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Estética íntima rompe paradigmas e liberta mulheres do pudor

Libertas do pudor, muitas mulheres encaram a genitália com um olhar mais acolhedor e menos pecaminoso. Nessa nova relação, valorizam e reconhecem a beleza das próprias formas, aceitam as singularidades, ainda que, se preciso, modifiquem o que provoca incômodo em suas partes íntimas

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postado em 27/08/2017 08:00 / atualizado em 25/08/2017 15:27

Sabonetes específicos, ácidos, cremes clareadores, iluminadores, peeling, laser. Todos lembram produtos e procedimentos indicados, a princípio, para cuidar da pele do rosto. Da mesma forma, quando se pensa em técnicas e exercícios para melhorar a flacidez, vêm à mente braços, bumbum e pernas. Mas todos esses tratamentos também podem estar voltados para embelezar as partes íntimas. Em especial, as das mulheres. E elas estão cada vez mais interessadas em aprimorar a estética das próprias vulvas. “Os órgãos genitais femininos são tão pouco conhecidos que até se confunde a definição de vulva com a de vagina”, esclarece a historiadora Tania Navarro Swain, professora da Universidade de Brasília (UnB). Para ela, a vulva é uma palavra quase tabu: “Ela é a parte externa do órgão, a parte do prazer que tem sido ignorada, desprezada, mutilada, depreciada”, afirma.

Essa busca se traduz na quantidade de procedimentos cirúrgicos feitos nas genitálias delas, que aumentou no mundo inteiro. Tanto que, este ano, a descrição da cirurgia na região foi incluída, pela primeira vez, no relatório anual da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos. Segundo a entidade, houve um aumento de 39% nas intervenções em relação a 2015. Mas é aqui, no Brasil, que os números mais cresceram, de acordo com levantamento realizado pela Dall’Ago & Manfrim Cirurgia Plástica. No país, a procura por cirurgias íntimas femininas aumentou 250%, em apenas um ano.

O Brasil não é mais o líder no ranking de nações onde mais se faz cirurgias plásticas — em 2015, ele perdeu a posição para os Estados Unidos. Mas, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), ele se tornou recordista em correção das genitálias femininas. Em 2015, foram quase 13 mil, contra apenas 440 feitas por homens para alongar o pênis. 

Arte empoderadora

Jamie McCartney/Reprodução
 

Na arte contemporânea, encontram-se inúmeros exemplos de genitais retratados em mais diversas cores e formas. A professora-doutora Paola Zordan, do Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cita como um dos mais notórios a obra do artista britânico Jamie McCartney, que, coincidentemente, se parece com o projeto Corpo de passagem, da escultora brasileira Vânia Mombach. Ela fez 18 esculturas em formato de vagina, mostrando as estéticas possíveis da genitália feminina. Já McCartney criou um mural itinerante com reproduções das vulvas de 400 mulheres, todas tão diferentes quanto foi possível, intitulado The Great Wall of Vagina.

Ela ainda cita a pintura do pintor francês Gustave Coubert A origem do mundo. “Ela apresenta pelos púbicos, o que, para 1866, auge da Era Vitoriana, era muito impudico. De algum modo, hoje, no Brasil, os pelos são muito mais indecentes e fora do padrão do que a vulva”, afirma. “A genitália feminina sem pelos, rosada, com pequenos lábios e clitóris discretos, pela minha pesquisa, vem da estereotipia feminina e, talvez, de uma pedofilização em sua aparência, veiculada pelas fotografias e pelos filmes pornográficos de ampla circulação”, acredita.

Para ela, a arte mostra que não existe um padrão a ser seguido ou exaltado. “A pornografia é que traz os padrões que tendem a construir uma idealização de genital. A indústria pornô é muito mais abrangente e consumida do que a arte”, analisa.

Ilustrando inseguranças

Arquivo pessoal
 

O artista paulista Diego Cernohovsky, que ilustrou a capa desta edição da Revista, começou, em 2012, a trabalhar com o nu por meio da fotografia. Ele era o modelo. Os objetivos eram a aceitação de seu próprio corpo e a naturalização da nudez, livre de qualquer conotação sexual. Embora o mundo ainda não veja o corpo sem roupas da forma como ele gostaria, isso mudou o pensamento de pessoas próximas. “O que mais me chamou a atenção foi ver a minha mãe compreender a nudez, mesmo que do jeito dela, mas sem a imagem pesada e sexualizada que ela tinha antes”, relata.

Engajado em mudar a simbologia do corpo despido, entre 2013 e 2014, Diego começou a ilustrar o nu masculino. “Convidei meus amigos pessoais, alguns do trabalho, ex-namorados, o atual, e todos toparam”, conta. Eles mandavam uma nude e ele reproduzia em desenho. “No começo, eu só queria fazer um experimento. Queria ver como o mundo reagiria ao ver essas ilustrações, se as pessoas convidadas aceitariam o convite de ter seu pênis ilustrado, e, para a minha surpresa, só uma recusou”, relembra.

Quando o trabalho passou a ser mais divulgado, muitos rapazes começaram a abordá-lo para dizer que tinham vergonha da estética genital, que achavam seus pênis feios ou pequenos. Diego acabava convencendo-os e eles passavam a se enxergar de outra forma. “Comecei a pedir que me relatassem, em texto, questões de suas vidas. Falavam sobre família, religião, abuso, sobre seus corpos, sexualidade etc. Isso mudou completamente o significado do trabalho, porque esses rapazes conseguiram encontrar força e motivação ao ver a coragem do outro”, orgulha-se

Com a inclusão dos depoimentos, ele também tentou ilustrar vaginas, mas teve pouco retorno. Ilustrou os órgãos sexuais de 160 homens e apenas os de 14 mulheres. “As mulheres não me mandam tantas fotos porque é muito mais fácil viver com um pênis. Muitas garotas cresceram aprendendo que a vagina é uma parte do corpo proibida. Também tem a questão do nude feminino, com o qual a sociedade é muito mais crítica do que com os homens. A não ser quando ele tem o membro pequeno. Hoje, eu adoraria desenhar a mesma quantidade de pênis e de vaginas”, opina.

Em junho, Diego expôs suas obras no Museu da Diversidade de São Paulo. As fotos acompanhavam depoimentos dos donos dos pênis e das vaginas ilustradas. Ali, as mulheres escreveram sobre essa relação com o órgão sexual. “Socialmente, é difícil a relação das mulheres com o corpo. Desde cedo, a criança do sexo feminino é condicionada a repudiar a vagina e a tratar a masturbação — que é uma prática tão natural, saudável e instintiva — como um hábito desnecessário e anormal”, disse uma delas.

Outra desabafou: “Acho que, como toda mulher nascida sob um sistema profundamente machista, objetificador e programado para fazer com que você se encaixe a determinados padrões, ou sucumba tentando. Eu nunca tive uma relação pacífica com meu corpo”. 

Arte erótica

Arquivo pessoal
A artista plástica Fátima Calcagno, 67 anos, conta que era a típica bela, recatada e do lar. Dona de casa, foi esposa e mãe de quatro filhos. Além de cuidar dos cinco com zelo, fazia alguns trabalhos manuais: pátina, desenhos, roupas e bijuterias. Mas, quando se separou, em 2002, a vida dela e principalmente a arte dela ganharam novos rumos. “Acabou o casamento, os meninos estavam grandes e me dei esse presente de ser livre, fazer, pintar e viver o que eu quisesse”, conta. 

Descobriu a aquarela e o erotismo. Embora choque muita família tradicional brasileira, já vendeu inúmeras de suas obras. Os pênis estão mais presentes em suas telas, mas as vaginas também são muitas. Aparecem estilizadas, enfeitadas, associadas a borboletas, a flores e a comidas. Sempre vermelhas! “A coisa em mim é tão visceral que não consigo fazer uma xoxota cor de pele”, conta. Os traços de Fátima são cheios de sensibilidade, tão distintos da pornografia. “Essa coisa do filme pornô, dos vídeos superexplícitos disseminara as imagens da vagina de uma forma tão escancarada”, lamenta. 
Arquivo pessoal
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Raimundo
Raimundo - 27 de Agosto às 14:24
Idiotice em nível extremo. Letargia social.