COMPORTAMENTO

Em rede social, youtuber fala com sinceridade sobre transtornos alimentares

Mirian Bottan sofre de transtornos alimentares desde a adolescência. Em recuperação, fez um perfil no Instagram para falar do problema, ajudar a outros pacientes e a si mesma

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 01/06/2017 14:47 / atualizado em 01/06/2017 15:33

Reprodução/Instagram
A paulista Mirian Bottan, 30, apresentadora de programas no YouTube, nunca foi considerada gorda por ninguém. Isso, porém, não evitou que ela se sentisse insatisfeita com o próprio corpo. Há 16 anos, ela luta contra doenças que faziam com que tivesse um péssimo relacionamento com a comida e com a forma física. Aos 13 anos, descobriu que poderia distrair suas tensões comendo, o que lhe fez passar de 44kg para 46kg. Foi quando leu uma matéria sobre um menino bulímico, que quase morreu vomitando para emagrecer. Apesar da triste história, tudo que ela absorveu foi que poderia vomitar o que ingeria e, portanto, perder peso. E assim começou o que ela chama de “inferno”.


Em tratamento há 15 anos, agora ela fala a respeito do delicado assunto em um perfil no Instagram. Foi uma forma que encontrou, há um ano, de ajudar a si mesma e a outros. São quase 65 mil seguidores de sua conta, muitos com transtornos alimentares como ela. Eles enviam mensagens e compartilham experiências. Mirian responde a cada uma e consegue, por meio delas, ter um panorama melhor de como as pessoas acabam adoecendo. “A indústria da moda e a imprensa são muito cruéis com as mulheres. Hoje, vejo como a máquina da perfeição atua, nos prende e nos engana”, opina.

A moça sempre gostou de escrever e seus textos tocam muita gente. Chegou a cursar jornalismo, mas abandonou. A habilidade somada a sua experiência, além de boas fontes, transformaram seu perfil virtual em um sucesso. Ela vai na contramão dos vários perfis de mulheres com os corpos considerados “perfeitos”, que tentam incentivar as outras a comerem de forma restrita e a malharem com elas.

Ao contrário, Mirian mostra a verdade nua e crua dos transtornos alimentares e desmistifica a perfeição do corpo. Ela coloca fotos de si mesma, corcunda, destacando as dobras na barriga. Em seguida, posta imagens feitas no mesmo momento, mas dessa vez com a coluna ereta. A aparência é de que ela está muito mais magra. O objetivo é, justamente, mostrar que há truques para parecer melhor na foto. Dessa forma, quer que as meninas entendam que o que elas veem nas redes socais nem sempre é o que parece.

Longo caminho


Apesar de o tema ser encarado de forma menos espinhosa, Mirian não se considera curada da bulimia, mas tem certeza de que está na direção correta. O processo é lento e passa por recaídas. Sua última foi no fim do ano passado. Ela aprendeu, porém, que isso faz parte e que precisa ser visto como uma vitória: é um sucesso conseguir espaçar os episódios bulímicos. “Se a gente não entende isso, fica mais difícil levantarmos e continuarmos tentando. A gente acaba se sentindo mal e entra no mesmo ciclo vicioso.”

Atualmente, ela não restringe a própria alimentação. Se a convidarem para comer um hambúrguer, ou tomar uma cerveja, ela vai. Antes, só ia se pudesse vomitar depois. Agora, Mirian come de forma saudável não por causa do corpo, mas em benefício da mente. “Aprendi a me alimentar bem para evitar ansiedade. Descobri a importância disso para o cérebro. Como bem, pensando na performance mental.”

 

Reprodução/Instagram
 

“Vida dupla”


Em São Paulo, morando com o namorado, com quem está há cinco anos, a youtuber conta que tinha uma vida dupla. “Percebi que estava vivendo a mesma situação de quando morava com meus pais, que tinha que esconder as coisas”, relembra. Minha mãe percebeu meu problema principalmente por causa do cheiro do banheiro. Com meu namorado, eu tinha que comprar as coisas que tinha comido para que ele não percebesse. “Eu comia tudo o que tinha.”

A compulsão a levou a exagerar no álcool. “Comecei tomando uma taça de vinho só para relaxar. De repente, estava bebendo um shot de vodca para sair na rua.” Só notou que isso estava errado quando acordou, em um dia de semana, com muita ressaca e tremendo: precisava de uma intervenção.

Para emagrecer, ela chegou a extremos, como comer muito além da conta e vomitar tudo em seguida ou mesmo deixar de comer completamente. De tanto priorizar o formato do corpo, ficou doente, física e psicologicamente. O vômito após refeições estava aliado à compulsão alimentar. “Como sabia que ia colocar tudo para fora depois, eu me entupia de comida e de líquido.”

Depois de muito tratamento, com terapeuta, nutricionista, achou que estivesse curada. Não vomitava mais, se alimentava bem e fazia exercícios. O corpo parecia saudável. Estava enganada. “Cheguei a comer oito colheres de arroz por dia”, conta. Para quem deixava de se alimentar, ela estava ótima. Foi quando o cérebro exagerou mais uma vez e Mirian passou a se recusar a comer qualquer coisa que estivesse fora da dieta. Um quadro de ortorexia se instalou, doença definida como fixação por alimentos saudáveis.

Ela percebeu que ainda estava doente na Patagônia, em uma viagem com o namorado. Mirian notou que, embora o corpo estivesse bonito e saudável (o percentual de gordura dela era de 15%), a mente mantinha-se adoecida. “Entrei em um café e lá só tinha sanduíche de pão branco. Fiquei em desespero. Eu chorava”, conta. Segundo ela, a insegurança era tão grande, que, se via uma mulher com o corpo bonito, ficava observando se o namorado olharia para a pessoa ou não.

A melhora da ortorexia veio quando começou a se envolver com outros projetos, outros trabalhos. “Vi que estava melhor quando eu comecei a deixar de ir à academia porque tinha outra coisa que queria fazer: escrever um texto, editar um vídeo.” Para ela, a terapia foi indispensável. Nesse processo, aprende-se a ter autocompaixão, a não colocar prazo no tratamento e a não entrar na “espiral do autojulgamento”.

Mirian entendeu também que uma das razões da fixação pelo corpo “perfeito” era a necessidade de sentir que tinha controle sobre algo. “Quando não controlamos o que está acontecendo, a coisa mais fácil de comandar é o corpo: É só fechar a boca.”
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.