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Jovens estilistas renovam a alta costura em Brasília com peças exclusivas

Jovens talentosas e apaixonadas por costura investem em uma profissão que passou um tempo deixada de lado: personalizar roupas e fazer peças sob medida. São designers que agregam novos conceitos ao trabalho de fazer roupas exclusivas

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postado em 02/07/2017 08:00 / atualizado em 30/06/2017 18:15

 
O mercado de moda em Brasília está mudando. E para melhor. Nos últimos anos, diversas marcas de produção industrial foram criadas, como a Dane-se, a Lace.it, a Viee La Vie e tantas outras. Agora, o espaço também se amplia para trabalhos mais autorais: ateliês de roupa sob medida e de alta-costura estão abrindo as portas na capital. Para se ter uma ideia do prestígio, “alta- costura” vem do termo em francês haute couture, utilizado para fazer referência à criação em escala artesanal de modelos exclusivos, frequentemente bordados, com pedrarias e metais preciosos. Obviamente, o desenvolvimento de uma peça de maneira personalizada tem maior valor de mercado, mas estilistas brasilienses acreditam que devem investir nesse serviço e explicam o porquê.


A atividade de costurar é comumente associada ao estereótipo de senhoras, escondidas atrás de uma máquina, com o dom de transformar pedaços de pano em peças de vestir. Na capital, essa imagem tradicional dá lugar a um novo cenário. No último ano, surgiram novos ateliês de costura na cidade, comandados por jovens designers. O Sebrae define esses espaços como uma evolução mais charmosa da costureira de bairro. Oferecem serviços e produtos personalizados e produzem roupas que reforçam as características da personalidade do cliente.

Um dos motivos que explicaria o investimento nesse novo padrão de negócio é a crescente vontade dos jovens brasilienses de terem o próprio negócio. Estudo da Endeavor Brasil, publicado em novembro de 2016, colocou a capital federal como 16ª cidade mais empreendedora do país.

As empresárias desse setor têm, em média, 30 anos. Muitas delas já se consolidaram na profissão e têm o seu trabalho reconhecido pela cidade. Mais do que costurar, elas desenham e criam as peças junto com as clientes, a fim de chegar ao denominador comum entre a ideia de uma e o desejo da outra.

Entre o exclusivo e a produção industrial

A paixão da estilista Laura Valadão, 26, por moda começou bem cedo, por volta dos 10 anos. Nas férias, ela sempre viajava para o interior de Goiás, onde uma tia tinha uma loja de tecidos e uma confecção, daquelas bem tradicionais: a cliente escolhia um tecido e já encomendava o vestido com a costureira de lá. “Meus primos jogavam videogame o dia todo, mas eu não. Eu ficava com a minha tia”, relembra. Dali, nasceu a vontade de desenhar. “Comecei mal, claro, e fui melhorando, me aperfeiçoando”, conta.
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

Se naquele tempo, na hora de fazer roupa, a regra era comprar o tecido em uma loja como a da tia de Laura e vê-lo sair do papel pelo talento de uma profissional contratada pelo local, hoje, também existe a possibilidade de mandar fazer um modelo único à moda antiga, de forma bem mais autoral e com a assinatura de uma estilista.

Embora venha de uma família privilegiada financeiramente, não foi fácil para Laura chegar aonde está. Preocupado com o futuro da filha, o pai dela exigiu que fizesse algum curso “mais sério” antes de mergulhar no mundo da moda. Quase todo estilista enfrenta isso. Ela, então, ingressou na faculdade de administração de empresas. Foi tempo de se dedicar às aulas e a um blog de moda ao mesmo tempo. O site pessoal lhe abriu várias portas: “Graças a ele, fui convidada para fazer uma pocket collection (coleção de poucas peças) para a loja brasiliense Devorê. Deu tão certo que, depois, fizemos mais uma”.

Finalmente formada, o pai resolveu lhe dar, então, uma nova oportunidade: um curso de moda fora do país. Ela estava noiva, mas largou tudo por seu sonho e embarcou para Roma para um curso de um ano na Accademia Internazionale D’Alta Moda E D’Arte Del Costume Koefia. “O pessoal lá é supertradicional. Fazíamos um vestido inteiro à mão. É bem alta-costura mesmo”, explica. O principal objetivo de Laura, no entanto, era aprimorar seus desenhos. Atualmente, ela quase não costura suas criações, já que conta com costureiras parceiras.

De volta ao Brasil, há dois anos, Laura começou a trabalhar como estilista na loja Amanda Brasil. Lá, completou seu aprendizado com boas noções de produção industrial. Decidiu, então, seguir com a profissão por conta própria e abrir o Ateliê Laura Valadão. Ela pesquisa tendências, cores, sugere estamparia e faz moodboard (inspirações) e ficha técnica (detalhamento para produção) para sua marca e para outras lojas.

Há poucos meses, ela se casou. Como não podia ser diferente, fez o próprio vestido. Para fugir do comum, ele era branca e dourada. Em geral, as peças que faz têm um tom de simplicidade, mas, ainda assim, são bem elaboradas e com um bom corte. A moça não trabalha tanto com bordados e pedrarias. Usa muito veludo e tecidos diferentes. Suas clientes são atraídas, principalmente, pelo boca a boca.

Entretanto, Laura lamenta que nem tudo são flores quando se fala em fazer moda sob medida e alta-costura na capital. Segundo ela, não é fácil encontrar tecidos e insumos, em geral, de qualidade. Muitas vezes, é preciso trazê-los de fora. “Dá a impressão de que as lojas de tecido não estão nem repondo o estoque, provavelmente, por causa da crise. Só querem liquidar o que têm e não atualizam”, reclama. Encontrar mão de obra também não é tão simples. Inclusive, ela procura alguém para trabalhar no ateliê.

Fascínio pelos tecidos

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Nascida em uma família de advogados, Amanda Guerra, 29 anos, optou por dar continuidade à tradição e seguir esse que — além de tudo — era o caminho mais fácil. A jovem se formou em direito, foi aprovada na Ordem dos Advogados do Brasil, fez um pós-graduação em direito empresarial e trabalhou no escritório da família. “Acho que existia uma cobrança tanto minha quanto da família. Então, acabei reprimindo a minha paixão pela moda”, confessa. Quando Amanda percebeu o quanto era infeliz exercendo a primeira carreira, conversou com os pais, seguiu a intuição e entrou para o curso de design de moda.

Inquieta e insegura, fez cursos paralelos durante a faculdade, como jornalismo de moda, styling e marketing. Amanda tinha certeza de que gostava de moda, mas ainda questionava se queria atuar como estilista e, nessa busca, reconheceu-se  designer. “Sempre tive uma paixão por tecidos. Quando eu era mais nova, pegava os vestidos que minha mãe não usava mais e criava novas roupas para mim”, relembra. Assim, aos poucos, Amanda Guerra foi desenvolvendo as habilidades e o senso estético para começar a desenvolver as peças que não encontrava nas lojas. Foi quando se encantou de vez pelo design de moda.

A relação de Amanda Guerra com o tecido é realmente muito forte, afinal, a partir dele, a estilista de alta-costura se inspira. “Normalmente, os profissionais desenham e depois escolhem o tecido, para, só então, desenvolverem o vestido. Eu faço o inverso, para mim tudo começa pelo tecido.”

Balenciaga, Chanel, Oscar de la Renta e Carolina Herrera são grandes referências para a jovem. Apesar de terem estilos diferentes, o que atrai a atenção de Amanda é que esses designers sempre trazem em suas coleções um clássico revisitado. Esse toque de contemporaneidade em peças tradicionais também é uma característica das peças criadas pela estilista brasiliense e talvez seja o diferencial das criações do Ateliê Amanda Guerra.

Depois de um ano e meio elaborando vestidos de festa, Amanda recebeu pedidos de vestidos de noiva e percebeu a necessidade de se especializar. Então, foi para a capital da moda, Paris, e fez o curso de design de noiva, no Instituto Marangoni. A partir dos conhecimentos adquiridos, desenvolveu a primeira coleção de noivas prêt-a-porter (“pronto para usar”): são 11 vestidos inspirados no estilo parisiense. “Eu nunca imaginei que seguiria esse caminho, mas, hoje, os vestidos de noiva são a maioria das minhas criações”, reconhece Amanda.

Sempre em busca de novos conhecimentos, a empresária acaba de voltar de mais uma temporada de estudos. Amanda estava em Londres fazendo um curso de bordado e acabamentos para alta-costura, na London Embroidery School.

No Ateliê Amanda Guerra, ela conta com sete profissionais que a ajudam durante todo o processo de produção. Amanda é a única designer da equipe e garante que participa de cada etapa da criação das peças para garantir que fiquem perfeitas.

A cliente que optar por um modelo sob medida precisa saber controlar a ansiedade, afinal, a confecção de um vestido de noiva de alta-costura dura, no mínimo, seis meses. “Tem um estudo por trás do vestido, preciso saber o horário e o local da cerimônia, além de entender quais são as expectativas dela. É preciso pensar em tudo o que aquele vestido tem que representar naquele dia”, justifica.

Ela percebe que nos últimos anos está acontecendo uma mudança de mentalidade e os brasilienses estão valorizando cada dia mais o slow fashion — comprar menos, porém, investindo em qualidade. “É uma cidade que está crescendo e tem tudo para crescer na área da moda. Temos pessoas bem informadas, que gostam de consumir. Então, por que não comprar na sua cidade?”, ressalta. Peças sob medida, exclusivas e feitas de maneira artesanal são vantagens desse modelo slow fashion, que está se popularizando rapidamente na capital.

Vestida para se formar

Júlia Penteado, 36, estilista, também sofreu resistência da família quando disse que gostaria de trabalhar com moda. Como não tinha interesse de sair da capital e por aqui não havia cursos na área, fez relações internacionais. Depois, ainda estudou marketing. Até que o curso de moda em uma faculdade local foi aberto e ela logo se matriculou. No segundo semestre, já tinha ganhado dois concursos e começou a receber mais apoio da família. Surgiu, então, o segundo problema: “Era muito difícil estagiar na área aqui em Brasília. Muita gente acabava indo só trabalhar em loja e aí não mexia com criação, modelagem etc.”.

Até que encontrou as portas abertas para apresentar seu trabalho em uma loja brasiliense. Formou-se, virou funcionária. Mas isso era só o começo de uma futura carreira promissora. Depois de algum tempo, decidiu que era hora de viver outras coisas: fez cursos em São Paulo e em Madri.

Outro evento importante para que ela encontrasse seu caminho na moda foi, ironicamente, a formatura da irmã, que não encontrava nada de que gostasse para usar na ocasião. Júlia, então, se ofereceu para confeccionar. Com uma condição: a irmã não poderia dar pitaco. Com esse trabalho, apareceram vários outros, a pedido das amigas da irmã. Todas ficaram mais do que satisfeitas: amaram o resultado.

Júlia, então, se viu fazendo vestidos sob medida para festas. Um ano depois, algumas das clientes começaram a pedir que ela fizesse seus vestidos de casamento. A estilista explicava que não tinha tanta experiência, mas elas teimavam. “Eu não escolhi trabalhar com noivas, elas que me escolheram. Nunca pensei em trabalhar com isso”, conclui. O primeiro vestido que Júlia fez com tal finalidade foi para um casamento, em Roma, para 12 pessoas.

Quando ficou mais famosa na cidade, muitos levavam um susto por ela ser tão nova. “Parecia que minha credibilidade era questionada. Foi algo que tive que superar também”, relembra. Chegou, então, o momento em que a demanda por vestidos de festas e de noivas estava quase igual. Na mesma época, ela engravidou. Precisou escolher entre um trabalho ou outro. Ficou com as noivas.

Os vestidos criados por Júlia não costumam seguir moda ou alguma tendência. “Tenho um conceito estético muito desprendido de qualquer coisa já firmada”, define. Costuma usar tecidos mais leves, fluidos, num estilo mais boho. “As noivas que me procuram são pessoas que querem sair um pouco mais da caixa, fugir do tradicional”, explica.

Para ela, duas coisas a favoreceram na carreira: o fato de que muitos fornecedores conceituados deixaram noivas na mão ou não as satisfizeram nesse novo estilo de casamento. “Hoje em dia, os casamentos ganharam um novo formato. Os próprios noivos pagam a cerimônia e querem a personalização. Querem colocar um pouco mais o estilo deles e isso tudo abre espaço para gente nova”, opina.
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