CAPA

Como uma homenagem ao dia deles, leitores escrevem cartas para os pais

Para o Dia dos Pais, a Revista lançou o desafio e os filhos toparam. Com palavras escritas à mão ou digitadas, expressaram o turbilhão de sentimentos existente na relação paterna

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 06/08/2017 08:00 / atualizado em 09/08/2017 14:24

Nas datas comemorativas, as redes sociais se enchem de declarações de amor. Dia dos Avós, Dia dos Namorados, Dia do Amigo… São muitos os momentos em que nos deparamos com os familiares e as pessoas queridas de nossos amigos virtuais. No próximo domingo, chega o momento de descobrir o rosto de diversos pais. A internet será tomada por fotos, vídeos, textos carinhosos e piadinhas bem-humoradas em homenagem a eles.
 
Há pelo menos duas décadas, porém, as formas de declarar amor em datas comemorativas eram um pouquinho diferentes. As cartas e os telefonemas funcionavam como  as principais ferramentas usadas para se comunicar, principalmente com os que estavam distantes. Mas quem disse que isso ficou no passado? Até alguns nostálgicos millennials — aqueles nascidos depois da década de 1990 — guardam caixas cheias de cartas de amor. As crianças também mantêm o hábito de escrever bilhetinhos e fazer desenhos para reforçar o amor, presentear com o que têm para oferecer e, claro, encher de lágrimas os olhos de muitos marmanjos.

Para resgatar o gostoso sentimento de receber um bilhete ou uma carta, a Revista convidou filhos a escreverem para seus pais e revelarem o que guardam dentro do coração. Sempre celebrando a diversidade e todos os tipos de amor e família, buscamos diferentes tipos de pai. O pai solo, a família com dois pais, o pai ausente, o pai que se foi e deixou saudades… Uma inspiração para aqueles que também desejam se declarar ao primeiro homem de sua vida.

Amor invencível

Não é possível saber se ele entende tudo o que é dito ao seu redor, mas, ao posar para as fotos desta reportagem ao lado do filho, Haile José Kaufmann, 80 anos, sorri e começa a cantarolar. Feliz pela reação e pelos risos espontâneos do pai, o administrador Gustavo de Oliveira Kaufmann, 37, quase não consegue controlar a emoção enquanto conta a história da família.
Minervino Junior/CB/D.A Press

Há seis anos, Haile e a esposa estavam em Buenos Aires, comemorando o aniversário de casamento, como faziam quase todos os anos. A celebração, porém, transformou-se em um dos momentos mais difíceis vividos pela família. Por volta das 22h de uma sexta-feira, Gustavo recebeu uma ligação assustada da mãe. Haile havia sofrido um derrame na Argentina e ela precisava de auxílio.

Gustava lembra que, naquele momento, entrou no automático. Ligou para os dois irmãos mais velhos e começou todos os preparativos para a viagem. A família precisou alugar uma casa no país, onde permaneceu por mais de um mês. Quando puderam, todos voltaram a Brasília para continuar o tratamento de Haile.

Como sequela, o patriarca apresenta afasia global, ou seja, perdeu todas as capacidades de linguagem, como compreensão, fala, leitura e escrita. Apesar do diagnóstico, Gustavo, a mãe e os irmãos continuam a conversar com Haile, como se ele pudesse compreendê-los. “Esperamos que ele consiga entender pelo menos um pouco e fazemos o máximo para manter a convivência com ele o mais normal possível”, afirma. Em diversos momentos, como quando era fotografado para a reportagem, Haile sorri e demonstra estar se divertindo com a experiência.

Gustavo conta que a celebração do Dia dos Pais permanece inalterada. “Todos os pais da família se reúnem na casa da minha avó. Fazemos questão de manter a tradição para que ele esteja sempre com as pessoas que o amam.” Emocionado, o administrador conta que precisou escrever a carta pedida pela Revista de madrugada. “Não conseguiria fazer com ele perto de mim. Sozinho, já foi difícil. Com ele, não ia parar de chorar.”

Filho caçula, Gustavo conta que sempre foi muito grudado no pai. “Somos muito parecidos. Ele sempre queria saber da minha vida, das minhas coisas. Nossa união sempre foi especial e, hoje, que estou me preparando para mudar para meu apartamento, o coração até aperta. Vou estar aqui todos os dias para vê-lo.”

Diagnosticado com esclerose múltipla, Gustavo reformou o apartamento e o transformou em um ambiente totalmente acessível e adaptado. “Eu digo para todo mundo que é para me preparar para o meu futuro, mas, no fundo, eu fiz essa reforma pensando nele também. Quero poder levá-lo para passar um tempo comigo lá em casa, e quero que seja um ambiente que possa dar conforto para meu pai”, confessa.
Arquivo pessoal

Olhando para o pai com amor, Gustavo dispara: “Se eu pudesse dar um conselho para pais e filhos, seria aproveitar muito bem o tempo juntos. Os filhos precisam drenar todos os ensinamentos possíveis de seus pais e valorizar a experiência de vida deles, pois, no fim, descobrimos que eles quase sempre estão certos”. 

De: Gustavo Kaufmann

Para:  Haile José Kaufmann

Brasília, 27 de julho de 2017

Sabe, pai, quando deixei você e a mãe no aeroporto, naquela madrugada de março de 2011, minha ideia era voltar em uma semana para buscá-los. Não deu. Em vez disso, fui surpreendido, três dias depois, com uma ligação nervosa da mamãe pedindo para que fôssemos (eu, o Marcus e o Rodrigo) ajudá-la em Buenos Aires, porque você tinha sofrido um acidente. Como assim? Que acidente? O que aconteceu? Um AVC.

Eu ainda tenho na minha primeira gaveta as anotações apressadas que fiz, pesquisando o hospital em que você estava, para onde teríamos que ir, todas as informações que podiam, de alguma forma, ajudar a gente a te achar. E achamos. E praticamente nos mudamos pra Buenos Aires até conseguirmos te trazer de volta e nos mudarmos para um hospital aqui, perto de casa.

No hospital, nós conversamos bastante (eu falava sem parar). Depois de uns meses, você voltou a comer, voltou para a nossa casa e continuou sua recuperação aqui.

Eu não sei o quanto você consegue nos ouvir, consegue entender ou até mesmo se sabe quem somos. Mas não se preocupe, aqui em casa nós sabemos exatamente quem é você, porque está aqui, e o quanto é importante para nós. Ainda tem muita coisa pra você aqui, pai. Seus netos estão crescendo, suas telas e pincéis estão prontos para serem usados novamente, sua raquete de tênis está no mesmo lugar. Algumas coisas mudaram aqui em casa, mas a sua cadeira de leitura na varanda está lá te esperando. Lembra da tela que você prometeu pintar para eu colocar na minha casa nova? A casa já está pronta e a parede está vazia, esperando sua pintura.

Quanto a você pai, para mim, nada mudou. Você é e continua sendo meu exemplo de retidão na vida, no trabalho, nas atitudes. Você é o norte que buscamos, eu e meus irmãos, nos momentos em que precisamos de um conselho ou até de um puxão de orelha: “O que o papai diria disso?”, é o que nos perguntamos. Nas nossas viagens, é impossível não lembrar das risadas com a sua mania de ser nativo: “Vão vocês por aqui e a gente se encontra lá na frente!”

É por isso que, no Dia dos Pais, o presente quem dá é você! Você está aqui com a gente, participando da nossa vida, rindo com a gente, e é isso que vale. Eu (nós) te amo, pai, e isso eu tenho certeza que você entende.
 

A sorte de ter dois pais


Depois de sete anos de um casamento convencional, Edcharles Severiano, 34 anos, finalmente realizou o sonho da paternidade. Com Pedro Henrique no mundo, a vida do mais novo pai havia acabado de ganhar sentido. Apesar de muito feliz pela família que conquistou, o assistente de recrutamento de seleção e estudante de psicologia começou a enxergar seu verdadeiro eu. Quando o filho completou 1 ano, juntou forças para se separar da mulher e assumir a homossexualidade. A caminhada, nem sempre fácil, fez Edcharles enxergar no filho a chance de ser feliz sendo ele mesmo e tendo o apoio de quem ama.

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
Por algum tempo, foram apenas os dois contra o mundo. O pai sempre fez questão de estar por perto e auxiliar o filho de todas as formas. No colégio, não faltava às reuniões e o buscava sempre que possível. Quando Pedro Henrique queria ir ao cinema ou ter uma refeição especial, Edcharles não hesitava. O laço entre pai e filho só crescia com o passar do tempo.

Enquanto alguns não tiveram a sorte de ter um paizão especial, hoje, aos 8 anos, Pedro Henrique tem a chance de compartilhar o seu amor também com um “novo pai” — o companheiro de Edcharles, Marcos. “Eu cresci sem meu pai presente e enxergo a fortuna que meu filho tem em mãos ao ter nós dois o apoiando e caminhando ao seu lado o tempo todo.”

O casal nunca escondeu a relação de Pedro Henrique. Devido ao apego e à convivência com o pai, ele sempre entendeu e respeitou a vida dos dois. Parece destino, mas quando o cônjuge de Edcharles, o biomédico Marcos Antônio Aragão, 27, foi apresentado à criança, há três anos, o amor foi à primeira vista. “Desde que veio ao mundo, meu filho foi minha prioridade. Mas eu tive muita sorte, porque eles se tornaram grandes amigos e há muito carinho entre os dois.”

O filho, sorridente e feliz por estar entre os dois, não nega a alegria em ter Edcharles e Marcos como espelhos. “Eu amo os dois. Amo sair com eles, assistir a filmes e brincar”, conta Pedro Henrique. Entre os benefícios de não ter somente um, mas dois pais, ele confessa que a cumplicidade existente é o melhor. “Quando eu faço bagunça, o tio Marcos me ajuda a arrumar tudo antes de o papai chegar”, brinca.

A família gosta de curtir o tempo livre em casa. A programação favorita é juntar todos no sofá, estourar pipoca e mergulhar em um universo novo a cada filme. Na casa do pai, o filho tem a liberdade de ser o que quiser, contando com a ajuda de Edcharles e Marcos, que fazem questão de estar sempre por perto, orientando o melhor caminho. Para Edcharles, ser pai é ser um alicerce, é ajudar a construir o caráter de uma pessoa. “É o filho poder olhar para o pai e ver um exemplo. É querer ser a melhor versão de nós mesmos por causa dele.”

Para Marcos, a chance de ser pai caiu de paraquedas no colo. Desde jovem, com a homossexualidade assumida, a possibilidade de exercer a paternidade parecia algo distante. E, antes mesmo de considerar métodos alternativos para realizar o sonho, a vida o presenteou com um filho para lá de especial. “Logo quando o conheci, eu me apaixonei. Eu me sinto muito realizado por tê-lo na minha vida. O carinho é imenso”, relata emocionado.

Hoje, a relação é cercada de atitudes e sentimentos bons, mas principalmente, de gratidão — do pequeno, por ter dois pais que o amam tanto; de Edcharles, pela chance de ter um filho tão especial; e de Marcos, por poder abraçar a paternidade.

De: Pedro Henrique

Para: Edcharles Severiano e Marcos Antônio Aragão

“Te amo pai, te amo tio Marcos. Beijão! Obrigado por cuidarem de mim. Amo vocês! Eu gosto de brincar, ajudar, jogar futebol. E eu gosto do tio Marcos porque eu sujo tudo e o tio Marcos limpa. E meu pai porque me leva para sair. Te amo.”
 

Presente na ausência

“Eu achei um diário dele, da época em que foi internado para se tratar do alcoolismo. Lá, tinha escrito: ‘Coisas que eu preciso melhorar’. Em primeiro lugar, estava a família.” A caligrafia torta das letras escritas naquele caderno revelava o sonho pelo qual Francisco Juraci mais batalhava: ser uma pessoa melhor para a esposa e os quatro filhos, como conta o estudante Marcos Ferreira, 20 anos.

A luta contra o vício da bebida se encerrou há 17 anos, quando o policial civil de 40 anos foi colocado para fora de um bar e acabou atropelado na rua, por onde andava sem equilíbrio. Marcos tinha 3 anos quando aconteceu o acidente, o que o deixou sem muitas lembranças do pai. Passou a contar apenas com o que ouvia dos familiares e via nas fotografias.
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

O homem, descrito como a pessoa que sempre estava com um violão na mão e um sorriso no rosto, não conseguiu afastar o álcool, companhia próxima desde os 13 anos, mas outra batalha, que ele fazia questão de travar, foi vencida. Francisco não queria que seu erro fosse exemplo para nenhum dos quatro filhos e se escondia, bem longe de casa, após noites de bebidas. Era rigoroso para que o álcool não entrasse em seu lar e tentou dar todas as condições para que Marcos e os irmãos tivessem uma história diferente. “Ele procurou deixar influências boas por onde passou, e se preocupava muito com o que ia acontecer depois, embora o futuro não tenha chegado para ele”, reflete o estudante.

À medida que o tempo ia passando para Marcos, surgiam experiências em que seu pai não poderia estar presente, como as comemorações do segundo domingo de agosto: “Todo ano, havia na escola a homenagem de Dia dos Pais e eu nunca queria participar. Não porque eu guardava rancor, mas porque eu pensava: ninguém vai vir. Só que me faziam participar de qualquer jeito. Às vezes, quando dava, minha mãe aparecia. Mas você via aquele tanto de homem e minha mãe no meio. Algumas vezes, não ia ninguém. Nesses momentos, você sente falta, porque criança ainda não tem maturidade para lidar com isso.”

Aprender a encarar situações como essa foi possível depois de muito diálogo, como quando a mãe, Dalva Helena, 54 anos, sentou com os filhos, já mais velhos, para contar sobre o motivo do acidente de Francisco e de seu vício. Hoje, o jovem olha para trás com a sabedoria de quem encara a privação paterna há muitos anos, apesar de ela não ser uma completa ausência.

Francisco está em cada livro deixado na estante vasta de conhecimentos diversos, acumulados durantes cada um dos quatro cursos de graduação incompletos; na conta bancária deixada antes de morrer, com a quantia que pagou todas as despesas da carteira de motorista de Marcos; na família de cinco pessoas amadurecidas pela cicatriz da perda. E na afirmação do rapaz: “Eu costumava falar: ‘eu não tenho pai’. Mas eu tenho. Ele ainda é meu pai, ele que me colocou no mundo. Eu posso não o ter conhecido, mas ele é meu pai”.

De:  Marcos Ferreira Prudêncio

Para:  Francisco Juracir

Obrigado, pai. Embora tenha ido muito cedo, minha gratidão pelo que deixou neste mundo é eterna. Obrigado, mãe, por exercer, há 17 anos, esse papel. Deixo aqui, para quem quiser saber, a minha experiência. Aproveitem o Dia dos Pais, sejam eles seus pais, mães, irmãos, tias ou avós. Todos podemos ter esse privilégio. Independentemente das circunstâncias, nunca deixamos de ser filhos de alguém.
 

No papel de pãe

O Dia dos Pais tem um significado especial para o servidor público Messias Salatiel Ramos, 49 anos. É nessa data que ele recebe das filhas as homenagens especiais por ter sido pai solo e nunca ter permitido que as filhas se sentissem menos amadas pela ausência da mãe. Há 12 anos, após a morte da esposa, Messias passou a ser pãe — pai e mãe — das irmãs Débora Ramos, 19, e Laís Marques, 22.

As meninas tinham 7 e 11 anos, respectivamente, quando Messias precisou olhar as filhas no fundo dos olhos e contar que Kelly, mãe das crianças, não estava mais entre eles. O momento difícil culminou em muitas lágrimas e abraços. Foi a partir daquele dia que souberam que a formação familiar seria alterada, mas que a união entre eles e o cuidado e dedicação do pai estariam sempre presentes.

“Criamos um amor construído no cotidiano e baseado na confiança de que estaremos unidos em todos os momentos”, afirma Débora, que foi aprendendo, no dia a dia, a lidar com a nova configuração familiar. Para a estudante, um dos principais aprendizados foi perceber que o pai se esforçava muito para que elas seguissem sempre o melhor caminho, mantendo a cabeça erguida, independentemente de qualquer situação.
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

As aulas de Débora começaram um mês após a perda da mãe e, todos os dias, quando o pai a deixava na porta da sala, ela chorava e o abraçava. “Muito atencioso e paciente, ele me levava até o pátio da escola e ficava abraçado comigo até eu conseguir parar de chorar”, recorda-se.

Messias se esforçava para suprir a ausência da figura materna na vida das filhas. Atividades que na sociedade costumam recair sobre as mulheres se tornaram as maiores prioridades do servidor público. Pentear os cabelos das meninas, preparar os lanches do colégio, participar de todas as apresentações escolares, tanto as do Dia dos Pais quanto as do Dia das Mães, frequentar reuniões, costurar uniformes rasgados, passar noites em claro quando as filhas estavam doentes e disciplinar quando necessário. Messias assumiu a criação integral das filhas. O resultado foi a formação de um vínculo ainda mais forte após a dor da perda.

Para Messias, tão importante quanto os aspectos práticos da vida, era necessário preparar as filhas para o mundo, levando a sério o desenvolvimento moral e intelectual das duas. O lazer não foi esquecido e as meninas ressaltam o quanto tiveram uma infância rica de experiências. O pai as levava para fazer compras no shopping, dormir na casa de amigas e para a chácara do avô, entre uma série de outras atividades típicas dos brasilienses, como passear no Parque da Cidade e viajar para Caldas Novas. “Nós nos divertíamos muito, principalmente por ter a companhia de primos das nossas idades”, ressaltou Laís.

Cerca de 11 meses depois da morte da mãe das garotas, Messias se casou novamente. A madrasta passou a morar com a família e assim vivem até hoje. A maior parte dos parentes ficou ainda mais próxima de Débora e Laís para tentar suprir a carência que a falta da mãe acabava causando. “É claro que nós sentimos saudade da nossa mãe, porém, o apoio da família ao nosso redor sempre foi maravilhoso e nos ajudou muito nesse sentido”, conta Laís.

Um dos maiores orgulhos de Messias foi a educação que deu às filhas. Uma estuda direito e a outra, enfermagem. O pai sempre comenta com os amigos sobre a trajetória de Débora e Laís. “Papai sempre diz que nos deu o melhor presente: a educação, que é a ferramenta para se desenvolver da melhor maneira no mundo”, destacam.

Outra grande herança que o pai vai deixar para as filhas é a demonstração constante do amor e dos sentimentos. Ele não passa um dia sem abraçar as jovens, dizer que elas são a razão da sua vida e que o fazem uma pessoa melhor. O “eu te amo” também é uma tradição diária. A família não deixa de ressaltar o aprendizado constante entre eles. “Aprendemos muito com ele e vice-versa. Uma das características mais marcantes do nosso pãe é ser protetor, e isso nos faz sentir sempre seguras”, enfatiza Laís. “Agradeço por ter um pãe que me ensinou que minha capacidade é superior aos meus limites, que o amor-próprio vem em primeiro lugar e que ler é a melhor coisa do mundo”, diz Débora.

De:  Débora Ramos e Laís Marques

Para: Messias Salatiel Ramos,

Eu e Laís temos muito a agradecer por todo amor, paciência, renúncia, carinho e afeto recebidos durante todos esses anos e os que virão. Compreendemos que nem sempre é fácil ser uma família unida, cada um possui suas particularidades e problemáticas. Sendo assim, todo dia que nasce se apresenta cheio de desafios, mas, na maioria das vezes, escolhemos enfrentá-los juntos e da melhor forma possível, auxiliando um ao outro da maneira que podemos.

Você sempre procura acalmar nossas angústias, secar as lágrimas, diminuir as dores e nos dar a certeza de que o próximo dia será melhor. Pai, você nos deu a vida e segue nos nutrindo com sua sabedoria e seu amor. Como um Sol em nossa família, você traz luz e alegria a todos. Você nos aquece com palavras, chás e sopas deliciosas. Saiba que o amamos por ser nosso maior entusiasta, por acreditar em nós, mesmo quando falhamos, por vibrar a cada conquista, mesmo que pequena, e por essa reciprocidade que se manifesta no olhar. Que nossa família nunca pare de buscar a harmonia, a concórdia e a união todos os dias.

Feliz dia dos pais!

Um amor que poderia ter sido

Minervino Junior/CB/D.A Press
Com muita tranquilidade, Natália, 23 anos, afirma não saber a aparência ou as características do pai. Na última vez em que eles se encontraram, ela tinha apenas 7 anos. Aos 9, ele a assumiu no papel e passou a pagar pensão. Aos 10, quando ela sofreu uma convulsão, o pai foi informado pela mãe. Aos 14, ele a viu por fotos. E, aos 19 anos, soube que Natália havia entrado na universidade. “Pedi que minha mãe contasse. Não sei explicar muito bem o porquê, mas acho que foi um pouco de orgulho. Uma forma de mostrar a ele até onde eu tinha chegado, mesmo sem a figura paterna”, considera.

A pouca chance de ser reconhecida pelo pai biológico fez com que Natália aceitasse contar a sua história. O sobrenome e o nome da mãe, no entanto, foram ocultados para evitar uma exposição do homem que carrega a alcunha de pai em sua carteira de identidade. Apesar de ter passado quase a vida inteira sem a presença paterna, a jovem garante não considerar a questão mal resolvida. “Eu não posso dizer que não me afeta ou me afetou ao longo dos anos, mas não tenho problema em falar sobre o assunto. Também não guardo sentimentos ruins dentro de mim, não desejo mal a ele.”

Diante da proposta de escrever uma carta para um pai que não conhece, Natália ficou surpresa. “Falar sobre a minha vida e a minha vivência sem um pai acaba sendo uma forma de empoderar a minha mãe. Um jeito de mostrar o quanto ela foi forte e o quanto se dedicou a mim, me fazendo também uma mulher forte. É claro que um pai fez falta em certos aspectos, mas a mãe maravilhosa que eu tenho e tive fez a minha vida plena. Eu confesso que nunca pensei no que diria a ele e, por isso, demorei um pouco para escrever essa carta.”

Entre as lacunas que ainda rondam a cabeça da jovem, surge a questão da ancestralidade. A comparação com uma tia que nunca conheceu, a possibilidade de os irmãos saberem da sua existência e as características físicas que não enxerga na família da mãe são algumas conjecturas que passam pela cabeça da universitária. “Não sei muito bem o que aconteceu no passado e o que resultou nesse afastamento. Algumas vezes, imagino que, quando pode, ele deposita um dinheiro além da pensão. Talvez seja a forma de demonstrar algum tipo de preocupação.”

Vez ou outra, ela também se pega imaginando: “Já posso ter passado ao lado dele”. O pensamento pode até suscitar um sentimento de ausência, mas Natália é categórica ao dizer que a mãe e os tios nunca permitiram que nada faltasse a ela. “Principalmente, amor.” 

De: Natália

Para: o pai biológico

Já não te espero para o Dia dos Pais,
no natal você não vem… no ano-novo, “tudo novo de novo”, mas espera…
não. O mesmo.

Tempo vai, tempo vem... Os ventos mudaram. A menina cresceu. Não pergunto sobre você e tampouco falo
o seu nome. Mas, às vezes, questiono onde você está, é verdade.
Como te (re)conhecer?

Está tudo bem, não se preocupe.
Amor nunca me faltou. Eu sou
muito privilegiada. Hoje eu sei. Transbordo… luz!

A maturidade dos meus “vinte e
poucos anos” me fez entender
que o passado também contribuiu
para o meu ser. Mas não olho mais
para trás. Apenas agradeço.

Para frente. Sempre.
Eu te perdoo e te liberto.
Seja feliz!
Eu te quero feliz!
* Estagiários sob supervisão de Sibele Negromonte
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.