BELEZA

Como ensinar as crianças a cuidar, e a amar, os seus cabelos cacheados

Cuidar dos fios encaracolados das crianças exige cuidados especiais, mas, sobretudo, é uma ótima oportunidade de ajudar os pequenos a ter orgulho do cabelo

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postado em 15/06/2017 16:12 / atualizado em 15/06/2017 17:01

Falar sobre os fios cacheados é, muitas vezes, falar sobre aceitação. No mundo dos adultos, fugir da “realidade capilar” e seguir a ditadura dos lisos ainda é algo corriqueiro, mas, quando o assunto chega aos pequenos, é preciso empoderá-los desde cedo e mostrar que o cabelo representa mais do que pequenos fios juntos à cabeça — é uma forma de exaltar a personalidade de cada um.


Leticya Andrade/Divulgacao
Algumas mamães começam esse processo desde cedo. Para Letícya Andrade, 27 anos, a chegada do pequeno Heitor Romualdo, 3, veio acompanhada do desafio de aceitar a si mesma para que o filho se sentisse bem com o seu tipo de cabelo. “Desde quando nasceu, ele tinha cabelo enrolado. Minha maior preocupação sempre foi exaltar a autoestima dele para que não acontecesse com ele o que ocorreu comigo. Só fui me reconhecer crespa aos 25 anos”, confessa.

A professora conta que cortou o cabelo curto durante o processo de transição capilar — na qual o cabelo fica livre de qualquer tipo de química ou apliques — para que Heitor pudesse ver como o cabelo dele poderia ser bonito igual ao da mãe.

Heitor tem a cabeleira crespa e nunca cortou nenhuma pontinha. “Ele não gosta e eu respeito a vontade dele”, garante Letícya. Os cuidados com o cabelo do menino são feitos em casa, com o low poo — pouco xampu, em livre tradução. A técnica visa diminuir o uso do produto, mas, principalmente, substituir o xampu comum por um sem sulfato, o que garante limpeza e hidratação adequadas para os fios.

“Uso no cabelo dele produtos livres de sulfato, óleo mineral, parabenos e derivados do petróleo. Não costumo optar por produtos infantis porque acho que eles não fazem tanto efeito. Usamos as mesmas coisas”, afirma a mãe. O pequeno dorme com fronha de cetim para evitar o frizz e só usa o xampu a cada 15 dias. “As mães precisam se conscientizar mais da necessidade das crianças se aceitarem e se sentirem bem”, afirma Letícya.

Para a personal stylist infantil Natacha Serra, os cachos ganham cada vez mais espaço por trazerem essa questão da personalidade. “Depois de anos escondidinhos, os cachos estão em alta. É importantíssimo exaltá-los com personalidade, naturalidade e elegância, assim como qualquer outro requisito que gostaríamos de ressaltar em nosso corpo.” A profissional acredita que os cachos são um diferencial bastante positivo, que podem trazer brilho. “É a chamada beleza natural”, completa.

Abaixo o preconceito

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press
 
Quem também influenciou a aceitação da filha desde pequena foi a professora Mônica Felix, 36. “Chamávamos os cabelos dela de pipoquinhas, e ela sempre adorou. Faço questão que ela se ame como é”, garante a mãe. Mônica, que sempre usou o cabelo com um estilo mais cheio e solto, procurou salões especializados para que Bruna, 10, tivesse todo o suporte necessário. “Minha pequena gosta do cabelo bem volumoso e já sofreu preconceito por isso. Uma vez, recebi um bilhete da escola pedindo que eu os cortasse ou a mandasse de cabelo preso.”

Apesar disso, Bruna, segundo a mãe, tem muita força e personalidade para manter os cabelos do jeito que se sente bem. “Quando reclamam, ela vai com ele mais alto ainda para mostrar quem ela é.” A menina foi ensinada, desde cedo, a cuidar dos próprios fios. Hoje, hidrata e penteia a cabeleira sozinha ou com o auxílio da mãe. “Para mim, é importante mostrar para todo mundo o meu cabelo e o tanto que ele é lindo”, afirma Bruna.

Especialista em cachos, a cabeleireira Adriana dos Santos acredita que o preconceito com os cabelos, às vezes mascarado, pode prejudicar a aceitação da criança. “A primeira coisa para que ela assuma o cabelo é os pais também aceitarem o fio, que precisa de um cuidado diferente. Não tem que abaixar nem cortar. Pedimos para que os pais entendam que a criança pode se assumir e buscar tratamentos ideais.” Para a profissional, o contato com um salão especializado pode tirar dúvidas e ensinar tanto aos adultos, quanto aos filhos.

A questão dos cabelos crespos não está limitada apenas à aceitação. São diversos os cuidados que precisam ser levados em consideração. Adriana recomenda a lavagem diária dos cachos com xampus e condicionadores oleosos, sem sódio e à base de óleos vegetais. “É importante finalizar o processo de lavagem com uma máscara de hidratação. Esse tipo de cabelo, apesar de não parecer, é bastante fino, e temos que evitar que a criança sinta dor”, ressalta. Os pais podem desembaraçar o cabelo dos pequenos ainda no banho, com a ajuda dos dedos. Após esse processo, a aplicação do creme, mecha a mecha, e o uso de um reparador de pontas podem garantir ainda mais hidratação.
 

Faça a coisa certa

Como cuidar dos cabelos também faz parte do desenvolvimento da criança, é preciso estar atento a alguns detalhes.
  • Evite abusar da alta temperatura — banhos quentes e calor em excesso podem ressecar os fios ou causar descamação do couro cabeludo.
  • Leve as crianças para cortar o cabelo no salão — além de mais preparado, um especialista pode definir qual é o melhor corte para determinado tipo de rosto.
  • Desembaraçar é preciso — para cabelos cacheados, esse processo normalmente ocorre no banho. Os pais devem aproveitar esse momento para conversar e ensinar, de forma lúdica, como a criança deve cuidar dos fios.
  • Siga o passo a passo da lavagem — o ideal é aplicar o xampu e massagear o couro cabeludo. Em seguida, enxágue e use o condicionador. O importante, nessa etapa, é dividir os cabelos em mechas e espalhar o produto em cada uma delas, principalmente nas pontas.

Aceitação

Kelane Carvalho, 30, segue todos os cuidados indicados pela cabeleireira no tratamento dos fios da filha, Ana Karolina, 11. No caso das duas, o processo de aceitação foi um pouco mais complicado. “Ela via que o meu cabelo era liso e o da maioria das amigas, também. Como antes não tinha muito essa questão da valorização, tivemos que trabalhar todo esse processo de transição”, afirma a mãe.
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

A enfermeira conta que Ana só usava o cabelo preso e se sentia envergonhada na escola, mas, com o tempo, a situação mudou. “Os novos produtos e a moda cacheada trouxeram mais confiança. Hoje, ela se cuida, se ama e se aceita. Anda com o cabelo solto e lindo.” Mãe e filha se divertem fazendo diferentes hidratações em casa e procurando produtos diferentes para comprar. “Não abrimos mão de cortar o cabelo dela em um salão que tenha pessoas que trabalham somente com os cachos”, diz.

O corte ideal, segundo Adriana, depende do tipo de rosto da criança e do tipo de fio que faz o cacho. “Normalmente, fazemos o corte em camadas, de forma mais arredondada, mas sempre seguindo o formato do rosto. Se os pais ou a criança querem valorizar o volume, o tamanho não é problema. Se o desejo é um corte mais discreto, o cabelo deve ser mantido abaixo do ombro”, explica. Ana Karolina usa, hoje em dia, os cachos como uma marca. “Agora, sou mais confiante com relação ao meu cabelo. Quero que as pessoas vejam que eu sou mais que um padrão”, comenta.  

Zelar pelos cabelos é tarefa que, para alguns pais, precisa ser dividida entre os filhos. No caso de Mônica, por exemplo, os cuidados não estão limitados apenas a Bruna: o pequeno João, com apenas 1 aninho e cabelinhos cacheados, recebe toda a atenção da mãe no processo de limpeza e hidratação dos fios. “Com ele, temos que ter mais cautela. O couro cabeludo dele é sensível e o cabelo tem uma estrutura diferente. Uso produtos infantis, como xampu, condicionador e creme para pentear. Acho que isso ajuda a garantir a forma do cacho e o cuidado com o meu bebê”, afirma.

De acordo com a pediatra Sabrina Battistella, os cabelos amadurecem com a criança. É apenas por volta dos 10 anos de idade que os fios são compatíveis a um cabelo adulto, em termos de espessura e diâmetro. “Quando a criança é pequena, o couro cabeludo precisa de um cuidado especial. No caso do cabelo enrolado, especificamente, a oleosidade fica concentrada próxima à raiz e não consegue ser distribuída pelo resto do fio, por isso, é importante que os pais tenham um cuidado diferente”, explica.

Com um fio fino e com tendência quebradiça, a atenção na hora de desembaraçar o cabelo dos pequenos se torna essencial. “De maneira lúdica, é possível empoderar a criança e fazer com que ela aprenda a cuidar do próprio cabelo. A diversidade está cada vez mais presente nas famílias.”
 

Adaptação

É preciso estar atento não só à marca dos produtos e à aprovação dos mesmos pela Anvisa, mas também ao pH, que deve ser balanceado para evitar alergia nos pequenos. “Temos linhas infantis muito diferentes, com benefícios de condicionamento semelhante a um produto de adulto. O mercado tem crescido muito e contamos com inúmeras opções, para vários tipos de cabelo e faixas etárias”, ressalta a pediatra.

Para ela, é importante entender que o cabelo cacheado possui uma necessidade diferente de hidratação e que existem produtos direcionados exatamente para esse tipo de fio. “Os pais são essenciais nessa rotina. Os cuidados são um bom momento para estabelecermos vínculos e demonstrarmos afeto.” Sabrina garante que uma criança saudável é aquela que não só tem um couro cabeludo sem alergias ou descamações e um fio hidratado, mas também que é feliz com o próprio cabelo. n

* Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
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