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Brechós online e peças vintage fazem sucesso entre compradores brasilienses

Gastar, consumir, acumular está fora de moda. A tendência é garimpar, comprar o que foi usado, renovar peças antigas. Para ajudar nessa tarefa fashion e consciente, há muitos brechós virtuais que oferecem um catálogo de roupas exclusivas, cheias de personalidade. Para tê-las, basta um clique

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postado em 23/07/2017 08:00 / atualizado em 21/07/2017 18:43

O consumo consciente está em crescimento constante. Por um lado, é uma solução para reaquecer o mercado em meio a uma crise econômica, por outro, aplaca o desperdício, a produção de lixo e os danos causados ao meio ambiente pelas vendas e gastos exagerados. Depois que grandes nomes da moda, como os estilistas Alexandre Herchcovitch e Ronaldo Fraga, manifestaram-se contra o consumo desenfreado, o mundo fashion passou a ter um olhar mais acolhedor para as diferentes formas de comprar. A palavra de ordem agora é aproveitar o que já se tem e priorizar a exclusividade, a qualidade e os produtos eco-friendly, aqueles que são amigos da natureza.

Os brechós surgem como representantes importantes da moda na ecoera, movimento que engloba todo tipo de manifestação com um cunho socioambiental. A prática de revender peças usadas ou vintages nunca esteve tão na moda e está se reinventando, atraindo adeptos mais fashionistas. Em plataformas de venda on-line, essas lojas têm o poder de transportar o comprador à outra época e oferecem peças únicas, a preços, normalmente, mais em conta do que os que seriam cobrados em lojas físicas.

Brasília faz parte desse movimento de reinvenção da moda e tem uma série de opções incríveis para os que querem fugir dos padrões engessados do fast fashion. Pesquisamos alguns dos brechós on-line mais legais da cidade — além de alguns outros logo ali e que fazem muitas entregas na capital — e mostramos a nossos leitores alguns desses achados.

DNA brasiliense na moda sem gênero 

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
A 2u2 (to you too, em tradução livre “para você também”) surgiu da inquietação de três amigos quanto ao paradigma de gênero dentro da moda. Há cerca de um ano e meio, eles discutiam sobre a ausência de peças que realmente pudessem ser usadas tanto por homens quanto por mulheres nas lojas brasilienses e resolveram investir na criação do brechó, além de criarem uma marca própria.

Como o trio não tinha dinheiro para investir em uma estrutura física, a 2u2 já nasceu virtual. “Na época, vimos que vender pela internet estava em alta e, dentro do nosso nicho agender (sem gênero), não existiam muitas opções na cidade”, explica a empreendedora Tayse Maris, 22 anos. Além disso, nas plataformas on-line, as pessoas tendem a ser mais abertas às novidades; os vendedores conseguem atingir os nichos com mais sucesso e os consumidores que buscam o diferente o encontram com mais facilidade na rede.

Ao conversar com Tayse e com sua sócia, a empreendedora Ana Caroline, 23 anos, é fácil notar a paixão que as duas têm pelo que fazem. Ao mostrar  — e usar — os itens da 2u2, que poderiam facilmente adornar corpos masculinos, elas reforçam a ideia que vendem, sem deixar de lado o estilo pessoal e a feminilidade.

Para as duas amigas, a tendência agender está em expansão. “Não gostamos de separar um tecido por gênero. Não podemos pegar um pedaço de pano e dizer se é para homem ou para mulher. A nossa identidade como marca está muito ligada a isso e estamos vendo que o público está se diversificando. Já tivemos homens hétero comprando saias, por exemplo”, ressalta Ana Caroline.

No início, elas investiram somente no brechó. “A nossa ideia era reunir um capital para que pudéssemos criar a primeira coleção autoral e, a partir de então, conciliar as duas coisas”, conta Ana. Outro aspecto analisado pelas empreendedoras antes de dar início ao negócio era se a ideia faria sucesso. “Foi muito positivo. As pessoas querem o diferente e estavam buscando por ele. Em Brasília, as pessoas podem encontrar isso com a gente”, garante Ana.

Para fazer o garimpo das peças do brechó, Tayse e Ana Caroline, que recentemente ganharam um sócio investidor, se aventuram por Ceilândia, Taguatinga, Riacho Fundo e Núcleo Bandeirante. A escolha é por modelos que não tenham padronagens definidas pelo sexo. As meninas querem roupas que podem ser usadas por quem desejar, não importa se ele ou ela. “A maior parte das nossas peças vêm de bazares particulares e de igrejas e também de outros brechós. Fazemos esse trabalho de curadoria e mostramos como elas podem ser usadas por todos os gêneros por meio de editoriais e fotos conceituais, o que atrai muito o público na internet”, observa Tayse.

A 2u2 ainda não tem espaço físico, mas uma loja faz parte dos planos. Apesar dos projetos de expansão, as vendas on-line continuam sendo um foco para as empreendedoras. A 2u2 vende pelo site, Facebook e Instagram, esta última, considerada a rede social de maior rentabilidade. Contabilizando cerca de 40 vendas por mês, as sócias fazem entregas semanalmente nas estações de metrô de Brasília. Para os que moram fora do DF, as encomendas são enviadas via PAC. 

Onde encontrar
Instagram: @2u2store
Facebook: 2u2

Volta ao redor do mundo 

Cheia de cores fortes e com ar vintage, a coleção “Barcelona”, do Global Street Fashion, chama a atenção pelo caráter único das peças. Camisas estampadas, veludo molhado, vestidos dos anos 1950 e óculos psicodélicos. Entrar no espaço colaborativo de parede vermelha estampada e passar os olhos pelas araras do brechó é uma experiência sensorial. As peças, vindas de Barcelona, transportam o consumidor para um cenário de identidade bem particular.

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Esse era o objetivo da empresária Gabrielle Lobo, 23 anos. Ao terminar a faculdade, a jovem se deparou com um dilema: “Queria ter meu próprio negócio e, ao mesmo tempo, fazer algo que eu amasse. Pensei: meu emprego dos sonhos com certeza envolve moda consciente, viagens e explorar novas culturas. Assim, nasceu a Global”, conta.

Gabrielle viaja pelo mundo, visitando capitais, estudando suas culturas, descobrindo o que é tendência de moda em cada lugar e volta com peças únicas, geralmente com uma história ligada ao item. “Eu só compro em brechós e de marcas independentes. A maioria das peças passeia pelas décadas de 1970, 1980 e 1990, mas busco focar em tendências atemporais. É uma roupa sustentável, que não se perde com o passar dos anos. É única”, conta, com uma empolgação que transparece no tom de voz.

A exclusividade dos produtos é uma das prioridades da proposta do negócio. A jovem se encanta ao contar a história particular de cada uma das peças que vieram de brechós. “É importante ressaltar a diferença entre roupas velhas e usadas de roupas vintage. As roupas são bem cuidadas, limpas e contam uma história. Tem todo um pano de fundo no que você está usando e isso é uma das formas de expressar sua personalidade para o mundo”, completa.

Apesar de ser uma marca recente, foi criada em novembro de 2016, a Global Street Fashion tem uma clientela considerável. No Instagram, pelo qual são feitas as vendas on-line e agendados os encontros presenciais, são mais de 8 mil seguidores. A estética do feed de fotos na rede social reflete a identidade da marca. São imagens cheias de cor, autenticidade e personalidade que chamam a atenção dos seguidores.

Apesar de ter planos de ter um espaço físico próprio, Gabrielle não deixa o ambiente virtual. “Isso propicia um contato com seu público mesmo que ele esteja em outra cidade. A internet permite ainda que as pessoas tenham uma conscientização maior de como são produzidas as peças no fast fashion e do que tem de errado nessa indústria. É por meio das redes que o público encontra formas diferentes de consumo, como os brechós”, ressalta a empresária, que tem planos de lançar uma nova coleção a cada três meses. Em agosto, a marca debuta a coleção Buenos Aires.

Onde encontrar
Instagram: @globalstreetfashion
Para conhecer o espaço físico, 
marque pelo Instagram
Facebook: Global Street Fashion 

Saravá: a abertura de novos caminhos na moda 

 
O Saravá é um brechó on-line criado pela produtora de moda Monique Correa, 26 anos, e por sua sócia, a produtora cultural Nininha Albuquerque, 26 anos. Com estética setentista, as peças selecionadas têm como grande diferencial o fato de terem qualidade a preços acessíveis.

O forte do Saravá, no entanto, é algo que vai além do vestuário. Basta abrir o perfil da marca no Instagram para perceber que existe um trabalho forte de empoderamento negro. Os editoriais e fotos publicadas trabalham com pessoas fora do padrão estético normalmente abordado pela indústria da moda, trazendo, além do aspecto sustentável dos brechós, o debate de caráter social.

Dentro dos terreiros de umbanda, o termo Saravá significa “abertura de caminhos”, o que reforça a ideia das empreendedoras de dar mais destaque à cultura negra. “Ao criar a marca, definimos que os modelos dos editoriais seriam pessoas normais. Tínhamos um acordo de que todas as imagens teriam a presença de modelos negros”, esclarece uma das sócias.

Na seleção de fotos do brechó, o que mais chama a atenção é a forma dinâmica com a qual as empreendedoras organizam as imagens e os preços. Toda a negociação acontece virtualmente. É dessa forma que elas interagem com o público. Ao conferir as curtidas e os comentários fica claro que os itens mais desejados do brechó são as jaquetas jeans com o nome da marca escrito nas costas. É uma forma de vender o lifestyle da loja, com criatividade e estilo.

As sócias buscam as peças em vários locais diferentes e até mesmo nos guarda-roupas de amigos “A gente tem uma história engraçada... Uma vez, fui a São Paulo e consegui garimpar peças do armário do Emicida”, ri Nininha, orgulhosa do achado. Nas mãos de Monique e Nininha, tudo vira artigo fashion, como as fitas antigas que são vendidas como brincos. Os acessórios têm a cara do Brasil, são tropicais, coloridos e alegres. Com um ar kitsch, as peças brincam com a ideia do romantismo e levantam questões sobre o que é belo e precioso. Objetos do dia a dia e corriqueiros ganham outro sentido sobre a curadoria das empreendedoras e nos convidam a fazer parte de uma moda irreverente e divertida.
Minervino Junior/CB/D.A Press

Com a linha “Sou Saravá”, Monique e Nininha passarão a produzir mais peças customizadas em parceria com artistas locais, agregando mais valor e exclusividade aos produtos. “Percebemos que não estamos mais vendendo só roupas, mas lifestyle. Às vezes, temos clientes diferentes do público-alvo inicial e foi assim que caiu a ficha de que nosso produto não é só um objeto. As pessoas querem usar a marca Saravá e toda a mensagem que passamos”, afirma Monique, com otimismo.

Onde encontrar
Instagram: @saravabrecho
Facebook: Saravá Brechó
 
(*) Estagiário sob a supervisão de Flávia Duarte 
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