SAÚDE EMOCIONAL

Conheça projetos escolares que estimulam emoções e empatia nas crianças

Projeto em escolas de todo o país discute as emoções das crianças, além de estimulá-las a pensar nos sentimentos alheios e a ter empatia pelo outro. Em Brasília, a regional de ensino de Sobradinho compartilha uma experiência de sucesso

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postado em 08/05/2017 17:17 / atualizado em 08/05/2017 17:58

A escola não é apenas o lugar onde se aprendem as operações matemáticas e o abecedário. É também um espaço para o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais. Essa é a filosofia da Associação pela Saúde Emocional de Crianças (Asec), em São Paulo, que desenvolve um projeto voltado para pais, professores e para os pequenos. O Amigos do Zippy, como é chamado, consiste em dinâmicas, dramatizações e contação de histórias. A proposta, iniciada em SP, hoje é aplicada com sucesso em vários locais do país, inclusive no DF.


O projeto começou em 2016 no âmbito da Coordenação Regional de Ensino de Sobradinho (DF) e com recursos do Future First, programa educacional do banco HSBC. A ideia de Tânia Paris, fundadora da Asec, é capacitar professores para que estes possam levar o método aos alunos. Durante seis meses, 333 crianças, de oito escolas da região administrativa, participaram de atividades para aprender a reconhecer e a lidar com sentimentos, aumentar a autoestima e desenvolver o conceito de empatia. “É comum, quando uma pessoa está com raiva, ter uma reação instintiva e depois se arrepender. Isso é um clássico da falta de habilidade emocional”, exemplifica Tânia. “A raiva dói. Você é capaz de xingar e de bater porque está doendo. Mas tranquilizar-se é algo que se ensina e se pratica. Isso pode ser incorporado pela criança”, garante.
ASEC/Divulgação
 
 
As habilidades socioemocionais valem para qualquer emoção. Quando a garotada as incorpora, desenvolve o autocontrole. “Quando falamos em habilidade emocional, estamos falando de perceber o sentimento, de saber nomeá-lo e de encontrar maneiras de se sentir melhor”, resume Tânia. Após aprender o beabá dos sentimentos, os pequenos identificam os graus de intensidade que eles podem ter. “Eles começam a perceber as reações físicas. Na aula sobre nervosismo, por exemplo, os pequenos notam quais as partes do corpo se alteram quando alguém está nesse estado.”

Olhar para si e para o outro


Dividido em seis módulos — com quatro aulas, de uma hora cada —, o projeto gira em torno das histórias do inseto Zippy, um bicho-pau. O personagem e um grupo de crianças vivem aventuras que têm, como mote, assuntos sérios, como amizade, bullying, família, solidão e perdas.

Para ensinar esses conceitos, uma vez por semana, durante um semestre, os professores promovem dinâmicas e contam histórias. A ideia não é apenas melhorar o ambiente de sala de aula, mas preparar as crianças para as dificuldades da vida. “Na conversa sobre o bullying, por exemplo, os alunos vibram quando descobrem sozinhos que o agressor precisa de ajuda, que ele só faz bullying porque não sabe lidar com seus sentimentos de outra maneira”, exemplifica a idealizadora do projeto.

A partir da percepção de si mesmos, os alunos começam a criar empatia pelos colegas. Entre os resultados mais palpáveis, pais e professores notam melhora do desempenho escolar e a redução do número de faltas. De modo geral, as crianças se sentem mais seguras, valorizadas e genuinamente interessadas nos conteúdos apresentados.

Resultados positivos

ASEC/Divulgação
Antes de o projeto começar, os membros da Asec aplicaram uma pesquisa para mapear os sentimentos que os alunos, de 6 anos de idade, manifestavam em relação aos colegas, à escola e aos professores. Os resultados iniciais não foram muito animadores: a maioria afirmou que nunca, ou quase nunca, confiava no professor. Após a iniciativa, todos mudaram de opinião. Participaram da segunda pesquisa, feita ao fim do programa, 17 professores e orientadores, além de 131 pais e/ou responsáveis.

Após as atividades, mais de 90% dos alunos passaram a gostar de frequentar a escola, de acordo com a percepção dos professores, e 75% desenvolveram novos comportamentos que melhoraram a convivência em grupo, como autocontrole e habilidade de superar perdas. A leitura geral melhorou, bem como as práticas de habilidades emocionais e sociais, que transformaram a sala de aula em um local “agradável e acolhedor”. Os professores também aprenderam coisas novas. Segundo a pesquisa, a capacitação dos educadores se refletiu em atitudes positivas, como o respeito às dificuldades e às opiniões de cada aluno.

Maria Lúcia Ferreira da Silva Viveiros, 51 anos, foi uma das professoras de Sobradinho que participaram do projeto. Ela conta que, após o treinamento, os docentes passaram por uma formação inicial e, no decorrer do curso, tiveram encontros de capacitação com orientadores da Asec. “À medida que a gente aplicava o programa, havia muito diálogo e reflexão de ações”, detalha. “Crianças de 6 anos são ainda muito egoístas, centralizadoras. Com o programa, conseguíamos fazer com que elas se importassem com os outros, com o respeito.”

A professora destaca ainda que a noção de empatia acabou com as agressões físicas e verbais, comuns nessa faixa etária. “Eles começaram a notar que isso faz mal e que também não querem ser tratados assim”, completa Maria Lúcia. As famílias não ficaram de fora. Por ser uma metodologia nova até para os próprios professores, Maria Lúcia explica que os pais e responsáveis pelas crianças estiveram presentes desde o início do projeto. “Os depoimentos dos pais foram de que os filhos demonstraram mais respeito em casa com os irmãos, ficaram mais falantes e começaram a emitir as próprias opiniões e pensamentos”, descreve.

Segundo Maria Lúcia, o projeto fortalece o trabalho pedagógico, complementando a atuação do professor. “Vale tanto para alunos quanto para os profissionais, porque é uma nova visão de como refletir sobre as próprias ações”, avalia a docente. Para ela, o programa também a ajudou a entender melhor as vivências das crianças. Alunos em situações problemáticas, por exemplo, passaram a ser ouvidos com mais cuidado e empatia. “A questão da saúde emocional está presente durante a vida toda. É uma forma de aprender a tocá-la.”
 
ASEC/Divulgação
 

Conversar sobre sentimentos


Falar sobre o que se está sentindo é complicado, mas há formas de facilitar o contato e saber o que se passa na cabeça e no coração das crianças:

  • Mostre-se disponível, mas não obrigue: perguntas como “Você gostaria de me contar o que está acontecendo?” podem ser mais interessantes do que “Me conte agora o que aconteceu”.
  • Mostre-se interessado nas emoções dele(a): falar sobre sentimentos antes de revelar a situação que está incomodando pode aliviar o desconforto. Depois, é possível que fique menos doloroso para a criança ou adolescente contar o que está acontecendo. Por isso, pergunte sempre: “Como você está se sentindo?”.
  • Respeite o tempo dele(a). Sinalizar para a outra pessoa que, se não quiser falar agora, ela poderá fazer isso em outro momento, pode ser uma boa estratégia. Algumas vezes, os pais têm certeza de que os filhos sabem que podem contar com eles, mas se esquecem de deixar isso claro.
  • Procure não julgar. Ouvir os filhos sem dizer “Você não deveria ter feito isso”, “Por que você não me disse antes?” ou “Você está errado” pode ser um grande desafio. Tente trocar essas afirmações por perguntas como: “Você acha que essa solução foi a melhor?” ou ainda: “Será que existem outras formas de resolver o problema?”.


Fonte: Associação pela Saúde Emocional de Crianças (Asec)

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