Doutor, posso continuar a tomar diariamente minha taça de vinho?

O neurologista Ricardo Teixeira responde ao questionamento de tantos pacientes que adoram uma tacinha de vinho

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postado em 21/06/2017 17:03 / atualizado em 21/06/2017 18:36

*Por Dr. Ricardo Teixeira


Achaval Ferrer/Divulgação
 
No consultório médico, uma senhora que precisa de medicações para controlar sua pressão arterial encerra sua consulta perguntando se ela pode manter o seu hábito de tomar uma taça de vinho por dia. O doutor lhe responde que não só pode como deve – “Minha cara, temos acompanhado nos últimos anos uma série de estudos que demonstram que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cardiovasculares, incluindo o infarto do coração e o derrame cerebral. Isso significa que quem bebe pouco tem menos eventos cardiovasculares do que aqueles que não bebem. Já o consumo exagerado de álcool provoca um maior risco de doenças cardiovasculares. Veja bem, devemos entender consumo moderado como até duas doses de bebida por dia para homens e uma dose para mulheres. As pesquisas ainda apontam que esse efeito protetor do consumo diário e moderado deixa de existir quando a pessoa exagera na dose, mesmo que seja por apenas um dia no mês”.

 
Essa mesma senhora ouvirá dos médicos que sua taça de vinho é capaz de reduzir seu risco de doença de Alzheimer e outros tipos de demência. Ouvirá também que já existem estudos que demonstram que o seu hábito também está associado a um envelhecimento com maior nível de independência física e maior longevidade. As bebidas alcoólicas de uma forma geral promovem esses efeitos positivos, mas o vinho tinto parece ser levemente superior, pois além do álcool, ele possui outras substâncias protetoras como os flavonóides, incluindo o resveratrol.
 
Esse discurso ainda é controverso, especialmente quando se pensa no cérebro. Algumas pesquisas realmente mostram que o uso moderado de álcool reduz o risco das doenças citadas acima, enquanto outras apontam na direção contrária. Um grande estudo publicado este mês pelo prestigiado periódico British Medical Journal, evidenciou que o consumo moderado afeta negativamente a estrutura cerebral assim como as funções cognitivas. O estudo envolveu mais de 500 adultos ingleses por um período superior a 30 anos. E o que foi considerado “moderado”? Para os padrões ingleses, isso significa 4 cervejas de 600ml por semana ou 5 taças de 175ml de vinho. Para os americanos, o consumo moderado é mais generoso: 7 cervejas ou 9 taças de vinho por semana. Nenhum desses dois limites foi seguro para o cérebro. Além disso, o uso leve de álcool não atrapalhou o cérebro, mas também não trouxe benefícios. O que é consumo leve? Duas cervejas ou 2-3 taças de vinho por semana.   
 
À luz do conhecimento atual, recomenda-se que os médicos não indiquem o uso de álcool como se fosse um suplemento alimentar para prevenir doenças. Devem recomendar às pessoas que não bebem que continuem sem beber, e às pessoas que já têm o hábito de beber, que não ultrapassem os limites. Mas isso também está mudando, já que estudos recentes têm demonstrado que o consumo regular de álcool, mesmo em doses leves a moderadas, está associado a um maior risco de diferentes tipos de câncer, como o de mama, orofaringe e esôfago. Por essa razão, em 2009 o Instituto Nacional do Câncer da França deu início a uma campanha chamada Álcool Zero, defendendo a ideia de que mesmo uma dose diária não é segura.
 
Devemos evitar em pensar no álcool como um elemento promotor de saúde da população, não só pelo aumento do risco de câncer, mas também porque muitas pessoas atravessam a barreira entre o consumo moderado e o consumo exagerado. Esse consumo exagerado é responsável por uma em cada 25 mortes no mundo, e como se não bastasse as mais de duzentas doenças secundárias ao álcool, ainda temos os enormes problemas sociais que estão associados ao seu consumo. E isso já é um problema para lá de antigo. Por 40 dias e 40 noites, Noé, sua mulher, três filhos e os animais, embarcaram na arca enquanto o dilúvio destruía o resto do mundo. Ao chegar em terra firme, uma das primeiras coisas que Noé fez foi “tomar vinho e ficar embriagado” e os filhos precisaram protegê-lo para que ele não metesse os pés pelas mãos. O livro do Genesis marca a presença do álcool e seus riscos já nos primórdios da humanidade.

 

* Dr. Ricardo Teixeira é médico neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília  

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