COMPORTAMENTO

Onde estão os emos brasilienses que costumavam curtir no Pátio Brasil?

Você se lembra do emo? O tristonho estilo musical que embalou uma geração inteira de adolescentes hoje sobrevive na memória de jovens adultos

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postado em 09/04/2017 08:00 / atualizado em 07/04/2017 21:55

A adolescência é uma fase intensa, que envolve a busca por identidade. Muitas vezes, esse porto seguro está em uma tribo em que os membros partilham o mesmo estilo de vida. Em meados dos anos 2000, a tribo dos emos (corruptela de emotional hardcore) conquistou corações juvenis com roupas pretas, franjas lisas, olhos delineados e muito rock melancólico.



As raízes musicais do gênero remontam à cena punk hardcore de Washington, EUA, berço de grupos como Rites of Spring e Embrace. O boom, porém, ocorreu nos anos 1990, com uma nova leva de roqueiros emotivos no meio-oeste americano (daí o nome midwest emo) — nomes como Cap’n Jazz, Braid, Mineral, Christie Front Drive, The Get Up Kids e Jimmy Eat World se projetaram nessa época. “Acredito que essas sejam as mais embrionárias, encabeçando uma grande árvore genealógica de dezenas de bandas e serviu como maior fonte de inspiração das gerações seguintes”, relata o designer gráfico Lucas Fuschino, 28 anos, diretor do selo independente Share This Breath.

Breno Fortes/CB/D.A Press
No início dos anos 2000, com a ajuda das redes sociais e das plataformas de streaming, o estilo se popularizou e ganhou seu visual definitivo, uma mistura de rebeldia e fofura, com direito a festivais próprios, revistas temáticas e até programas de tevê. “O contato era muito fácil por meio do Fotolog, Orkut, MySpace e PureVolume, por exemplo. Era um visual que remetia ao punk, porém fofo — cheio de caveiras, estrelas, diamantes, cerejas e cupcakes”, detalha Lucas.

Porém, na mesma velocidade que a moda pegou, refluiu: hoje, cerca de 15 anos após o ápice do gênero, existem poucos emos nos pátios das escolas, nos shows e nos rolezinhos de shopping.  Cristianne Cunha, 22 anos, é uma exceção. “Acabei amadurecendo o estilo e adaptando para a minha realidade atual. Ainda uso franja e roupas pretas. Também continuo curtindo as músicas”, ressalta a jovem.

Para Lucas Fuschino, o movimento sofreu certa estigmatização. “A estética exagerada e a banalização da suposta tristeza foram as maiores nódoas deixadas pelo senso comum. É inegável sentir nostalgia daqueles dias pintando o cabelo, trocando arquivos de mp3 pelo MSN, escrevendo os versos preferidos em todos os cantos”, relembra.

 

Pontos de encontro


Na capital, os emos se aglomeravam no Pátio Brasil, na praça ao lado da estação de metrô do Park Shopping e, até mesmo, no templo budista na Asa Sul. Quem passava por esses locais logo reparava cintos de rebite, cabelos alisados tampando o rosto e calças superapertadas. Incontáveis piercings e lápis de olho compunham o visual.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
O professor de educação física João Marcos Cavalcante Freitas, 24 anos, estava na onda. Seu diferencial no visual era a gravata por cima da roupa e os óculos sem lentes. “Sempre gostei de músicas melódicas. Quando o emo explodiu, muita gente queria ser. A princípio, eu quis pela modinha, com a companhia de uma prima, que participou comigo desse processo”, relembra.

Os shows das bandas NX Zero e Fresno eram um ponto de encontro da turma. “As pessoas se reuniam nesses eventos. O Parque da Cidade também foi um grande reduto nosso. Lá, o pessoal fumava e bebia, sempre ao som de muita música”, detalha João.

 

 

 

 

 

 

A estudante de veterinária Nathalia Oliveira, 25 anos, entrou de cabeça na cultura emo na época em que cursava a oitava série do ensino fundamental. Ela relata que foi o período em que descobriu uma ligação com as bandas que ouvia e que se sentiu muito bem-vinda e acolhida nos encontros da turma. “Costumávamos ir ao Pátio Brasil todas as sextas-feiras — era o ponto de encontro da galera emo em Brasília. Mas, também, gostávamos de ficar nas praças e embaixo de prédios”, conta.

Bruno Peres/Esp. CB/D.A Press
 

Depois de maduros


Passado o furacão emo, seus adeptos tomaram outros rumos. Nathalia e Cristianne, por exemplo, pretendem se aperfeiçoar na profissão que escolheram: a medicina veterinária. E o João, além de ser professor de educação física, termina, neste semestre, o bacharelado na área.

De vez em quando, uma pontada de melancolia vem à tona. “Levo o estilo ainda, escuto os mesmos artistas de antes e com novos estilos musicais. Os amigos daquela época me acompanham até hoje. Ser emo pra mim foi mais do que uma fase da vida, eu realmente incorporei tudo o que tinha de melhor e levo as coisas boas, principalmente as lembranças”, garante Nathalia.

João, por sua vez, mantém a filiação apenas no nível musical. “Ter feito parte desse movimento fez com que eu me apaixonasse ainda mais por música. Eu escuto até hoje, quando estou meio chateado. Acho que isso não passa — essa relação música/sentimento”, especula o rapaz.

Para a Cristianne Cunha, que levou adiante a estética e continua gostando das marcas registradas do movimento, há, sim, um estilo de vida envolvido. E disso, ela não abre mão.

*Estagiário sob supervisão de Gustavo T. Falleiros

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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Elvio
Elvio - 10 de Abril às 18:17
emos? vivos?! Ainda?!
 
MARCELO
MARCELO - 10 de Abril às 13:36
Esse movimento foi o mais desnecessário do século. Ideologia sofrer e odiar o mundo, músicas ridículas e roupas desprovidas de bom gosto. Deixei de frequentar o Pátio Brasil por causa desses emos.