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Barbearias vintage resgatam o passado e atraem público masculino jovem

Com decoração caprichada, estabelecimentos modernos oferecem muito mais que o pacote barba, cabelo e bigode. Para atender ao exigente e vaidoso público masculino, põem à disposição do cliente serviços estéticos variados, além de bares, lojas e espaços de entretenimento

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postado em 18/06/2017 08:00 / atualizado em 16/06/2017 19:11

Minervino Junior/CB/D.A Press

 

Enormes cadeiras de couro e metal enfileiradas. Navalhas expostas no balcão. Toalhas quentes sempre a postos para acalmar os poros dos rostos recém-raspados. Abandonadas por muitos homens, as barbearias fazem o seu retorno triunfal. Agora, sob a alcunha de vintage, os estabelecimentos especializados em beleza masculina ressurgem com força total. Mesclando tradição e uma pegada moderninha, inovam ao oferecer mais que o burocrático pacote barba, cabelo e bigode. E aproveitam para apostar em um promissor filão da indústria cosmética.

 

Levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Qualibest, a pedido da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), no ano passado, provou o que já se nota pelas lojas de cosméticos, barbearias, cabeleireiros e afins: os homens estão cada vez mais vaidosos. Segundo a pesquisa, a categoria masculina do mercado de cosméticos representou mais de R$ 21 milhões do faturamento total do setor, o equivalente a um crescimento de 2,4% em relação ao ano anterior.

O principal objetivo do estudo foi comparar hábitos e atitudes de 425 homens da geração Z (14 a 20 anos) e da geração X (35 a 45 anos). Quase metade deles, 45%, declarou-se “supervaidoso”. Os pensamentos e valores dos homens também parecem estar mais modernos. Entre os rapazes da geração Z, 74% concordaram com a opinião “acredito que já foi o tempo em que apenas as mulheres cuidavam da beleza”. Entre os mais velhos, a percepção foi ainda maior: 85% acreditam que cuidar da beleza é uma atitude sem conexão com gênero.

As idas ao barbeiro ou ao cabeleireiro também já não são um tabu para eles. Ainda de acordo com o levantamento, 54% dos entrevistados não têm problemas de dizer que vão ao cabeleireiro, 20% fazem o mesmo com relação às visitas ao barbeiro e 17% afirmam que não escondem as idas a ambos.

Um exemplo da ascensão do interesse dos homens por produtos de beleza é a marca Recipe For Men, especializada em produtos de luxo voltada exclusivamente para o público masculino. A marca, criada na Suécia, acaba de desembarcar no Brasil. Por enquanto, as vendas são feitas por meio da loja de departamento Sephora. Para Jean Martins, representante da marca no Brasil, o mercado cosmético masculino está em franco crescimento. “O homem brasileiro começa a se cuidar pela barba”, detalha.

Idealizada na década de 1990 pelos amigos e praticantes de sky Mikael Snabb, Jesper Matsch e Jesper Rönnbäck, a ideia de cosméticos para homens surgiu a partir de um incômodo comum em países nórdicos: o desgaste que o frio provoca na pele. Sem sucesso na busca por produtos masculinos, os suecos decidiram criar a própria marca. Em 2003, a Recipe For Men estreava no mercado de beleza.

 

Sangue de barbeiro

Minervino Junior/CB/D.A Press

Desde o começo da década, uma onda inovadora inundou o conceito de barbearias pela cidade. Na decoração, elas brincam com a versatilidade do contemporâneo e do passado, ora usando uma pegada retrô, ora investindo em objetos modernos. E, quando o assunto é beleza, os serviços prestados vão além do corte de cabelo e do cuidado com a barba. A Revista do Correio visitou quatro desses estabelecimentos para verificar o que era ofertado.

Em todos os lugares, a demanda é grande. O ramo das barbearias parece não sentir o impacto da crise econômica. “Nesse ramo, tem espaço para todos. Todo homem precisa cortar o cabelo pelo menos uma vez ao mês. Há mais gente para cortar do que lugar”, aposta o empresário Caio Cabral, 30 anos, proprietário da Barbearia Dom Cabral. “Em Brasília, o negócio cresceu de forma monstruosa. Em todos os lugares, há uma barbearia fera. Temos que nos destacar no atendimento.”

A empreitada de Caio deu tão certo que a Dom Cabral virou uma rede. Em seis anos, desde que as portas da primeira unidade, no Complexo Brasil 21, foram abertas, a franquia passou a contar com seis unidades, na Asa Sul, na Asa Norte, no Lago Norte, no Liberty Mall e no Lago Sul. “A gente resgatou um jeito antigo de fazer barba, com pegada old school. Alguns clientes dizem: ‘isso aqui me fez lembrar da minha infância, quando eu ia para a barbearia com meu pai’. Trouxe uma cultura esquecida, do cara conversando com um pano quente, aquela cultura ‘clube do Bolinha’”, brinca Caio.

A relação de Caio com as navalhas começou muito antes da Dom Cabral. O rapaz é a terceira geração da família no setor. A tradição teve início com o avô, o mineiro Ademar Cabral, conhecido como seu Cabral. Barbeiro desde os 12 anos, o patriarca se aposentou aos 96. Passou as navalhas para o filho Dawis Cabral, que comanda o salão infantil Pente Mágico, na Asa Norte, há 35 anos. Em 2011, foi a vez de Caio fazer parte da tradição familiar. Em parceria com o pai, decidiu investir no novo negócio. A decoração inspirada no automobilismo foi o caminho escolhido para se destacar entre tantos estabelecimentos. “Era para o cliente se sentir dentro de um box de corrida de carro”, detalha.

Durante uma viagem à Califórnia, pai e filho se depararam com uma reportagem sobre novas barbearias retrô ao redor do mundo. Foi então que tiveram o insight que precisavam para dar continuidade à ideia inicial. “Foi como se fosse um sinal de outro mundo. Voltei da viagem com o foco do negócio. Esquecemos o automobilismo e partimos para um cenário rock/retrô.”

Toda a decoração do local foi pensada minuciosamente por um especialista em restauração. As cadeiras restauradas, por exemplo, são das décadas de 1930 e 1940. “A gente foi atrás de um fornecedor especialista em restaurar cadeiras de barbeiro. Temos uma longarina de madeira, por exemplo, de um teatro do Rio de Janeiro, da década de 1920. Implantamos também a cerveja para cativar o cliente.”

Dos quadros ao som ambiente (jazz e rock clássico), passando pelo uniforme dos barbeiros e pela caixa registradora, tudo é retrô. Na época em que inauguraram a primeira barbearia, os clientes se originaram de dois polos: alguns vinham de salões unissex — e pagavam caro porque queriam serviço de qualidade —, enquanto outros queriam se sentir confortáveis em um ambiente masculino. “Aos poucos, conseguimos conquistar os dois eixos: para o público dos R$ 90, oferecemos uma possibilidade de pagar mais barato e com corte de qualidade; para o dos R$ 20, demos, além do ambiente satisfatório, as cortesias de cerveja.”

Os sócios não param de trazer ideias. Desta vez, a novidade será uma hamburgueria gourmet na unidade do Lago Sul. A estrutura da cozinha industrial foi herdada do antigo restaurante que funcionava no local. “Vai ser bem gourmet, que é a moda do momento”, reforça Caio. Em breve, a ideia é que a Dom Cabral vire também uma marca de produtos cosméticos. “Teremos produtos como óleo pós-barba, xampu e pomada de finalização.”

 

Minervino Junior/CB/D.A Press

O mercado masculino em números


Confira alguns dos resultados do estudo que compara hábitos e atitudes de 425 homens da geração Z (14 a 20 anos) e da geração X (35 a 45 anos).

  • 78% dos entrevistados da geração Z acreditam que ser vaidoso é bacana hoje em dia, porém, sem exageros, contra 84% dos participantes da geração X.
  • 62% dos participantes da geração Z acham que as mulheres não gostam de homens que gastam tanto tempo com a aparência. Apenas 59% dos entrevistados da geração X concordaram com a afirmação.
  • Em média, homens da geração Z gastam R$ 45 por mês para pintar o cabelo, fazer a barba e ajeitar as costeletas. Entre os homens da geração X, o gasto é ainda maior: cerca de R$ 99 mensais.
  • 19% dos entrevistados sentem falta de cosméticos específicos para a barba, como creme depilatório, xampu, corretivo e produtos para estimular o crescimento dos fios.

Fonte: Pesquisa Desvendando a Vaidade Masculina, da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC)

 

 

Espírito jovem e empreendedor

Minervino Junior/CB/D.A Press
Julia Roseo, 24 anos, e Tiago Favilla, 27, namoram desde a época da faculdade e sempre sonharam em abrir um negócio. Queriam entrar em um ramo que remetesse a algo novo e criativo. Foi então que, em uma conversa com amigos no Rio de Janeiro, Tiago teve o lampejo: banhados de areia e água salgada da praia, os companheiros o chamaram para cortar o cabelo. “Estamos na praia e vamos cortar o cabelo? Não tem a menor lógica”, pensou o rapaz. Ainda relutante com a ideia, o rapaz se encantou ao chegar ao local. “A barbearia era toda tradicional, mas tinha algo que me chamou a atenção: eles serviam chope. Achei sensacional isso de você poder beber e cortar o cabelo ao mesmo tempo.”

Com a ideia do negócio em mãos, começava o desafio. Tiago e Julia viajaram mundo afora para pesquisar sobre as barbearias e o conceito que tanto desejavam. Há dois anos, surgia a Fio Maravilha, na Asa Norte. O começo não foi fácil. A principal dificuldade foi a burocracia. “O Brasil é muito arcaico em relação a novos negócios”, reclama Tiago. Mas os problemas não pararam por aí. Eles contam que tiveram dificuldade de se relacionarem com os colegas do ramo. “Em Brasília, isso é algo muito complicado. As pessoas não acham bacana a troca de ideias e experiências”, relata Julia.

Embora tenham sentido certa hostilidade por parte de uns, outros receberam a Fio Maravilha de braços abertos. “A gente tenta fazer a cultura barbershop bombar na cidade. E todas as barbearias têm que se unir para trazer feiras, pessoas de fora da cidade e até do país. É isso que queremos pregar aqui”, elucida a Julia. O casal aponta São Paulo como o contraponto. Quando vão por lá para pesquisar, eles logo sentem a diferença. “As próprias barbearias nos indicavam outras para a gente conhecer”, conta Tiago.

A juventude do casal se reflete na Fio Maravilha. Assim que se entra no estabelecimento, a música ambiente revela o local acolhedor. Se precisar esperar, há um sofá perto do barzinho e uma primeira cerveja por conta da casa. A decoração remete a uma viagem no tempo. As cadeiras restauradas das décadas de 1940 e 1950 chamam a atenção. Toda a decoração foi idealizada pelos proprietários e os familiares. “A gente fez uma megapesquisa para oferecer ao cliente essa experiência de viajar no tempo. Queremos que ele se sinta confortável em passar a tarde aqui”, justifica a jovem.

O espaço dos fundos é dedicado a uma loja colaborativa, com marcas locais. “É uma forma de darmos a mão para o outro, nessa proposta de mudança de negócio da cidade. Temos que crescer juntos e nos ajudar”, discursa Tiago. E as ideias não param por aí. No aniversário de dois anos da Fio Maravilha, será lançado um aplicativo e uma marca de vinho para os clientes da barbearia, que se juntam à cerveja Fio Good — já lançada e conhecida pelos frequentadores, mas que o casal parou de produzir por um tempo.

 

Conheça

Al Capone

Avenida Pau-brasil, Lote 6, Loja 5, Águas Claras
Telefone: (61) 3879-1122
Facebook: facebook.com/alcaponebarbeariaepub

Inova Barbearia

Avenida Castanheiras, Rua 36 Norte, Lote 7, Águas Claras
Telefone: (61) 3039-1909
Site: barbeariainova.com.br
Facebook: facebook.com/BarbeariaInova

Dom Cabral

Endereço: disponível no site:domcabralbarbearia.com.br
Facebook: facebook.com/Barbeariadomcabral

Fio maravilha

Endereço: CLN 202, Loja 75, Asa Norte
Telefone: (61) 3202-5006
Facebook: facebook.com/fiomaravilhabarbearia

 

* Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte

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Flavio
Flavio - 18 de Junho às 12:40
Desde quando ida ao barbeiro é tabu? A propósito, barbearia é o lugar onde trabalham barbeiros, não barbeiras.