MEDICINA

Fique atento, o uso de lentes de contato exige uma série de cuidados

O uso de lentes de contato exige cuidados que, apesar de parecerem óbvios, nem sempre são tomados pelos usuários. Deslizes podem levar ate à cegueira

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postado em 02/07/2017 08:00 / atualizado em 30/06/2017 18:05

Reprodução
As lentes de contato são as melhores amigas de quem não se adapta aos óculos ou quer ter o rosto livre deles. Quem opta por trocar os óculos pelas lentes aponta uma série de vantagens, como praticidade e estética. Mesmo simples de ser usado, o acessório, porém, demanda alguns cuidados específicos para não pôr a saúde ocular em risco. Alguns erros são fáceis de serem evitados e garantem que as lentes tenham a vida útil garantida.


A oftalmologista Samantha de Albuquerque explica que o erro mais frequente entre os usuários é usar o acessório sem a avaliação de um médico. Segundo ela, somente o profissional está habilitado para escolher a lente mais apropriada a cada caso, além de detectar se há alguma condição de saúde que atrapalhe ou contraindique o uso. “É ele quem vai avaliar, com o microscópio, a lente no olho,  pois ela precisa estar perfeitamente ajustada para promover a melhor visão e também conforto”, detalha.

Outros erros comuns, de acordo com a especialista, é usar as lentes por mais tempo que o recomendado. Não respeitar o prazo de descarte e “esquecer” de lavar bem as mãos antes de manuseá-las são falhas corriqueiras. “O uso correto começa com a completa avaliação oftalmológica e a escolha da lente, a higienização rigorosa, com lavagem e secagem das mãos. Reforço ainda a importância de não ficar com as lentes além do prazo recomendado e usar solução multipropósito para higiene e manutenção”, lista Samantha.

Prazo de validade

Guilherme Rocha, oftalmologista do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB), explica que outro lapso comum e perigoso é ignorar o prazo de validade. “Hoje, temos lentes rígidas e gelatinosas. Cerca de 90% das lentes em uso são gelatinosas e a maior parte delas é descartável”, detalha. Ainda segundo o médico, a maioria deve ser descartada quinzenalmente ou mensalmente. “O problema é que foi criada uma cultura em que, se eu comprar uma caixa com seis pares e prolongar o uso de um para dois meses, só preciso comprar uma caixa por ano”, completa. “Isso está errado, porque a recomendação do fabricante é de 30 dias.”

O segundo grande pecado dos usuários, para o médico, é a limpeza. Apesar de existirem inúmeros produtos voltados para a higienização, Guilherme Rocha diz que muitos pacientes insistem em não usá-los. “As soluções antibacterianas e antiamebianas são fáceis de serem encontradas nas farmácias.”. Trocar a solução por água ou soro fisiológico é uma alternativa que nunca deve ser levada em consideração.

As lentes de contato não são para qualquer um. Nicole Homar, oftalmologista da Clínica Oftalmed, explica que o acessório deve ser evitado por pacientes com olho seco severo, com alergias intensas ou qualquer infecção na superfície do globo ocular. “Qualquer um desses problemas compromete total ou relativamente o uso de lentes. Uma conjuntivite já restringe o uso, no momento da inflamação.”

Manter unhas muito grandes também pode atrapalhar o manejo das lentes, alerta Nicole Homar, já que podem arranhar as lentes ou mesmo a córnea do usuário. “Também não são indicadas para pessoas que trabalhem em ambientes com muito pó ou vapor químico, porque se alguma substância dessa cai no olho e pega na lente, pode causar irritações”, completa. “O fato de viver independente do óculos pode ser uma qualidade de vida, mas se as pessoas não tiverem os cuidados necessários, podem se arrepender.”
Negligência perigosa

Negligência perigosa

Quem insiste em não seguir as recomendações médicas pode ter que lidar com problemas diversos, que variam de uma vermelhidão no olho a úlceras graves, que podem levar à perda ocular (leia quadro). Gilsimar Duarte, 34 anos, sabe bem o que é sofrer por conta do mau uso das lentes de contato. O servidor público usa o acessório desde 2010, mas, ainda assim, cometeu deslizes que o fizeram ter uma ceratite amebiana em ambos os olhos.

Arquivo pessoal
Gilsimar foi diagnosticado em outubro de 2016. “Eram lentes rígidas, então eu lavava com água da torneira e não usava os produtos adequadamente”, confessa. “Nem sempre higienizava minhas mãos antes de pegar nas lentes. Fui displicente.” Antes de receber o diagnóstico definitivo, o servidor passou dois meses usando um colírio que, apesar de ter sido indicado por um oftalmologista, não era adequado para tratar seu problema específico. “O caso foi só piorando. Meu olho já estava ficando muito vermelho, inchado. Eu não conseguia mais abri-los na claridade de jeito nenhum, qualquer lâmpada acesa me incomodava”, descreve. “Queria só ficar no meu quarto, a claridade chegava a doer a minha vista.”

Com o passar do tempo, Gilsimar conta que a mancha no olho, causada pela ceratite, aumentou de tal forma que passou a cobrir grande parte da íris, limitando seu campo de visão. “Chegou a um ponto em que eu não enxergava mais nada, só vultos”, conta. No ápice do problema, Gilsimar precisava da ajuda da mulher, a professora Estela Ribeiro Duarte, 32,  para praticamente tudo, inclusive comer. Quando veio o diagnóstico, uma surpresa desagradável: o colírio indicado, além de caríssimo, só era vendido nos Estados Unidos e na Europa. “Eu me entristeci muito, achei que ia perder minha visão”, conta.

Após muitas pesquisas e orçamentos, Gilsimar e Estela encontraram um laboratório em São Paulo que poderia manipular um dos colírios prescritos pelo oftalmologista. O outro foi encomendado a uma empresa especializada em importar medicamentos para o Brasil. O valor do tratamento foi salgado: R$ 1.500 por mês. Sem plano de saúde, o paciente teve que desembolsar também os valores das consultas. “O tratamento deveria ter durado de quatro a seis meses, mas minha recuperação foi tão boa que, em três meses, o médico suspendeu os colírios”, relembra. “A gente acha que nunca vai acontecer com a gente, que é besteira, que não vai ficar cego por causa disso e acaba relaxando. Hoje, estou muito mais centrado no manuseio e na limpeza das minhas lentes e sei que é de extrema necessidade ouvir o oftalmologista.”

O protozoário Acanthamoeba, que causou a ceratite de Gilsimar, é muito comum na água da torneira, do mar e de piscinas. Por isso, lavar as lentes de contato na torneira ou no chuveiro é um perigo para os olhos

Os sete pecados das lentes

1. Não higienizar as lentes com soluções antibacterianas/antiamebianas.
2. Comprar lentes de contato pela internet, sem o acompanhamento de um oftalmologista.
3. Dormir sem tirar as lentes de contato.
4. Limpar as lentes com água da torneira ou do chuveiro.
5. Usar as lentes por mais tempo que o recomendado pelo fabricante.
6. Não higienizar o estojo ao menos a cada 30 dias.
7. Não lavar e secar bem as mãos ao manipular as lentes.

Perigo ocular

Quem insiste em usar as lentes de
forma inadequada pode sofrer com uma
série de sintomas. Veja os mais comuns:

l Vermelhidão
l Sensação de desconforto
l Edema (inchaço) da córnea
l Embaçamento
l Infecções
l Úlceras
l Perda da capacidade de regeneração
l Perda ocular

Fontes: os oftalmologistas Guilherme Rocha, do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB); Samantha de Albuquerque; e Nicole Homar, da Clínica Oftalmed

Todo cuidado é pouco

É justamente por medo de passar por uma situação como a de Gilsimar que Marly Gomes, 32 anos, cuida de suas lentes de contato com atenção redobrada. A atendente usa o acessório há oito anos e conta que nunca teve problemas. “Sempre lavo as mãos antes de colocá-las, lavo as lentes, nunca durmo com elas e mantenho o estojo sempre limpo”, enumera. Quando não cumpre todos os “passos”, Marly logo percebe por conta da visão embaçada, causada por uma eventual sujeirinha que se acumula nas lentes. “Essas sujeiras vão atrapalhar no uso da lente porque causam irritação”, explica.
 
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
 
Certa vez, as tais sujeirinhas causaram alergia em Marly. O problema, contudo, não foi nada grave: bastou lavá-las novamente, com os produtos corretos, para a vermelhidão desaparecer. Outro cuidado que Marly não abre mão é o de tirar as lentes antes de dormir. “É importante para a respiração natural do olho. Às vezes, pode acontecer de esquecer, mas não é bom”, pondera. “Tenho muito medo de ter algum problema, o olho é uma parte do corpo muito sensível, então, procuro não agredi-lo.”

Olhos bem cuidados

Quem usa ou já usou lentes de contato sabe: dormir sem tirá-las é algo totalmente desaconselhável, mas que pode acontecer. O problema, segundo o oftalmologista do HOB Guilherme Rocha, é que a lente funciona como uma barreira para a nutrição da córnea. “O oxigênio vem da lágrima e do ambiente. Quando a lente está por cima, por mais que ela seja permeável a esses gases, acaba funcionando como uma barreira”, detalha. Quando a pessoa dorme, fecha os olhos — e o bloqueio aumenta ainda mais. “Você baixa a oxigenação da córnea, aumentando as chances de infecção”, alerta o médico. Essa infecção pode causar a perda da visão e, em casos gravíssimos, do próprio olho. “Uma infecção pode levar à perda da córnea e o paciente pode precisar de um transplante”, explica Guilherme Rocha.

Kléber Pinho, oftalmologista da Clínica de Olhos Dr. João Eugênio, explica que os cuidados devem ser os mesmos para lentes corretivas e coloridas. “Muitas pessoas pensam que, por serem estéticas, as lentes coloridas não precisam de acompanhamento médico, mas é um erro”, reforça. “O médico precisa avaliar o olho daquela pessoa, porque essas lentes podem causar tantos danos quanto as outras, já que também é um corpo estranho que vai interagir com o olho.” Para limpar as lentes adequadamente, a dica do profissional é sempre começar pelas mãos — de preferência, com sabão neutro —, que devem estar bem limpas.

A partir do momento em que as lentes são retiradas da embalagem original, Kléber Pinho explica que elas já estão esterilizadas. Após retirá-las (com as mãos limpas) e utilizá-las, a recomendação é acondicioná-las em um estojo próprio, também devidamente limpo, com uma solução específica para lentes de contato. “A limpeza dos estojos tem recomendações diferenciadas, mas, na prática, o paciente pode trocá-lo mensalmente ou, pelo menos, a cada três meses”, ensina. Semanalmente, a orientação do oftalmologista é limpar o estojo com água filtrada, fervida e, depois, com álcool. Após secar naturalmente, o estojo está pronto para ser usado.
 
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