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Artistas ganham visibilidade em lojas colaborativas espalhadas pela cidade

Uma volta pelas lojas colaborativas de Brasília e é possível conhecer o trabalho de diversos artistas. Os espaços coletivos de vendas são uma forma de viabilizar a produção de gente talentosa que não quer, ou não pode, abrir loja própria. Ganha o consumidor com opções tão diferentes de produtos

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postado em 21/05/2017 08:00 / atualizado em 20/05/2017 22:25

Bárbara Cabral/Esp.CB/D.A. Press
 

Com o país em crise, todos os setores da economia precisaram se readaptar para permanecer no mercado. Um que está em pleno crescimento é o da economia criativa. Profissionais têm se unido para dar visibilidade às próprias produções. É o momento de juntar forças, recursos, ideias e cooperar. Diante desse cenário, as lojas tradicionais de Brasília ganharam novos concorrentes: os espaços colaborativos. Uma solução mais barata e que visa o crescimento de todos os profissionais envolvidos.



A lojista e empresária Gracilene Paulino abandonou, depois de 10 anos, o comércio tradicional e decidiu investir nesse novo formato de empreendimento. Ela acredita que esse é um momento de maior consciência, e que a mudança está ocorrendo gradualmente. “A forma de pensamento de comércio está mudando. Hoje, as pessoas estão mais informadas e escolhem de maneira mais exigente o lugar onde vão comprar”, acrescenta.

A designer Lili Brasil também percebeu as vantagens da colaboração entre criadores e, junto com duas amigas, inaugurou uma loja coletiva. As sócias acreditam terem feito a escolha certa. Elas frisam que existem várias experiências em grupo em diversas áreas e não veem motivos de o comércio também não se unir em prol do benefício de todos. “A ideia é ótima. Imagina se os 60 expositores que temos na nossa loja abrissem os espaços próprios? Será que isso se sustentaria?”, questiona-se.

 

Nós — Mercado Criativo


Se você foi ao shopping Iguatemi recentemente, deve ter percebido a existência dessa loja colaborativa. Por ter uma proposta completamente diferente de todas as outras do lugar, ela se destaca e desperta curiosidade de quem passa. Basta um olhar para perceber a quantidade de produtos diferentes, disponíveis na Nós. Mas, para conhecer o espaço, é preciso tempo livre. Para a maioria dos consumidores, os artigos expostos ali são novidades. Dentro desse chamado mercado criativo, estão distribuídos os trabalhos de designers e artesãos do Brasil inteiro.

Os paletes de madeira são o elemento dominante do espaço. Além de decorativos e charmosos, funcionam como vitrines para as 70 marcas autorais que compartilham esse mesmo ponto comercial. Três amigas estão à frente do empreendimento. Lili Brasil, 31 anos, e Lúbia Duca, 32, foram as responsáveis pela ideia. Elas são designers e sentiam falta de um ponto fixo para comercializar os produtos. “Nas minhas viagens a São Paulo, percebia que existiam várias lojas colaborativas e, em Brasília, só tinha uma.” Diante da oportunidade, convidaram a amiga, designer de turbantes, Pati Jacome, 46, para fazer parte do projeto e inauguraram a Nós.

Bárbara Cabral/Esp.CB/D.A. Press
Receosas, fizeram pesquisas para saber o melhor ponto. Após analisarem bem, optaram por inaugurá-la na Quadra 315 da Asa Norte. Lili conta que, mesmo assim, tiveram medo, pois, além de nunca terem tido uma loja, sabiam que estavam investindo em um segmento novo. “A gente sabia que o modelo colaborativo era o mais seguro. Decidimos por ele porque queríamos um projeto que se pagaria, mesmo sem clientes”, ressalta. Isso porque os expositores pagam uma taxa de aluguel do espaço, além de repassarem uma porcentagem das vendas para as empresárias.

Para surpresa das amigas, a loja foi bem recebida e cresceu rapidamente. Em um ano, elas passaram de 16 para 70 marcas e, há cinco meses, se mudaram para o shopping do Lago Norte. Durante o processo de criação e solidificação da marca, elas definiram alguns objetivos. Ter uma loja de segmentos mistos era um deles e, por isso, convidaram marcas de produtos variados para expor no espaço desde o início.

Outro fator decisivo para Lili, Lúbia e Pati era o senso de coletividade. “Por sermos designers, sabíamos o que as marcas passavam em outros lugares. Em algumas lojas, você aluga o espaço e pronto. Não existe compromisso com os criadores”, defende. A Nós acredita que o investimento no relacionamento é essencial para uma experiência realmente coletiva.

“No começo, aceitávamos produtos de revenda, mas depois seguimos o caminho dos produtos autorais. Isso é um requesito que a gente não abre mão”, conclui Lili. A curadoria, aliás, é um processo levado muito a sério. Elas fazem entrevistas, conhecem os produtos e evitam a repetição em excesso de um determinado segmento. Toda essa exigência se justifica por um cuidado de não parecer apenas uma loja de artesanato em meio a lojas luxuosas. “Queremos mostrar que em Brasília se produz design e que estamos mudando a cara da cidade”, argumenta.

De acordo com as empresárias, os clientes costumam fazer visitas prolongadas ao lugar e olham cada caixinha com o mesmo interesse. Realmente, é difícil não passar pelo menos 15 minutos no interior da loja, afinal são muitos produtos diferentes concentrados em um só espaço. A originalidade dos itens de papelaria, quadros, roupas para bebês e terrários — entre tantos outros produtos — é surpreendente e justifica o processo de curadoria detalhista que as proprietárias defendem.

 

Verde Manga

Formada em comunicação e moda, Gracilene Paulino, 33 anos, decidiu — há 10 anos — atuar como empresária na área e inaugurou a loja Verde Manga, no Sudoeste. Era um espaço comercial como tantos outros da cidade e, com o passar do tempo, isso começou a incomodá-la. “Vendíamos produtos industrializados que comprávamos em São Paulo, até que a minha mentalidade mudou”, conta. Gracilene percebeu que, para sobreviver, seria preciso adotar o padrão de consumo da economia local que a sociedade valoriza.

A partir dessa inquietação, ela fechou as portas do espaço no Sudoeste e se dedicou a imaginar um novo caminho. A ideia surgiu depois de um evento criado em parceria com o Limonada Project, um evento cultural de Brasília que defende o consumo consciente e a sustentabilidade.

Gracilene decidiu, então, investir em um formato completamente diferente do que estava acostumada: uma loja colaborativa e Pop Up (loja provisória) em shoppings da cidade. “Selecionamos apenas produtos feitos por mulheres da cidade. Sentia falta de uma maior conscientização da cultura de compra”. O slogan escolhido para a nova loja diz muito sobre a nova fase da Verde Manga: “Simples, manual e afetivo”.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

O ambiente do lugar é acolhedor, moderno e minimalista. As paredes pintadas com a cor que dá nome à loja chamam a atenção. Nas araras e estantes com design diferenciado, é possível encontrar uma grande variedade de produtos. Plantas, roupas sem gênero, objetos autorais para para decoração, cosméticos e joias são alguns exemplos. Os preços atendem a todos os orçamentos, o produto mais barato custa R$ 4,50 e o mais caro, R$ 520. A delicadeza das bijuterias com bordado em ponto cruz e as joias em prata com pedras naturais mostram que a escolha das peças é minuciosa. “As marcas que estão aqui têm um diferencial. Além de vender, queremos inspirar e promover algo que vá fazer sentido na vida das pessoas”, explica Gracilene.

Para satisfazer o desejo de promover uma mudança e aumentar a conscientização da cultura de compra, a empresária aproveitou o espaço para realizar eventos que transmitissem a nova identidade da marca. Na lista, incluem-se palestras sobre o feminino; exposição de fotos de modelos nuas e oficinas para fazer cosméticos naturais, nas quais se aprender a tingir tecidos com cores naturais e a reinventar móveis antigos.

A próxima edição da Pop Up está prevista para o mês de julho. Até lá, as compras poderão, em breve, ser feitas pelo e-commerce da marca.

 

 

A Lojinha da Virada Verde


Luiza Rezende, 29 anos, e Lucy Aguirre, 32, se conheceram há mais de 10 anos por meio de uma amiga em comum. Ao longo do tempo, fizeram muitas coisas juntas, como viagens, mas queriam estender a parceria para os negócios. A profissional de marketing e a artista plástica sempre tiveram planos de abrir um empreendimento e afirmam com o orgulho que a loja colaborativa, localizada no Sudoeste, é a concretização de um sonho.

A história da Lojinha começou nas ruas de Brasília, no formato de uma feira, chamada Virada Verde, realizada ao ar livre, com vários expositores. “O evento surgiu da necessidade que Lucy via de criar uma maneira mais acessível para os criadores de produtos autorais divulgarem o próprio trabalho”, conta Luiza. Após quatro edições da mostra, elas receberam a proposta de alugar um espaço fixo na Asa Norte durante o período de um mês e tiveram um retorno positivo. “Percebemos uma demanda local, e os clientes e expositores queriam que aquilo continuasse”, destaca o amigo e parceiro Filipe Soares. Foi quando Luiza e Lucy decidiram investir em um novo modelo e transformar a feira em uma loja.

Para a nova fase da marca, optaram pelo Setor Sudoeste, e a artista plástica justifica a escolha: “Em Brasília, já existiam outras lojas colaborativas, mas no Sudoeste ainda não tinha nada parecido. Outro fator importante é a proximidade das áreas verdes”, explica. Nos fins de semana, os jardins das proximidades são aproveitado pelas empresárias. Elas promovem feiras com produtos orgânicos, palestras, oficinas e bate-papos. “A gente gosta de oferecer não só os produtos, mas também a experiência. A loja virou um ponto de convivência. Temos clientes que vêm todos os sábados passar a manhã com a gente”, complementa Luiza.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 

As sócias defendem que o fato de os custos serem compartilhados viabiliza a participação de pequenos artistas no projeto, porém, ressaltam que a colaboração deve ir além do espaço físico. “A gente tenta manter os expositores ativos e incentiva as marcas a se conhecerem para trocarem experiências”, conta Luiza. Como resultado do contato entre os expositores, já foram criados produtos de parcerias entre artistas da loja. Recentemente, as amigas comemoraram o primeiro ano de funcionamento do empreendimento, e Lucy considera que o crescimento foi rápido e a demanda tem aumentado.

Atualmente, 30 marcas e designers expõem suas peças na Lojinha da Virada Verde e curadoria exige que os produtos sejam autorais ou sustentáveis para participarem. A decoração charmosa é feita com paletes de madeira, mas os produtos atuais e descolados são o destaque do espaço. Luminárias, quadros, bonecas de pano, aplicações de tecido para roupas e sapatos são apenas alguns exemplos do que se pode encontrar na simpática lojinha.

 

MakerSpace


Se você é um consumidor, essa indicação provavelmente não atenderá a suas necessidades. Porém, se você é um designer ou apenas uma pessoa curiosa, o conceito desse espaço colaborativo lhe surpreenderá. Criado pela casa Thomas Jefferson e apoiado pelo Departamento de Estado Americano, o Maker Space é aberto para a comunidade e visa incentivar a prática do “faça você mesmo” (do inglês, do it yourself). A proposta é oferecer aos artistas locais ferramentas para otimizar suas produções e melhorar o acabamento das peças. O resultado é bom para quem faz e para quem compra.

Minervino Junior/CB/D.A Press
A atmosfera ali é criativa e futurista. Ilustra as potencialidades do mercado moderno e colaborativo. O espaço conta com impressoras 3D, máquina de corte a laser e de costura, computadores equipados com programas para edição e rede wi-fi. Para utilizar as máquinas, é cobrado um valor específico para cada equipamento, de acordo com o tempo de uso. Porém, antes de começar a criar, é preciso passar por um treinamento gratuito, para aprender a manusear o maquinário.

“O ambiente é amplo e possibilita uma troca de experiências. Uma das vantagens é que todos contribuem com o aprendizado coletivo. Quem sabe um pouco mais divide o que sabe com os demais. Assim, a rede de conhecimento só aumenta”, afirma Sora Lacerda, uma das coordenadoras do projeto.

Jéssica de Figueiredo, 28 anos, é uma designer de acessórios e, há seis meses, passou a produzir seus produtos no MakerSpace. Com a ajuda do corte a laser, otimizou a produção e os acabamentos, que antes eram feitos à mão. Com auxílio do estilete, ficaram mais precisos e padronizados. Antes de começar a usar a máquina, Jéssica demorava horas para cortar as peças, mas, com o equipamento profissional, as horas se transformam em minutos. “Não conseguiria ter uma máquina dessas em casa. Além do valor, ela ocupa um espaço maior do que o que eu tenho disponível”, esclarece. Realmente, o aumento de produção da Jéssica é perceptível. De cinco peças por semana, ela passou a produzir de 20 a 30 acessórios.

Sem dúvidas, o equipamento que mais chama a atenção é a impressora 3D. Para utilizá-la, basta pagar R$ 30 por hora. E aí é só deixar a imaginação se transformar em realizada. Ali, é possível criar brinquedos, acessórios e objetos de decoração. Outra vantagem da impressão 3D é a sustentabilidade: o material utilizado para imprimir os objetos é o PLA — plástico feito com composto de amido de milho —, uma matéria-prima leve, biodegradável e que não causa alergias. 

 


* Estagiário sob a supervisão de Flávia Duarte

 

Leia a matéria completa na edição 627 da Revista do Correio

 

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