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Na sexta década da vida, idosos provam que a idade é apenas um número

Definido oficialmente pela Organização das Nações Unidas como pertencente ao grupo da terceira idade, quem passou da sexta década de vida prova que ainda dá tempo de estudar, amar, recomeçar e reaprender

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postado em 13/08/2017 08:00 / atualizado em 14/08/2017 17:37

O riso frouxo e o jeito de menina escondem os 62 anos bem vividos de Valéria Cabral. Quem a vê dificilmente imagina que, há cinco anos, após o falecimento do marido, ela teria que se reinventar e reaprender a viver sozinha. Foi preciso que essa senhora de alma muito jovem superasse a timidez e enfrentasse a nova rotina com força e alegria. Agora, ela se divide entre a academia, os passeios e as viagens com as amigas. Tudo isso, sem faltar tempo para colorir os lábios e providenciar um belo penteado.

Para quem antes tinha o costume de ter o marido sempre por perto e sequer se imaginava sozinha, foi um choque encarar o mundo sem a companhia do amado. “Passei os primeiros 10 meses muito para baixo. Todos os planos que tínhamos não seriam mais possíveis e não sabia por onde começar”, conta. Hoje, com o incentivo dos três filhos já crescidos, Valéria tem como grande paixão conhecer o mundo: pelo menos uma vez por ano, a viagem com os amigos está garantida. “Já fomos para a Croácia, a Itália e o próximo destino é o Alasca. Somos todos aposentados, temos independência financeira e tempo livre. Tudo fica mais fácil.”

Durante a vida, Valéria teve amigos, mas nunca companheiros como hoje. Casou-se cedo e se dedicou ao cuidado da família, mas, agora tem a oportunidade de desfrutar novas amizades. Tudo isso graças ao grupo de amigas do trabalho com as quais estreitou relações e conquistou um espaço na vida pessoal delas. São raros os dias em que elas não se encontram e as programações atendem a todos os gostos: cinema, teatro, café e shows. Felicidade também tem de sobra! “Eu tenho uma alegria de viver que ninguém imagina. Eu me sinto muito feliz. Eu não tomo nem um remédio e minha mente é muito jovem. Estou em uma fase ótima da minha vida e tenho consciência de que é a nossa cabeça que nos guia”, celebra Valéria.
 
Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A. Press
A aposentadoria foi mais um motivo para tanto tempo livre, com poucas obrigações. Assim, foi necessário preencher o vazio da rotina fora do trabalho com coisas que lhe trouxessem satisfação. Valéria apostou no inglês e no francês. Ela faz parte da taxa de 14,6% de pessoas com 60 anos ou mais no país que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), são pertencentes ao chamado grupo da terceira idade. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em Brasília, eles representam 11,2% da população, um número equivalente a 339 mil pessoas.

A psicóloga Socorro Torres acredita que, muitas vezes, não estamos tão preparados para a aposentadoria. Enquanto está no trabalho, há uma enorme energia direcionada para aquilo. Quando não existe mais essa obrigação, ainda há muita disposição, mas, dessa vez, sem um foco para guiar-nos. A partir daí, segundo a especialista, muitas portas são abertas para a depressão, para a ansiedade ou para outras doenças oportunistas. “As pessoas têm a ideia de que a terceira idade os condena ao sofá e à tevê, mas não precisa ser assim. Temos de entender que é uma nova fase e que, primeiramente, é preciso estar aberto para aquilo que ela tem a oferecer”, recomenda.

Socorro ressalta que é de importância vital manter laços com novas pessoas e ser ativo. “No trabalho, é comum vincularmos amizades com a vida profissional. Quando termina, notamos que não nos programamos para a vida fora dali”, diz. De acordo com a profissional, ter a oportunidade de conviver em grupo com pessoas da mesma idade possibilita a troca de experiências que antes eram desconhecidas. “É momento de dar continuidade a coisas que são deixadas de lado por causa de trabalho ou filhos, por exemplo”, aconselha. 

Ainda é tempo de crescer

Minervino Junior/CB/D.A Press

Muita coisa mudou desde que era nova. Joana dos Santos, 62, vivia para trabalhar e criar os filhos. A vontade de aprender e conhecer as coisas que o mundo tinha a oferecer sempre foi enorme, mas lhe faltava tempo. Aos 50 anos, a chegada de uma pequena depressão a fez notar que era necessário mudar. Com o incentivo dos filhos, a ex- empregada doméstica terminou os estudos e ingressou em uma caminhada repleta de novos aprendizados. “Descobri que a vida não pode parar. Depois de certa idade, não conseguimos mais trabalhar direito, mas vi a chance de me dedicar ao meu crescimento pessoal e ainda me entreter.”

Quem vê o jeito tímido não imagina a vontade que aquela senhora baixinha tem de viver: ela já fez curso de informática e agora divide seu tempo entre as aulas de inglês e de teclado. A costura também ganhou espaço na agenda. Além de produzir algumas peças para o próprio armário, Joana faz trabalhos para fora. “Parece que, depois que passamos dos 60, ficamos ainda mais animados para fazer as coisas. Tenho tempo livre e ânimo de sobra.” Com a vontade de sempre dar um passinho a mais, seu objetivo, agora, é estudar e ganhar o mundo com um curso de moda. Há três anos fazendo o Enem, não pretende parar até chegar lá.

No seu histórico de vida, Joana carrega muitas aventuras. Quando trabalhava para uma família de diplomatas, teve a oportunidade de conhecer vários lugares do mundo. A Grécia foi um deles. Lá, teve seus filhos e aprendeu um pouco da língua. O brilho no olhar e o anseio pela vida motivam qualquer um que converse pelo menos cinco minutinhos com Joana. Ela fala de suas paixões pelo esporte e pela cultura e não deixa de dar valor às oportunidades que a rodeiam. “Todas as atividades que faço têm um significado importante. Quando estou sozinha, gosto de tocar teclado para me animar e espantar a solidão”, afirma.

Seu grande prazer é estar entre pessoas felizes, que combinam com o seu astral. “Não tenho do que reclamar”, garante.

Segundo a psicóloga Isabelle Chariglione, a depender do ponto de vista, a vida pode começar na terceira idade. Ela observa que a qualidade e a expectativa de vida do brasileiro aumentaram significativamente. “O idoso de algumas décadas atrás já não mais corresponde ao de atualmente, ainda tão cheio de vida, de saúde e de desejos.” Isabelle ressalta que essa longevidade é uma conquista da humanidade. Devemos aproveitá-la e vivê-la plenamente. “O Brasil tem um número significativo de octogenários e centenários. Então, a pergunta para os que chegam aos 60 anos seria: ‘O que você pensa em fazer nos próximos 10, 20, 30 ou 40 anos?’ Com certeza é algo que podemos planejar e pensar qual seria a melhor maneira de viver estes próximos anos, que podem ser de finalizações de alguns ciclos, mas de descobertas de outros também”, destaca.

Agora é que são elas

Carlos Vieira/CB/D.A. Press
 

Quem também viu na aposentadoria a oportunidade de fazer coisas nunca feitas antes foi Darcy Fonseca, 74. A idade não deixou abalar a vontade de jogar o esporte dos sonhos. Aos 50 anos, com os filhos criados e a vida bem resolvida, finalmente chegou seu momento de brilhar. Maquiada e muito bem cuidada, quando entra na quadra de vôlei, ninguém acertaria na idade que tem. “Passei a vida preocupada com a família e não tinha tempo para mim. Quando me aposentei, eu me senti livre e fui fazer o que sempre quis. Hoje, ainda me sinto jovem e realizada.” Apesar da inexperiência, com treino e força de vontade, a paixão acabou abrindo portas para uma vida completamente diferente: novas amigas, muito vôlei e pé na estrada.

Foram as Damas do Vôlei que abraçaram Darcy em sua nova jornada. O grupo faz parte da Associação Brasiliense de Vôlei Master, que surgiu em 2009 e reúne mulheres de 50 a 75 anos. Todas têm em comum a fome de jogar. Ali, elas encontram disposição de sobra e muita alegria para compartilhar. Fora da quadra, a amizade é para a vida toda. Mas, quando toca o apito, o assunto é sério e não gostam de perder nem no par ou ímpar.

Para a coordenadora do Damas do Vôlei, Girlene Padilha, 66, o grupo é um incentivo para compartilhar experiências e evitar a solidão, comum à idade. Elas se reúnem duas vezes na semana, com direito a viagens para os campeonatos. “A melhor coisa é conviver com as meninas e jogar. Levamos tudo muito a sério, mas também sabemos nos divertir. Estamos sempre conversando e saindo juntas.” Além disso, para as sexagenárias com ar tão jovial, é um orgulho dividir o vôlei com a ocupação de ser avó.

Em estudo, recentemente realizado pelo mestre em gerontologia Elias Rocha de Azevedo Filho, com 119 idosos nos Pontos de Encontro Comunitário (PECs) do DF, 74,8% dos idosos que afirmavam fazer atividade física não tinham sinais de depressão. Um índice que, para a psicóloga e professora da Universidade Católica de Brasília Isabelle Chariglione, é bem acima do comum caso fosse analisada a população em geral ou idosos em situação asilar, por exemplo.

O treinador da equipe, Rodrigo Figueredo, afirma que a idade cronológica é o que menos interessa na quadra. “É preciso ter muita coordenação motora, já que a bola não pode cair no chão. Trabalhamos o corpo de cada uma de forma individual. No seu ritmo, qualquer pessoa pode começar, pois jogamos pelo prazer.”

Médico geriatra do Hospital Brasília, Thiago Rodrigues concorda quanto ao ritmo dos exercícios e reforça que a atividade física traz inúmeros benefícios, como prevenir e ajudar no combate a doenças — hipertensão, derrames, varizes, diabetes, osteoporose, ansiedade, depressão e problemas no coração e pulmões —, além de melhorar a força muscular, diminuindo o risco de quedas e facilitando os movimentos dos braços, pernas e tronco.

Outro ponto positivo da prática de exercício na terceira idade, segundo o especialista, é a redução do consumo de remédios e o aumento da autoestima. “É preciso se manter ativo não só pelo ganho muscular, mas também pelo exercício intelectual. Se o cérebro não é usado, ele tende a atrofiar, então, é interessante aprender coisas diferentes, fazer viagens e novas conexões. Isso faz toda a diferença.” E as Damas do Vôlei são um excelente estímulo. “Elas são todas garotinhas”, brinca o treinador.

Assim como Darcy e Girlene, os olhos da administradora de empresas Maria Ângela Marini, 66, brilham quando o assunto é o vôlei, a paixão de sua vida. “Pratico o esporte desde criança e nunca achei que, depois dos 50, poderia me sentir como uma adolescente, disputando campeonatos e fazendo novas amigas.” Ela quase não acreditou quando descobriu o grupo e percebeu que ainda tinha condições de participar de algo tão especial. Há 16 anos, Maria Ângela faz do Damas do Vôlei um pedacinho da sua família. Além disso, o esporte funciona como um escape para o dia a dia corrido, quando assume o papel de mãe, esposa, profissional, voluntária e avó de cinco netos.

Com a força de vontade e o incentivo da família, não há espaço para a tristeza ou para os sintomas físicos e emocionais que podem acompanhar a idade. Estar ativa e na companhia de pessoas queridas a faz apreciar cada dia mais a vida. “São amigas que participam, inclusive, da minha vida pessoal. Elas me fazem bem em todos os sentidos. É como uma terapia”, conta. Para a administradora, o contato com o grupo traz crescimento pessoal, pois foi preciso reaprender a perder, a ganhar e a levar em consideração pequenas impaciências, resultado da convivência. Agora, a vontade é se aposentar para poder dedicar mais do seu tempo ao esporte. “Eu me sinto bem, livre e jovial. Os 66 anos, só no registro de nascimento.”
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