildson na cabeça, precisou cortar a pele no meio da cabeça e empurrar as próteses até chegar à testa. “Eles deram anestesia, mas era a mesma coisa de não ter. Eles veem que eu tenho um monte de modificações e fazem o procedimento sem dó”, supõe.

A cirurgiã plástica e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica do Distrito Federal (SBCP-DF), Marcela Cammarota, informa que aplicar esses métodos — tatuar os olhos, colocar piercings nas partes íntimas ou usar procedimentos agressivos e inadequados para inserir as próteses — podem causar algumas complicações. “A colocação de materiais estranhos no nosso organismo produzirá uma reação inflamatória. Em locais vulneráveis, ela é ainda mais intensa, podendo gerar a expulsão do material e até infecção”, informa a doutora.

A médica ainda alerta que todos os manuseios cirúrgicos devem ser restritos aos profissionais da área. “A realização de procedimentos invasivos fazem parte do ato médico e, portanto, são restritos à formação da medicina”, ressalta.

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