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Projetos acolhem membros da comunidade LGBT que são expulsos de casa

Muitos integrantes do movimento LGBT sofrem a mais dura das violências: a perda do direito de ser considerado um membro da família. Por isso, surgem iniciativas para acolher que foi rejeitado dentro da própria casa

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postado em 30/07/2017 08:00 / atualizado em 29/07/2017 15:39

Se por um lado a Câmara Legislativa do Distrito Federal anulou a lei anti-homofobia  — finalmente regulamentada pelo governador Rodrigo Rollemberg no mês passado, após 17 anos de espera —, por outro, a realidade dos grupos LGBT mostra a necessidade de medidas contundentes contra o preconceito. A despeito do descaso dos legisladores, brasilienses têm boas iniciativas para ajudar essas comunidades vulneráveis.
Minervino Junior/CB/D.A Press

Este ano, a capital se aproxima de duas conquistas: a construção da Casa Rosa e a fundação, em breve, do Centro de Cultura LGBT (leia mais em Lar da cor do amor e em Cultura da diversidade). Independentes uma da outra, a primeira tem por objetivo abrigar pessoas expulsas de casa por conta de sua orientação sexual ou por causa da identidade de gênero, uma situação, infelizmente, recorrente. A segunda é uma iniciativa do Instituto Cultura e Memória LGBT e é um espaço para aulas, palestras, workshops, além de ter uma biblioteca com obras sobre essas minorias e um acervo do trabalho de artistas pertencentes a elas. O governo, porém, não está envolvido em nenhuma das iniciativas.

Defendida na Universidade de São Paulo (USP), em março deste ano, a tese da terapeuta ocupacional Iara Falleiros Braga traz que a maioria dos entrevistados homossexuais relatam problemas com a família. “Os pais apresentaram atos violentos, além de postura heteronormativa, vigiando e controlando os filhos para que tivessem um comportamento heterossexual, correspondente ao sexo biológico. Uma vez que essa expectativa não era alcançada, a família expulsava o filho ou ele mesmo decidia sair de casa”, conta. Segundo Iara, um dos entrevistados chegou a dizer que, apesar de todo o preconceito que viveu na escola, os traumas maiores eram resultado de coisas vividas dentro de casa. “Eu tive uma infância insuportável, um período que eu tento apagar da minha cabeça”, ele contou.

Diretor do Instituto Cultura e Memória LGBT, Felipe Areda também é ativista, antropólogo, educador social e professor voluntário do Núcleo de Estudos da Diversidade Sexual e de Gênero na Universidade de Brasília. Ele  esclarece que, por muito tempo, o movimento LGBT focou em enfrentar as violências que acontecem no espaço público e deixou de lado as que ocorrem no ambiente doméstico.

“Basta ver a importância de ações de ocupação do espaço público, como as paradas LGBT. No entanto, a maior parte da violência contra esse grupo acontece justamente no espaço privado, dentro da família. Serviços de acolhimento lidam  com  a LGBTfobia familiar, além de afirmar os direitos socioassistenciais dessa comunidade”, diz. “Em todas as últimas conferências de assistência social no DF, o movimento LGBT (protagonizado por ativistas travestis e transexuais) reivindicou serviços de acolhimento para pessoas expulsas de casa e em situação de rua. Políticas de cultura e de acolhimento podem, e precisam, andar juntas”, acrescenta o ativista da causa.

Cultura da diversidade

Minervino Junior/CB/D.A Press
Ainda sem local definido, o Instituto Arte Memória LGBTdeverá funcionar na área central de Brasília, provavelmente no Setor Comercial Sul. “A escolha dessa região é para garantir a acessibilidade a pessoas de todo o Distrito Federal, além de defender e afirmar os centros urbanos como locais históricos de ocupação LGBT”, explica o antropólogo e diretor do Instituto, Felipe Areda.

“Nós temos uma história e temos direito à memória dela. Isso implica recuperar um legado”, afirma Areda. Para ele, um dos elementos constitutivos da LGBTfobia é que quando as pessoas se percebem parte desse grupo, e precisam se afirmar em suas famílias, geralmente têm poucos referenciais de outras pessoas na mesma condição.

“Muitas de nós se sentiram, em algum momento, como os únicos LGBT do mundo. Como é para uma menina lésbica adolescente, que acha que é a única lésbica do mundo, saber que Cassandra Rios publicou em 1946, aos 16 anos, seu primeiro romance de temática lésbica, e foi, durante décadas, a autora mais lida no país? Temos que recuperar e apresentar essas memórias”, reforça.

Criado em cima de um tripé — pesquisa, preservação de patrimônio e difusão cultural —, eles estão, atualmente, fazendo pesquisa para montar um acervo sobre a memória LGBT em Brasília no período da ditadura militar. Também dão cursos, como o que aconteceu no início do ano, de introdução à pesquisa da memória e história LGBT. Ainda este ano, pretendem ministrar o de teorias da cultura LGBT. 

Para a inauguração, os idealizadores do projeto estão na fase de busca de financiamento para viabilizá-lo até o fim do ano. No último PicNik, a mais importante feira da economia criativa da cidade, nos foram cedidos dois estandes para que venderemos produtos culturais e, assim, arrecadarmos recursos para a criação do Centro Cultural. Na ocasião, artistas LGBT e pequenas empresas geridas por LGBT doaram produtos para serem comercializados.

Felipe Areda conta que ele próprio tem uma trajetória marcada pela violência e pela necessidade de enfrentamento da mesma. “Em 2010, uma travesti amiga minha faleceu e foi um processo muito doloroso. Para mim, ficou nítido na época que vidas que não são estimadas não têm sua morte lastimadas. Direito ao luto é um privilégio que muitas LGBT não têm”, relembra. Segundo ele, olhar para a história e para a cultura produzida por LGBT tem uma função simples: falar para os jovens que eles não estão sozinhos. 

Lar da cor do amor

A Casa Rosa é uma iniciativa de Marcos Tavares, 50 anos. O sonho é antigo, uma vez que esse cuidador de idosos sempre abriga amigos e conhecidos que necessitam de amparo. recebe quem é expulso de casa e  quem precisa de um tempo para se estabilizar emocional ou financeiramente. É o caso de Francisco Fernando da Silva Ferreira, 24 anos. Ele conhece Marcos há cinco anos e está desempregado. Esta é a segunda vez que ele conta com a ajuda do amigo porque não tem condições de pagar o aluguel. “Sou do Maranhão e procuro em Brasília emprego e estudo. Quero ser decorador e o Marcos sempre me ajuda como pode”, emociona-se.
Minervino Junior/CB/D.A Press

Essa história de empatia começou na década de 1960, quando uma enfermeira do Hospital Regional de Sobradinho contou a um casal de vizinhos sobre uma criança abandonada pela mãe e quis saber se eles teriam interesse adotá-la. Logo, eles manifestaram entusiasmo pelo bebê e o levaram para casa. Em seguida, registraram e cuidaram dele, com proteção, amor e carinho. Assim, começou a trajetória de Marcos Tavares, idealizador da Casa Rosa, a primeira casa de passagem LGBT do Distrito Federal.

Na adolescência, em uma época cheia de ignorância sobre o diferente, a família adotiva de Marcos nunca entortou o nariz e tampouco renegou a homossexualidade do filho, mesmo o pai sendo policial militar. Hoje, aos 50 anos, vive no mesmo endereço, em Sobradinho I, onde será a sede da Casa Rosa. Nessa região, há muitos familiares de militares, assim como os de Marcos. Durante toda a vida,  ele viu os seus amigos seguirem um destino bem diferente do dele. Por conta da orientação sexual, viu gente ser expulsa de casa. “Graças a Deus, tenho uma boa família. Mas, infelizmente, presenciei esse tipo de coisa”, relata Marcos.

Marcos, ao contrário, teve permissão para se assumir. Houve um tempo, em que ele incorporava a identidade da personagem Camila Tavares, representante do seu lado artístico como drag queen. Irreverente, com maquiagens fortes e figurinos extravagantes e de humor incontestável, Camila fazia e acontecia na cena LGBT da cidade. Foi quando ele fez amizade com travestis e ouviu muitos relatos de dor, abuso e preconceito. 

Pensando nisso, e em todas as questões que envolvem a falta de amparo da comunidade LGBT, há 16 anos, Marcos sonha em construir uma instituição como casa de passagem, que abrigue, profissionalize e insira essas pessoas, em situação vulnerável, na sociedade.

Começou a pôr em prática o desejo em sua própria residência. Quando sabe, por redes sociais ou por boca a boca, que alguém precisa de um lugar para ficar, faz o convite para que essa pessoa passe um tempo em sua casa até que possa se estabilizar. “Dou o apoio que posso: moral e palavras de força.”

 Mas ele quer ampliar o espaço e construir uma sede definitiva. Para tornar a ideia realidade, no entanto, precisa de investimento e de planejamento. Ele trabalha como cuidador de idoso e ganha pouco mais de R$ 1 mil por mês. Daí, a importância de apoio moral e reforço financeiro.

No fim do ano passado, Marcos encontrou ajuda no Grupo Humanização, de ativistas LGBT. O coordenador, Hamsés Gomes, quando soube da proposta de oferecer um lar para quem foi expulso de sua própria casa, se animou a firmar uma parceria, justamente por notar a falta de empatia entre os próprios representantes do grupo LGBT. “Falta de humanização entre nós perante à sociedade. Eu percebi que, por conta da discriminação, exclusão e marginalização que a nossa comunidade passa lá fora, esse comportamento acaba se repercutindo entre nós e sendo reproduzido em nosso meio”, lamenta Hamsés.

No início deste ano, com o dinheiro que economizou durante a vida, Marcos começou a subir as estruturas da casa que fica em um lote de Sobradinho I. Ele diz que, após ter conhecido o Humanização, se conscientizou sobre a urgência desse projeto. 

Lá, ainda descobriu histórias de pessoas que também são expulsas de casa quando diagnosticadas com alguma doença sexualmente transmissível. “Há quem passe por isso neste exato minuto, e elas precisam de ajuda. Política e direitos são coisas que a gente pode esperar por anos, mas  a casa de passagem é uma necessidade de agora”, acredita Marcos.

Coordenador de Promoção de Direitos da Diversidade do Governo do Distrito Federal, Flávio Brebis fala que a primeira casa de passagem para pessoas LGBT em vulnerabilidade social do DF e entorno é de extrema relevância. Segundo ele, infelizmente, há muitos representantes desse grupo que são vítimas de violência — física, psicológica ou ambas — pelas próprias famílias. “Não temos como saber uma quantidade exata de pessoas que passam por tais abusos, mas não é raro ouvir casos de jovens expulsos por essas razões”, lamenta. 

Voar à força

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Aos 13 anos,  Kyara Zaruty da Silva, 29, em meio à puberdade, revelou à família que era homossexual. Conforme o tempo passava, percebeu que não se identificava com o sexo biológico. Era, sim, “uma mulher trans”, como gosta de se definir. Ou seja, ela tem como sexo de nascimento o masculino, porém, se vê como mulher. A família conservadora relutava em aceitar a homossexualidade dela. Quando, então, revelou a transexualidade, seu pai falou: “Eu não aceito você dessa forma. Ou você vive dentro da minha casa como homem ou vai viver na rua como mulher”.

Sem brigas nem delongas, apanhou as tralhas e partiu para o mundo aos 16 anos. Viveu em casa de amigos. Na transição — adaptação da identidade de gênero  — ainda conseguia emprego. Trabalhou como operadora de telemarketing e de cobrança bancária; como recepcionista de hotel e vendedora. “Quando eu realmente assumi ser mulher, as portas se fecharam e nunca mais consegui emprego”, conta.

Quando deixou Brasília, ainda na adolescência, viveu em circos. “Trabalhava como dançarina em banda de forró em São Luís, no Maranhão quando fui contratada por um deles dançarina. Eu me apaixonei pelo mundo circense”, conta. Tudo era atrativo, já que Kyara gostava de ser livre e queria viajar. No entanto, segundo ela, aquela vida não lhe trazia segurança. Na estadia, fazia número de lira americana — performance em argolas suspensas. Em uma dessas, caiu e fraturou a mão esquerda e a perna. Foi necessário colocar pinos e se locomover com cadeira de rodas. “Eles (os responsáveis pelo circo) não me deram nenhuma assistência”, relembra.

Depois do acidente, não quis continuar no palco. Em 2016, voltou para Brasília, porque, para ela, a cidade teria mais oportunidades de emprego. Mas há dificuldades para transexuais entrarem no mercado de trabalho. Kyara conta que participou de várias entrevistas e, em todas, contou sua verdadeira história, mas não foi chamada para preencher nenhuma vaga. Contra a própria vontade, teve que se prostituir para sobreviver. Fazia a divulgação em um site. “Isso foi durante três meses. Parei. Não queria isso para mim. Sou evangélica e deixei que Deus comandasse as coisas”, afirma.

Ela frequenta a igreja inclusiva Athos, no Conic — estilo de igreja que acolhe e aconselha pessoas LGBT nos cultos. Após ter deixado a prostituição, morou por pouco tempo com um casal de lésbicas. Depois de um impasse entre elas, precisou sair. Com o desespero, acionou os amigos da igreja para procurar outro lugar. Foi aí que conheceu o Hamsés, do Grupo Humanização, que a auxiliou na busca de um lugar para ficar. Encontraram o dono de uma loja de decoração e de festa. “Entramos em contato e ele me fez a proposta: moradia em troca de trabalho na loja dele, até eu ter condições de resolver a minha vida.” Foi com o Grupo Humanização que ficou interessada pela causa LGBT. Conheceu o projeto Casa Rosa, onde assumiu o cargo de coordenadora e responsável pela divulgação. Por todo histórico de vida, ela sonhava com uma casa como essa. “E se já tivesse uma casa de passagem LGBT, como a Casa Rosa, funcionando, eu estaria lá. Por isso, abracei a causa e faço parte da coordenação do projeto, dando visibilidade à história de mulheres e homens trans.” 
 

SERVIÇO

Faça parte dessa ação

Como a Casa Rosa está em construção, muita coisa ainda precisa ser feita. Quem quiser pode ajudar com doação de dinheiro, de materiais de construção e oferta de mão de obra.

É possível doar dinheiro para a seguinte conta bancária:
Agência 1041
Operação 013
Conta Poupança 000296-0
Caixa Econômica

Contatos:
Marcos Tavares: (61) 99220-3745
Hamsés Gomes: (61) 98194-7521
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