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A hashtag #Meu Professor Racista revela realidade preconceituosa em escolas

Será possível que o espaço consagrado ao saber seja também lugar de racismo? Infelizmente, é o que dizem os relatos divulgados com a hashtag #Meu Professor Racista

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postado em 23/04/2017 08:00 / atualizado em 21/04/2017 17:08

O racismo ainda é forte no Brasil e faz parte da trajetória de praticamente toda pessoa negra. Lamentavelmente, além das chacotas feitas pelos colegas, desde os primeiros passos da vida escolar até chegar à universidade, a população negra também é discriminada por quem menos se espera: o professor. No começo do mês de abril, as redes sociais foram inundadas com diversos relatos de pessoas que sofreram racismo, direta ou indiretamente, por profissionais da educação. Elas usaram a hashtag #MeuProfessorRacista, criado pelo coletivo Ocupação Preta depois que uma professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) abordou questões raciais com teor de deboche.


Editoria de Arte/CB/D.A Press
O problema, porém, não é exclusivo das universidades. Muitos dos relatos contavam episódios ocorridos na educação infantil e nos ensinos fundamental e médio. A lei nº 10.639, de 2003, obriga instituições de ensino públicas e privadas a ensinarem história e cultura afro-brasileira e africana. Posteriormente, a lei 11.645/2008 incluiu também história indígena. Na prática, porém, reclama-se de que os assuntos são superficialmente abordados — em muitos casos, só em 20 de novembro, quando é celebrado o Dia da Consciência Negra. Para a professora universitária Eliane Cavalleiro, o silêncio sobre o racismo, o preconceito e a discriminação racial nas diversas instituições educacionais contribui para que as diferenças de fenótipo entre negros e brancos sejam entendidas como desigualdades naturais.

O estudo Aprendizagem em Foco, do Instituto Unibanco, divulgado em fevereiro deste ano, usou dados do IBGE e do Ministério da Educação para identificar os grupos com maior risco de evasão escolar. “São jovens de baixa renda, em sua maioria, negros, que trocam com frequência os estudos por um trabalho precário ou que ficam grávidas já na adolescência”, diz o texto, que acrescenta: “Entender o perfil do jovem que evade da escola e identificar os momentos em que esse movimento é mais provável são ações importantes a serem realizadas pelos gestores de escolas e dos sistemas educacionais.”

Embora esteja claro que são grupos que precisam de mais atenção no ambiente escolar para se manterem motivados, o que ocorre é o oposto. “Ao contrário de ser um espaço de promoção, de democratização do acesso aos lugares de reconhecimento social e de inclusão, a escola é um dos espaços da sociedade em que as representações negativas dos negros são difundidas”, afirma João Batista, especialista em gestão e planejamento de educação. Segundo ele, o estereótipo de que os estudantes negros não terminam seus estudos faz com que sejam deixados em segundo plano no processo de aprendizagem.
 

Do maternal à faculdade


Guilherme Neves, 34 anos, professor de inglês e intérprete, é um dos que aderiram à campanha #MeuProfessorRacista. O ímpeto de participar e relatar algumas situações veio, principalmente, do fato de que a sobrinha dele, de 15 anos, também sofreu racismo recentemente na escola em que estudava. O caso chegou à Justiça. “Com isso, dá pra ver que não é algo que acontecia só antigamente, na minha geração, quando se tinha menos informação. Ainda hoje, o racismo dentro das escolas é recorrente”, garante.

Segundo o professor, quem perpetra racismo tende a dizer que a ofensa não passou de brincadeira. “Dizem que é vitimismo, como se aquilo não fosse uma forma de violência grave”, lamenta. Para ele, que já estudou tanto em escolas particulares quanto públicas, não faz diferença. “Ambas estão baseadas em padrões tradicionais que precisam mudar, mas há muita resistência para que essa mudança ocorra”, analisa.
Carlos Vieira/CB/D.A Press

A primeira vez que Guilherme lembra de ter passado por uma situação de racismo foi aos 6 anos. Na época, ele morava em Santa Maria, Rio Grande do Sul. A professora pediu que todas as crianças se sentassem e ficassem em silêncio. Mas dois meninos brancos começaram a brigar e ele foi separar: quem ficou de castigo foi ele. “Existe o estereótipo de que o negro é mais violento, então, esse tipo de coisa acontece muito”, reclama.

O Guilherme de 6 anos não percebeu que estava sendo vítima de racismo, mas foi uma lembrança triste que o acompanhou por toda a vida. Mais velho, percebeu a gravidade daquilo e constatou que outras agressões ocorriam sistematicamente. Algumas vezes, colegas colocaram objetos em seu estojo para que parecesse que ele os roubou. Ele era exposto e humilhado e, quando tinha sorte, alguém admitia “a brincadeira”. Sem falar nas “zoações” em relação ao cabelo.

No Ensino Médio, com vontade de mudar o visual, Guilherme deixou o cabelo crescer. Queria um black power poderoso. Outros adolescentes também tinham cabelo grande, como os que gostavam de heavy metal. Nenhum deles, porém, foi chamado pelo orientador para perguntar se estava “acontecendo alguma coisa”. “Eu já estava esperto em relação à forma diferente como era tratado, então, disse que estava tudo bem e questionei o motivo da preocupação até que ele admitisse: achava que eu estava usando drogas. Só por causa do meu cabelo”, relata.

Guilherme entrou na faculdade justamente quando as discussões a respeito das cotas raciais começaram a fervilhar, em 2002. “Eu me lembro que quem era contra dizia que a qualidade cairia, que a média de desempenho dos estudantes reduziria”, conta. E ele não entrou em qualquer universidade, mas justamente na UnB, a primeira federal a instituir o sistema de cotas, em 2004. Mesmo assim, casos de professores que se referem a negros como “crioulada” e que, segundo Guilherme, ignoram o continente africano como um berço de conhecimento foram e ainda são frequentes. Ele sente falta da efervescência dessa época. “A poeira estava levantada. A questão racial era muito mais discutida. Agora, parece que a poeira abaixou e práticas ruins se cristalizaram. E não se vê nenhum esforço para mostrar que as profecias de quem era contra as cotas não se cumpriram”, aponta.

É relativamente pequena a quantidade de professores negros nas universidades. Atento a esse déficit, o Departamento de Ações Afirmativas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) fez um protesto em novembro do ano passado. Foram espalhados banners pelos campi da cidade com a frase: “Quantos professores negros você tem?”. Além disso, foi divulgada a hashtag #nãoécoincidência. Mesmo na pioneira Universidade de Brasília, essa característica se confirma: menos de 2% dos professores dos quatro campi são negros.
 

Pedras no caminho

Bianca Vasconcellos/Divulgacao

Os negros são 54% da população do Brasil, segundo o IBGE (dados de 2015). O predomínio na composição demográfica, no entanto, não constrange os racistas. A jornalista Luana Ibelli, 28 anos, fez o seguinte relato: “#MeuProfessorRacista disse que meus cabelos não eram adequados para a TV; que, se um dia eu quisesse ser repórter, eles deveriam ser alisados. E que, inclusive, os cabelos cacheados e crespos na TV eram uma proibição nos manuais de jornalismo de todas as grandes emissoras, pois desviam a atenção que deveria ir para a notícia”.

Ela conta que piadas sobre suas características físicas eram frequentes nos tempos de escola. O cabelo era o alvo principal. Os colegas comparavam com palha de aço, e os professores pouco faziam para cessar a zombaria. “Eles (os alunos) passavam a mão na minha cabeça e diziam que “estavam sangrando”. Um ou outro professor retrucava, mas, no geral, não havia ações efetivas para combater as piadas”, relata Luana.

Para ela, a hashtag serve para expôr o problema. “Sempre acredito na importância de levantar o debate. O tipo de coisa que ouvi é falado, pensado e difundido normalmente na sociedade. Agora, rotular o indivíduo de monstro afasta as pessoas do objetivo, que é entender que a sociedade é racista e, portanto, todos nós podemos atuar dentro desse papel — o do racista”, pondera.

A professora Francisca Cordélia Oliveira da Silva, do Instituto de Letras da UnB, diz que o racismo afeta diretamente a segurança emocional das pessoas e muitas carregam o fardo da baixa autoestima logo na educação básica. Para ela, é preciso proporcionar segurança desde o início, criando um espaço para conversar sobre esse assunto. “É preciso que a criança tenha confiança para dizer se está sofrendo racismo pelos colegas da escola ou pelos professores. Para que ela não silencie diante dos fatos”, alerta, Francisca.

Hoje, Luana, por ironia do destino, trabalha como repórter em uma emissora de televisão. Ela disse que a situação relatada pela hashtag #MeuProfessorRacista apenas foi uma entre várias situações que abalaram sua autoimagem. No início da carreira, sentiu muito medo de ser exposta. Porém, sob influência de uma colega de trabalho, passou a refletir sobre a falta de negros nos telejornais brasileiros. “Devo muito da autoestima que tenho hoje às mulheres negras que encontrei ao longo da vida e no meu contexto de trabalho. Elas me ensinaram a ser resiliente e a ocupar os espaços de cabeça erguida”, reconhece.

A professora Francisca Cordélia lamenta que exista racismo justamente no ambiente de ensino. “Os relatos estão colocando isso em evidência. Desde a educação de base até a universidade, o ambiente deveria abrir mentes e contribuir para a formação das pessoas, mas, o que acontece, em certos casos, é o contrário. Revela falta de preparo dos profissionais da educação”, comenta. “O professor de ensino superior tem que entender que a universidade, infelizmente, ainda é um local da elite branca”, afirma.
 

A melhor aluna, sempre só


Kelly Quirino, 36 anos, jornalista e bancária, conta que passou a vida sofrendo racismo dentro e fora da escola, mas só começou a perceber quando já era adulta. “Eu não sabia que era racismo, mas já me machucava. E os professores não intervinham”, conta. Ao 6 anos, as ofensas raciais na escola eram frequentes e uma das coisas mais marcantes era o coro que faziam da música Nega do cabelo duro, do Luiz Caldas. Tudo isso a levara a um isolamento social. Ela era a única negra na escola pública em que estudava, em São Paulo, e tinha apenas um amigo. “Até hoje, isso me dói”, admite.
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Tal situação teve efeito direto na alfabetização de Kelly, que entrou na 1ª série sem saber ler. Não era a única que não estava alfabetizada nem a única negra. Ela, porém, começou a se destacar pela inteligência e passou a ser um pouco mais acolhida. Tornar-se a melhor aluna da turma foi quase um instinto de sobrevivência. “Eu sou uma exceção, porque tive facilidade de aprender. Virei nerd, mas aí ficava isolada. Acredita-se mais no potencial da criança branca. O problema de aprendizado do negro é negligenciado”, opina.

O espaço escolar, para ela, é onde se sofre racismo pela primeira vez. Quase não teve professores negros. Agora, já no doutorado na UnB, conta que um dos desafios da pós-graduação é encontrar professores que estudam a questão racial. “A maioria acha que não é relevante ou nos acusam de estarmos fazendo ativismo e não pesquisa”, conta. Para ela, o espaço educacional é racista, e o sistema de ensino precisa ser repensado, da pré-escola à pós-graduação.
 

Empoderar para superar


Valdene Rocha, 37 anos, professora de história, sempre estudou em escolas públicas e tem orgulho da Ceilândia, onde passou a maior parte da vida e mora até hoje. Ela saiu das carteiras de sala de aula e chegou ao quadro-negro. A mudança de posição social fez com que carregasse consigo a vontade de fazer diferente. Como professora de história, não chama os africanos obrigados a uma diáspora em direção ao Brasil de “escravo”, mas de “pessoas escravizadas”. Também fala muito sobre movimentos de resistência cultural e política, em especial, os quilombos. “Meus alunos saem sabendo que a África não é só estereótipos. Já eu, fui descobrir que o Egito não era branco muito depois”, conta.

Hugo Gonçalves/Esp. CB/D.A Press
Pelo caminho, Valdene encontra muitos profissionais menos alinhados a essas ideias e até mesmo racistas, que reproduzem discursos discriminatórios. Uma de suas maiores críticas é ao fato de que as escolas se limitam a abordar a história afro-brasileira e africana apenas na Semana da Consciência Negra, em novembro. “Mesmo assim, em muito casos, isso é feito de forma estereotipada”, lamenta. Ela percebe que o racismo faz parte do nosso cotidiano escolar até hoje. Nota que, no Ensino Médio, as escolas “embranquecem”.

Quando criança, foram muitos os casos que presenciou e um dos mais marcantes foi quando tinha 8 anos. Uma outra menina, que se destacava por ter o tom de pele bem preto e ser muito pobre, muitas vezes, ia à escola sem material. A professora lhe arrumava lápis e papel, mas não sem antes lhe dar uma bronca. Um dia, ela se recusou a ceder material para ela e proibiu todos os colegas de emprestarem. A menina chorava.

Quando a professora saiu da sala, Valdene decidiu ajudar a colega. “Nisso, a professora chegou e disse que todos podiam ir embora menos eu. Me levou para a direção e, no caminho, disse que iam fechar a escola e que eu ia ficar lá sozinha. Fiquei lá na direção depois do término da aula até minha mãe chegar, sem nenhum motivo”, relata. A mesma professora obrigou Valdene a trocar de lugar — disse que ela teria de ficar no fundo da sala porque se sentava “com as pernas abertas”.

Anos depois, uma professora de português de quem Valdene gostava muito duvidou que ela fosse autora de um poema, porque estava “bom demais”. “Passei a noite toda escrevendo, descrevendo a noite. Ficou muito bom, me superei. Pensei: tenho que fazer algo muito bom, afinal ela merecia”, relata. A professora lhe deu uma nota baixa. Ela era uma excelente aluna, mas não recebia o devido reconhecimento. “Essas histórias todas serviram para eu decidir o tipo de professora que eu seria”, afirma.

Em sua tentativa de criar consciência nas crianças e adolescentes a quem dá aula, ela montou um salão de beleza com as meninas. “A ideia era trabalhar a autoestima de todas elas, mas, principalmente, das negras. Mostrar a elas que são bonitas e valorizar a estética negra”, conta. Valdene tem certeza de que só de estar ali, em sala de aula, com seu cabelo natural, já empodera as alunas. “O problema é que são poucos professores e professoras negros.”
 

Professora reclama do cheiro da aluna

Facebook/Reprodução
No ano passado, nos Estados Unidos, uma mãe recebeu um bilhete assinado pela professora de sua filha: “Eu entendo a necessidade do uso de óleo de coco no cabelo de Amia, mas, por favor, não use tanto assim. As crianças estão reclamando que o cabelo dela fede. Se você tem que usar isso diariamente, por favor, faça-o suavemente, para que as crianças não a provoquem”.
A mãe de Amia, de 6 anos, não ficou nada feliz com o recado e expôs a situação nas redes sociais. A criança supostamente estava sofrendo bullying e, para ela, eram as outras crianças que precisavam mudar o comportamento e receber bilhetes. Além disso, a reclamação tinha forte cunho racista. Posteriormente, a mãe ainda descobriu que as crianças nunca se incomodaram com o cheiro do cabelo da menina. Quem não gostava era a própria professora.

Cabelos lisos para o Natal

Para uma comemoração de Natal, uma professora de uma escola da cidade de São Paulo mandou um comunicado para os familiares das crianças de quatro anos de idade, pedindo que fossem de “cabelos liso e soltos” para a apresentação que aconteceria. O caso ocorreu em dezembro de 2015 e causou revolta nas redes sociais. O bilhete dizia: “Para que a nossa apresentação fique ainda mais bonita, conto com sua colaboração, enviando o seu(sua) filho(a) no dia da nossa apresentação de natal 03/12 com o seguinte penteado”. Uma imagem de uma atriz mirim foi colocada como exemplo. O colégio postou uma nota de esclarecimento, classificando a atitude como “equivocada”.

“Corte ou trance os cabelos dos meninos”

Facebook/Reprodução
 
No Rio de Janeiro, a mãe Débora Figueiredo também recebeu um recado racista da professora de seus filhos gêmeos. A mensagem dizia: “Olá! Mamãe Débora, peço-lhe, se possível, aparar ou trançar o cabelinho dos meninos. Eles são lindos, mas eu ficaria mais feliz com os cabelos deles mais baixos ou presos. Beijos, Fran”. Débora resolveu expor a situação nas redes sociais. Depois da repercussão do caso, Débora foi procurada pela diretora, que negou haver racismo no conteúdo do bilhete e disse que a orientação foi dada só porque a escola estava passando por um surto de piolho. Tal fato, porém, não foi explicitado na mensagem da professora.

Em plena Universidade de Brasília

Em 2006, durante uma aula de teoria e política moderna do programa de pós-graduação em ciência política da Universidade de Brasília (UnB), um professor do Instituto de Ciência Política pronunciou a expressão “crioulada”. A palavra foi usada quando ele explicava as políticas assistencialistas implantadas para os negros nos Estados Unidos durante a década de 1960. A observação gerou uma discussão entre o professor e alguns alunos, que decidiram relatar o caso ao reitor da universidade. O docente se defendeu, dizendo que fez o uso da palavra para chamar a turma à reflexão. Uma gravação da aula circulou pela Internet e contém o instante em que ele chama um estudante de “racista negro” e “Ku-Klux-Klan às avessas”. O referido professor foi condenado administrativamente a 30 dias de suspensão, mas a pena foi convertida no pagamento de multa de 50% do seu salário. 
 
 
 
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Laura
Laura - 01 de Maio às 18:04
Até quando irão usar ocorrências pontuais para tentar nos empurrar essa estória de racismo nas escolas? Sou professora, negra, 12 anos de magistério e já presenciei casos de injúria racial que na maioria das vezes se resume a piadas de mal gosto entre colegas professores. Quando é que vocês irão aprender que o problema da nossa sociendade não está na cor da pele mas no bolso? A maior discriminação sofrida pelo brasileiro se refere à sua condição social. Pobre branco e pobre negro são discriminados igualmente. Parem de fomentar esse "ódio racial" entre as pessoas! Os brasileiros brancos e pretos, homens e mulheres, gays e héteros, nordestino e sulista precisam se unir para construir um pais melhor e não é com mentiras que isso irá acontecer.