"Síndrome do imperador" faz crianças tomarem o controle da casa

Eles têm autoridade, autonomia e controle da casa, só não têm tamanho: conheça as crianças e os adolescentes com Transtorno Opositivo Desafiador

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postado em 27/08/2017 08:00 / atualizado em 25/08/2017 15:17

“Eu já peguei meu filho pelo braço e fui chorando ao Conselho Tutelar, porque não sabia mais o que fazer.” O desabafo de Lúcia de Freitas, a cabeleireira de 40 anos, é só um resumo da longa história de luta pelo controle da casa, disputado a gritos entre ela e os três filhos, principalmente Renato, o garoto de 11 anos que transforma o lar e a escola em pequenos reinados, nos quais ele é quem dita as regras. Essas atitudes de rebeldia e desobediência, cada vez mais comuns entre as novas gerações, têm nome, sobrenome e apelido, como explica a psicóloga Lilian Zolet: “O termo técnico utilizado para esses comportamentos é o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), mas ele ficou popularmente conhecido como a Síndrome do Imperador”.
 
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Imperador é uma palavra do latim que significa “alguém que se prepara contra”. São aquelas pessoas que regem um império, dão ordens, mas não as recebem. Esse título, tão cobiçado na nobreza, às vezes, é facilmente concedido a crianças, seja com os pais não colocando regras para os filhos, seja deixando eles escolherem o que e quando comer, por exemplo. O tema virou até livro: Síndrome do Imperador — Entendendo a mente das crianças mandonas e autoritárias, em que Lilian Zolet detalha o comportamento desses pequenos: “Eles lideram a casa, xingam pais e professores, definem o que deve ser assistido na tevê, a hora de ir dormir, se querem ou não fazer a tarefa da escola, choram e se jogam no chão, agridem e ameaçam os pais até conseguirem o que querem”, esclarece a especialista.

Renato mesmo confirma que se encaixa em muitas dessas características. Enquanto tenta consertar a roda do carrinho que desmontou por completo dias atrás, o garoto conta que o brinquedo que queria não estava ali. “Esses dias, eu dei uma birra no supermercado porque queria uma arma que atira dardos de isopor e minha mãe não comprou”, lamenta, enquanto busca ocupar o tempo prolongado em casa. 

O garoto tinha acabado de receber uma suspensão de três dias da escola por ter xingado a professora do 5º ano — o que não chega a ser uma novidade para ele. Lúcia cita o mau comportamento de Renato em sala de aula, enfatizando as dificuldades de quem quer que tente dar ordens ao menino: “No colégio, ele não cumpre as regras, não faz as atividades e chega a agredir colegas, professor e diretor”, reclama.

Divorciada, a mãe admite que o controle da casa dificilmente é dela, mas não abre mão de tentar mudar essa história. Para ganhar essa batalha pelo trono, recorre a ajuda profissional, que já faz parte do cotidiano de Renato: “Ele faz acompanhamento no Hospital da Criança há mais de cinco anos. Com psicólogo em grupo, está há dois anos e individual, há um ano. Onde eu consigo ajuda, vou. Porque, se eu desistir, vai ficar pior”, comenta a mãe. E enfatiza: “Eu já tentei de tudo e estou disposta a tentar mais ainda”. 
 
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 

Manda quem tem TOD


As simples palavras “não” e “sim” podem ter consequências enormes no desenvolvimento das crianças, como aprendeu Lidiane da Costa, de 39 anos. A vendedora tem três filhos, mas só dois moram com ela, porque José Vitor, de 15 anos, não aceitou ser tratado como um jovem de sua idade, que recebe ordens dos pais e da escola. O garoto, diagnosticado com Transtorno Opositivo Desafiador, abriu mão até mesmo do próprio lar para ser o imperador do próprio destino. “Ele disse que regras são para serem quebradas, mas eu falei que, enquanto ele comesse do meu arroz e do meu feijão, as regras iam ser respeitadas. Aí ele simplesmente saiu um dia para passear com o primo e ficou morando na casa dele. Isso vai fazer um ano”, narra a mãe, enquanto espera a volta do filho.

O caso não foi o único ato de rebeldia de José Vitor. O adolescente também não aceitou as regras vindas de professores das escolas por onde passou, o que gerou uma sequência de problemas e uma consequência brusca. Lidiane relata: “Eu ia à escola quase todos os dias, porque sempre tinha uma confusão com o José Vitor. Depois que ele passou por uma escola bem rígida, decidiu não ir mais, parou de estudar”. A mãe, que diz não saber mais o que fazer, não encontrou forças para se fazer obedecer: “Ele me disse que vai voltar no ano que vem, e eu vou esperar o tempo dele.”

A vendedora lamenta o comportamento do adolescente, enquanto reconhece erros e aponta causas, que vão desde o exemplo negativo dos ensinamentos do pai de José, como falar para o garoto não se preocupar com os estudos, até um excesso de liberdade dado por ela: “Se meus filhos fazem isso é porque eu os deixo quebrarem algumas regras comigo”.

Para a doutora em psicologia Raquel Manzini, essa desobediência acontece, muitas vezes, porque os pais não conseguem expressar da melhor forma o amor pelos filhos. “Existe uma confusão entre limite e amor. Alguns acham que amar é dar tudo, deixar tudo, mas falta o limite, que tem que ser dado com afeto”, ensina a psicóloga. Ela lembra casos atendidos em sua clínica, em que os pais ficam com medo de serem tachados de “chatos” e acabam permitindo ao filho fazer o que quer.

A especialista em psicopedagogia também esclarece que, quando os pais impõem limites, o amor na família não se perde, mas aumenta. “Os pais precisam se colocar como figura de autoridade, e isso não significa tirar o amor. Pelo contrário. Os filhos crescem e se desenvolvem amando muito esses pais, entendendo como a vida funciona”, diz Raquel.
Divulgação
 

Diluindo a culpa

Embora seja comum condenar os pais, principalmente a mãe de crianças desobedientes, psicólogos afirmam que é injusto colocar a culpa nos progenitores. O diagnóstico de TOD é complexo, mas, embora a maioria das causas seja o comportamento dos pais na criação dos filhos, as didáticas escolares, o contexto social e até mesmo as questões biológicas podem influenciar nas atitudes desafiadoras dos menores. Para Lilian Zolet, os pais que encontram dificuldades em dar limites devem buscar ajuda. “Devido a essa complexidade do transtorno, é essencial buscar a orientação de psicólogos, pediatras e psiquiatras”, comenta.

Raquel Manzini explica também que é preciso ir além do senso comum de culpabilizar os pais, mas não se pode tirar deles a responsabilidade. “Culpa é quando nós fazemos alguma coisa de propósito, com intenção. Mas eles estão tentando fazer o que podem, de acordo com a educação que tiveram na vida deles e com o que foram lendo ou assistindo”. A psicóloga conclui: “Os adultos têm responsabilidade pelos atos dos filhos, então, se o que estiverem fazendo não esteja dando certo, devem parar, conversar sobre isso e tentar melhorar, procurando um psicólogo, por exemplo. Mas culpa não é a palavra certa”, esclarece Raquel. 
 
*Estagiário sob a supervisão de Sibele Negromonte
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