Curso para príncipes e princesas diminui a exclusão de crianças carentes

Especialista em cerimonial de protocolo e etiqueta dá aulas de boas maneiras para crianças em situações de risco social. Mudanças de hábitos reforçam a autoestima e aumentam a confiança da garotada

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postado em 20/08/2017 08:00 / atualizado em 19/08/2017 22:02

O requinte da nobreza durante a Idade Média agregava maneiras de diferenciá-la da plebe. Roupas, comidas, utensílios, tudo de alto padrão para manter a distância entre as classes. A etiqueta social, a postura e as boas maneiras usadas pelo rei Luís XIV da França, no Palácio de Versalhes, são exemplos mais notáveis de separar os “civilizados” do povo “bruto”. Hoje em dia, muita coisa mudou, porém, a postura, costumes imepcáveis continuam, muitas vezes, remetidos a quem teve acesso a uma boa instrução. Pensando nisso, a mineira Ozaina Barros Cruzeiro quebrou essa concepção e criou o curso Etiqueta Social, Postura e Boas Maneiras Para Príncipes e Princesas, para permitir que crianças carentes aprendam as regras para se comportar em público e em ambientes mais formais.

Formada em letras e com especialização em cerimonial de protocolo e etiqueta, ela sentiu, a partir de um incômodo pessoal, a vontade de dar cursos nessa área. “De tanto observar, no meu convívio social, atitudes inadequadas, comecei a pensar em ensinar algo sobre o tema”, comenta a autora do livro Etiqueta para crianças — Com licença, posso falar?

Começou ministrando o curso para adultos, mas percebeu que precisava voltar sua atenção também para as crianças. “Não é só porque elas são pequenas que não precisam saber quais são as maneiras corretas de se comportar socialmente”, diz. Ozaina reforça que eles não precisam ser ricos nem ter roupas de grife, tampouco usarem coroas para serem príncipes e princesas. Serem gentis, elegantes e educados já basta para ganhar o título de nobreza.
 
 
 
Cada turma reúne 15 crianças que podem pagar pelo aprendizado, mas ela disponibiliza três vagas para bolsistas que não tenham condições de pagar, como é o caso da cozinheira Rosineth Aparecida Mendes Fiuza, 43 anos, que soube, por meio de uma amiga, da oportunidade para sua filha Larissa, 13 anos. A moça quer ser designer de moda e conta com o apoio da mãe. Para ela, o curso fez toda a diferença. “A forma como ela se sente engrandecida é fascinante. Passou a se comportar com mais sabedoria e se sente mais segura, além de se interessar mais pelos estudos”, orgulha-se Rosineth.
Minervino Junior/CB/D.A Press

O testemunho da mãe da Larissa levou Ozaina a dar oportunidade para mais crianças sem muitas condições financeiras. Então, há dois anos, ela trabalha em parceria com ONGs que auxiliam crianças entre 6 e 15 anos em situação de vulnerabilidade social. A primeira delas foi a Ação Social da LBV, que atende meninos e meninas que vivem na Estrutural. “A maior conquista desse curso é o empoderamento das crianças e dos adolescentes que atendemos”, diz a gestora social da ONG, Eldilene Leal Gonçalves da Silva, 31 anos.

No começo, perguntavam a Ozaina se seria possível dar o curso de etiqueta mesmo crianças que nem têm mesa em casa. De fato, ao ministraras aulas, ela se deparou com a situação. Uma delas, certa vez, se aproximou dela e relatou a circunstância: “Tia, não tenho mesa em casa. Como eu vou comer do jeito que você ensina?”, conta. A instrutora não titubeou na resposta: “‘Você vai crescer, correr atrás dos seus objetivos e não estará nessa situação pelo resto da vida. Vai conseguir chegar lá sabendo como montar a mesa e apoiar o braço”, disse.
 

Fim de velhos hábitos

Em um sábado, 30 crianças da Ação Social LBV foram até o ParlaMundi, levadas, em cortesia, por um ônibus fretado. Diante da mesa pronta para o café da manhã, começaram a receber os primeiros ensinamentos das boas maneiras, sem que percebessem. Naturalmente, a instrutora mostrava à meninada como segurar a taça, como adoçar o café e qual a colher certa para misturar; como deveria pegar o salgado, qual era o guardanapo correto para limpar a boca.

Depois, partiram para a aula teórica e descobriram os porquês de cada instrução aprendida. Logo, era a hora do almoço. “Nesse momento, eles já estão mais familiarizados com tudo o que foi abordado. Mas não finalizamos aí. Ainda faço algumas atividades práticas”, diz a cerimonialista.

Ozaina também estabeleceu parceria com a Ação Social Criança Feliz Notre Dame, da Ceilândia. O local atende crianças e adolescentes entre 6 e 15 anos, encaminhados do Centro de Referência e Assistência Social. As atividades são extraclasse e elas ainda recebem atendimento psicossocial e participam de oficinas de música, artesanato, informática, jogos e educação física, estratégias para promover cultura e proteção em meio à situação de violência.
Carlos Vieira/CB/D.A Press

Evellyn Rodrigues Pereira, 12 anos, é uma das alunas e tem o sonho de ser policial federal e fazer parte do FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. Na instituição, ela aprendeu a tocar a flauta doce baixo barroca (uma espécie bem maior do que a tradicional flauta doce) e se encantou com o instrumento. Quando fez o curso de etiqueta, Evellyn gostava de conversar em sala de aula com as colegas e isso atrapalhava o rendimento escolar. Depois dos ensinamentos, aprendeu a se controlar mais e mostrou para as colegas a importância de aproveitar cada momento. “Vi que tudo tem sua hora e lugar para acontecer”, diz a garota.
 

Dicas 

As crianças são interessadas, prestam muita atenção e aprendem muito rápido. Basta ensiná-las. Ozaina Barros dá três dicas de etiqueta que servem para qualquer idade e valem para qualquer situação.

Festa de aniversário
Ozaina explica que não é preciso vestir roupas novas a cada evento social. Ela cita o exemplo da duquesa de Cambridge, Kate Middleton, que incentiva o consumo sustentável 
e repete suas roupas e as dos filhos nas celebrações. “É a simplicidade que faz a elegância.”

Frango com osso
É deselegante pegar a comida com as mãos? Ozaina explica que, em certos momentos, sim. Porém, em uma situação onde o prato inclui uma coxa de frango, por exemplo, vale reparar se o anfitrião a come com a ajuda das mãos. Se sim, fica a cargo do convidado a decisão de pegá-la também ou não. “Mas é elegante acompanhar o anfitrião nessa hora”, sugere.

Receber o presente
Ganhou um presente embrulhado, mas é algo que você não precisa ou simplesmente não gostou? Ozaina diz que o certo é engolir as críticas e agradecer para evitar constrangimentos. “Não preciso ser indelicado com quem teve a melhor das intenções”, orienta.  
 
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

Contatos

Facebook: facebook.com/ozainabarros 
E-mail: ozainabc@hotmail.com 
Telefone: (61) 98161-9265

Apoio financeiro

O curso de etiqueta para crianças em vulnerabilidade social não recebe qualquer apoio financeiro. Ozaina tem de arcar sozinha com o gasto com utensílios de auxílio, os talheres, pratos, lanches, material didático. Por isso, precisa de ajuda financeira para ampliar o projeto. “É importante prosseguir com essa ideia porque, cada vez mais, as empresas exigem que as pessoas tenham uma boa educação. Isso faz muita diferença na hora de contratar, e essas crianças vão para o mercado daqui a pouco”, pondera.
 
 
(*) Estagiário sob a supervisão de Flávia Duarte 
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